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Arquibancadas vazias para uma torcida em vias de extinção: o futebol que vai de Ipatinga à China

Enrico Spaggiari, Giancarlo Marques Carraro Machado

Nota dos autores

O presente texto é um relato etnográfico escrito em 2012 para fins do projeto “Brasil na Arquibancada”, vinculado ao Ludens.

O texto apresenta descrições que abrangem um determinado período (ano 2012) em que o time do Ipatinga estava prestes a cair e a mudar de cidade.

Por conta disso, por ter sido feito na ocasião, ele não apresenta os desdobramentos futuros. Após a realização desta etnografia o time se reergueu e voltou novamente para Ipatinga, porém este texto centra-se no ano de 2012.

Criado em 1998 em uma cidade de mesmo nome, o Ipatinga Futebol Clube não tardou a ganhar visibilidade a nível nacional. Em pouco tempo conquistou o título de campeão mineiro (em 2005, superando Cruzeiro e Atlético Mineiro), chegou às semifinais da Copa do Brasil do ano 2006 (após derrotar clubes como Santos e Botafogo), e também participou da Série A do Campeonato Brasileiro na temporada de 2008. Todavia, a rápida ascensão do Ipatinga cedeu lugar a uma fase de decadência na mesma proporção. Em apenas duas temporadas o clube foi da Série A para Série C do Campeonato Brasileiro, além de ter sido rebaixado para o Módulo II do Campeonato Mineiro.

O ano de 2012 provavelmente foi um dos piores da história do Ipatinga. Na Série B do campeonato nacional, o clube ficou mais de dez rodadas sem ganhar uma partida, além de ter sofrido algumas de suas maiores goleadas. Os infortúnios do time refletiram nas arquibancadas: a 30º rodada, por exemplo, registrou a marca de apenas 37 torcedores pagantes, uma das menores de todas as divisões do Campeonato Brasileiro.

O que esperar de uma partida entre Ipatinga e CRB (válida pela 33º rodada), com ambos os clubes com um dos piores rendimentos da Série B? Os pesquisadores do LUDENS foram ao Vale do Aço para conferir o embate entre dois times desesperados para não cair para a divisão inferior. O jogo aconteceria no Estádio Lamegão, no dia 27 de outubro de 2012, às 16 horas. Com uma hora de antecedência os pesquisadores chegaram ao estádio, contudo, havia pouquíssimas pessoas nas imediações. Somente dois portões estavam abertos para a entrada dos torcedores, sendo que um deles permaneceu ocioso durante muito tempo. Faltando poucos minutos para o início do jogo, finalmente surgiu uma movimentação de pessoas nas bilheterias. Algumas, inclusive, não precisaram chegar até lá, visto que compraram ingressos com cambistas.

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Torcedor do Ipatinga.

Próximo à bilheteria, cerca de vinte jovens reuniram-se em um pequeno grupo. Foi possível averiguar que se tratava de membros da Raça Jovem, uma das poucas torcidas do Ipatinga. O personagem que a identificava era o Hulk, herói cuja cor da pele é verde (mesma cor do uniforme do time), e o seu lema era “Somos ousados e não covardes”.

A Barraca do Ademar reunia simpáticos senhores. Enquanto comiam churrasquinho, eles relataram que apesar de torcerem pelos principais times mineiros (Cruzeiro e Atlético Mineiro), não perdiam nenhum jogo do time local. Outras pessoas também estavam presentes na barraca. É o caso de Rogério, advogado do Ipatinga, que foi cordial com os pesquisadores convidando-os para assistir ao jogo diretamente de uma sala destinada à diretoria do clube, localizada na parte superior do estádio. De lá foi possível avistar todas as arquibancadas e constatar que a maior parte delas estava vazia.

Enquanto muitas torcidas se caracterizam por uma certa homonegeneidade em relação as camisas e as suas respectivas cores, o pequeno público no Estádio Lamegão não era caracterizado pelas cores referentes ao Ipatinga (conhecido como “Quadricolor de Aço”, em função do verde, vermelho, branco e azul que o simbolizava). Prova disso é que a maioria se vestia com roupas comuns, sem nenhuma identificação com times de futebol. Não obstante, também era perceptível a presença de pessoas com camisas de times da Série A, como Cruzeiro, Atlético Mineiro, Fluminense, Flamengo, Corinthians e São Paulo. Não havia nenhum incômodo em usá-las naquela ocasião, visto que o Ipatinga era encarado como o segundo time da preferência de muitos dos presentes.

Durante o jogo os pesquisadores conversaram com Fabrício, que estava sentado na arquibancada lateral principal. Ao contrário daqueles que apenas nutriam uma simpatia pelo Ipatinga, ele se considerava um legítimo torcedor. O fanatismo estava expresso no mascote do clube tatuado em seu braço. Além de membro da Independente Ipatinguense, torcida organizada do Ipatinga, Fabrício fazia da ocasião uma oportunidade para ganhar dinheiro: ele narrava o jogo (em inglês, via celular) que ocorria no Estádio Lamegão para um site de apostas da China. Concomitante a isso o torcedor ainda falava ao celular com amigos e respondia as perguntas feitas pelos pesquisadores.

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Torcedores seguram a bandeira do Ipatinga.

O Ipatinga conseguiu a proeza de vencer o jogo por 3 a 2. O resultado não foi suficiente para livrar o time da degola, tendo sido rebaixado para a Série C em rodadas posteriores. Apesar do rebaixamento, a maior decepção sofrida pelos poucos torcedores e simpatizantes foi o fato de o clube ter anunciado a sua mudança para Betim, outra cidade mineira. Com essa mudança, o Ipatinga também mudaria de nome. Aqueles torcedores que dedicaram atenção ao clube sentiram-se traídos e demonstraram as suas indignações ao final da última rodada do campeonato. A queima de camisas e de demais artefatos relacionados ao extinto Ipatinga foi o ato que marcou o fim de uma preferência clubística que durou pouco mais de uma década.