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Boatos do pavê

Leandro Marçal

Nos próximos dias, começaremos a desfrutar da época mais lúdica nos campos familiares e futebolísticos. Se o fim do ano nos presenteia com um clima mágico e falso, também conforta nossa barriga com o pavê e a inevitável piada do tiozão em volta da ceia de Natal.

E é nesse tempo de magia fabricada e mentiras sobre Papai Noel que nossos ouvidos e olhos pagam caro na esperança de uma temporada melhor. Pouco há de doce nas especulações dando água na boca dos torcedores, com fome de um ano novo menos amargo, de mais títulos e zoação sobre os rivais.

Começa o mês de dezembro e a gente já revira os olhos ao pensar naquela velha anedota do parente mais velho ao lado da primaiada distante. Mal termina o Brasileiro e as ilusões com o bombardeio de possíveis contratações chegam antes do trenó.

São setas verdes confirmando as transferências e vermelhas indicando um blefe de empresários e dirigentes. As velhas manchetes do presente do bom velhinho levam esperanças aos torcedores e às crianças, tantas vezes confundidos.

– Pode ser que, possivelmente, nada confirmado, mas “se pá” o jogador X está apalavrado (eu disse APALAVRADO, possui um ACORDO VERBAL) com o time Y para um hipotético contrato no próximo ano, ganhando muito mais do que você, mero trabalhador brasileiro.

O tiozão surge na mesma época e ainda há quem caia na armadilha daquela piada, você sabe qual. A gente reclama e diz que não suporta, mas sente falta e até perde um tempinho, finge não saber o final daquilo tudo, só para ele nos divertir com esse filme repetido de sessão da tarde.

BELO HORIZONTE / BRASIL (26.11.2017) Cruzeiro x Vasco, no Mineirão, em Belo Horizonte-MG, pela 37ª rodada do Campeonato Brasileiro © Washington Alves/Light Press/Cruzeiro

Quem vai contratar o craque do outro time? Foto: © Washington Alves/Light Press/Cruzeiro.

Nunca me atentei ao preço do doce natalino e humorístico nas confeitarias. Prefiro contribuir com o processo caseiro de montagem, decoração bolacha a bolacha, mexida para dar o ponto certo à cobertura, para depois colocar na geladeira com todo o cuidado do mundo.

Não olho, tampouco, para os valores dos salários de quem troca de escudo. O desembolso ao levar para casa os ingredientes do motivo da graça, cortado em pedaços na travessa de vidro, é mais importante que os seis dígitos engordando a conta dos boleiros indiferentes.

São tempos típicos. Mal começa o último mês do ano e já me vejo rodeado de panetones, árvores montadas, discussões sobre pernil ou chester, presentes para as crianças. É também antes de terminar a última rodada do Brasileiro que pipocam os rumores de quem vai para a Europa, Oriente, China ou só quer pular o muro do CT e bater cartão sobre a grama do rival.

Tremo de ansiedade em pensar nesse mês interminável. Até assimilo e lido bem com a presença do tiozão. Abro a porta de casa, dou boas vindas e me posiciono próximo a ele ao redor da mesa, quero ter o privilégio de contar quantas vezes vai repetir o surrado bordão. Quando se despede, agradeço aos céus pelo convívio apenas no fim do ano.

Também suspiro quando voltam os campeonatos ao fim da pré-temporada, que mal começa, e o campo volta a ser notícia.

Espero nunca ter de honrar o cargo de tiozão do Natal. Seria obrigado a anotar num papelzinho escondido as falas obrigatórias quando o doce com bolachas saísse da geladeira, questionaria a sobrinhaiada quanto a namorados e namoradas, fingiria não ouvir suspiros de alívio dos parentes quando fosse embora.

Mas ainda vejo mais graça na piadinha de Natal que nas especulações vazias. Nem dá pavê o tal mercado da bola e não sentir sono, nessa época feita pacumê até não aguentar mais.