90.7

Civilização é conteúdo

Marco Lourenço

Um dos arautos da modernidade, o futebol passa por um mais ciclo de reorganização de suas regras e códigos morais. As transformações em curso e em conflito acompanham, como um atacante de beirada de campo, a condução da bola pelo grande articulador do jogo da civilização: o capitalismo.

Identificar estes ciclos é um esforço de análise e síntese complexo, tendo em vista que certas temporalidades antagônicas coexistem em períodos e espaços. O exemplo mais elementar e notório sobre essa afirmativa é o longo período da profissionalização do futebol que abrigou, em meio à sofisticação do futebol como negócio, práticas e valores do amadorismo.

PORTO ALEGRE / BRASIL 07.12.2016 Atlético x Grêmio no estadio do Arena do Grêmio - Final da Copa do Brasil 2016 - foto: Bruno Cantini / Atlético

PORTO ALEGRE / BRASIL 07.12.2016 Atlético x Grêmio no estadio do Arena do Grêmio – Final da Copa do Brasil 2016 – foto: Bruno Cantini / Atlético

A despeito dos vários autores que fortuitamente contestam a linearidade, e sobretudo, o sentido do desenvolvimento do futebol, resgato a interpretação clássica Eliasiana do esporte como processo civilizador para sustentar este breve ensaio, sem grandes pretensões heurísticas.

Tempo de Bola

Tal como qualquer esporte, invenção da modernidade, o futebol abriga valores e códigos de conduta de seu tempo – invariavelmente postos em disputa entre os grupos com grande representação e os excluídos de visibilidade e reconhecimento. Já no futebol, ter o “tempo de bola” significa ter precisão, sagacidade e sensibilidade no jogo – quase sempre se antecipando e claro, vencendo a disputa.

Certas disputas sociais e simbólicas dentro do futebol também estão sob essa alegórica variável. No entanto, é sabido que as condições para este tempo de bola são muito diferentes dentro e fora de campo, de modo que as forças que mobilizam a reorganização do esporte sucumbem ou prosperam não pelo mérito técnico esportivo, tal como geralmente ocorre nas quatro linhas, mas por interesses e conveniências específicas de cada tempo.

Para além desta primeira grande reorganização das primeiras décadas do século XX – a ascensão da profissionalização – o ingresso de atletas negros nos campeonatos oficiais, tensão contemporânea à crise do amadorismo, ganha força com a visão modernista brasileira que forjou uma identidade nacional construída pela miscigenação racial.

Não apenas formalizar, mas também atribuir valor – ainda que com muitos limites – à presença do negro no futebol por ser integrante da identidade nacional brasileira é um processo emblemático para o fio condutor desta narrativa que apresento. Fora das quatro linhas, o “tempo de bola” não era o ideal, e sim o possível: seja na imprensa (Mário Filho), na academia (Gilberto Freyre), na literatura (Mário de Andrade) ou mesmo no Estado (Getúlio Vargas) adotaram, cada um à sua maneira, em sua análise, o lugar do negro dentro da sociedade brasileira.

O presidente Getúlio Vargas fechando o acordo com Mestre Bimba para a abertura da primeira academia de capoeira no país, reconhecida pela Secretaria de Educação, Saúde e Assistência Pública.

O presidente Getúlio Vargas fechando o acordo com Mestre Bimba para a abertura da primeira academia de capoeira no país, reconhecida pela Secretaria de Educação, Saúde e Assistência Pública (1953).

O “tempo de bola”, portanto, pode ser confundido como uma espécie de “contexto histórico” que viabiliza certas reorganizações no esporte. Contudo, mais que uma interpretação demasiada simplista e de certa forma tautológica, a ideia que gostaria de expressar é de uma conformidade imbricada de agentes que demandam e deliberam; combatem e conservam; compartilham ou segregam; incluem ou excluem.

Sendo assim, o ingresso dos mais pobres, negros, ou mais recentemente, da presença das mulheres no futebol é resultado de uma combinação complexa de forças, como a luta e resistência por espaço e representatividade ou a flexibilização e os interesses econômicos pela incorporação destes atores no mercado do futebol que se consolidam em um dado “tempo de bola”, tal como o quase popular conceito romântico resgatado por alguns pós-modernos, zeitgeist – espírito do tempo.

O conteúdo como forma civilizatória

Com o passar do século, muitas reorganizações no futebol são adotadas e cada vez mais rapidamente. Como um grande meia invisível, o capitalismo assina na camisa outro nome: civilização. Ele se mantém aparentemente centralizado, como é conveniente, seguro e auspicioso. O mundo moderno metaforicamente vivido em uma partida de futebol sem apito final tem a cadência desse articulador, sagaz, que sabe quando e como agir: quando deve jogar pela direita ou pela esquerda; quando deve recuar ou atacar; dar uma assistência ou finalizar.

Ter a “leitura do jogo” neste caso não remete a um valor “correto”, necessariamente. Especialmente em tempos de polarizações políticas e ideológicas reaquecidas e reinventadas, o “tempo de bola” preciso para importantes reorganizações da organização do futebol está sob controle do meiocampista civilizador que dá o ritmo de acordo com as circunstâncias do jogo.

O exemplo mais recente e categórico é a comoção internacional com a tragédia, criminosa pelo que sabemos até agora, do avião da Chapecoense. O assunto que foi explorado intensamente nas últimas semanas trouxe desdobramentos acerca do posicionamento das entidades e atores esportivos envolvidos ou não com o cenário nacional.

Em um comentário em sua página do Facebook, o professor da USP Ary Rocco destaca a estratégia de comunicação do Club Atlético Nacional, equipe que disputaria a final da Copa Sulamericana contra a Chapecoense. Segundo Rocco, “O clube, que supostamente foi ligado ao narcotráfico nas décadas de 1980-90, soube aproveitar o trágico acidente ocorrido com a Chapecoense e se posicionar, junto ao mercado global do futebol, como uma marca com princípios e valores ligados ao fair play e à solidariedade humana”.

A solidariedade e a sensibilização que se espalharam em todo o mundo são inegavelmente tocantes e genuínas. Contudo, o que é discutido aqui são as ações dos grandes atores do futebol, articuladores do jogo, que identificaram o “tempo de bola” preciso para manter o sentido “civilizador” do esporte. Ainda sobre o Nacional, o professor da USP elenca os méritos da estratégia de comunicação: “O ganho de mídia espontânea global obtido pela marca em todo mundo, nos últimos dias, é de um valor incalculável. Um case fantástico (…) Gestão profissional é isso: excelente performance esportiva e administração de primeiro nível”.

Diante de uma referência exemplar, com valores aceitos pelo senso comum e alinhados com a noção do fair play, qualquer discurso ou gesto ainda que ligeiramente dissonante é repudiado e combatido. O caso que mais chamou a atenção é o do Internacional de Porto Alegre. A declaração mais polêmica do vice presidente de futebol, Fernando Carvalho, que em meio ao clima de tragédia da Chape, lamentou os prejuízos que o Inter sofreria com o adiamento dos jogos e a “própria tragédia” na luta contra o rebaixamento. As reações à fala do dirigente foram severas e impactou diversos atores futebolísticos do Inter, desde os jogadores e até mesmo cartolas antigos do clube.

O linchamento ao clube teve a amplitude proporcional à solidariedade demonstrada às vítimas da queda do avião, mas revelou um fragmento do que apresento aqui. Tida como uma postura avessa ao que é civilizado, a imagem do Internacional, estendida grosseiramente aos seus torcedores, foi depreciada e agredida. E como pretendemos demonstrar, o sentido civilizatório não corresponde a uma noção moral muito clara ou linear. Em mais uma cena lamentável do futebol brasileiro, um torcedor do Fluminense hostiliza um grupo de torcedores do Inter, recém-rebaixados à segunda divisão.

 

O ódio explícito nas imagens não passa nem perto das “provocações saudáveis e inofensivas” frequentemente defendidas por grande parte da crônica esportiva. Diversos elementos contribuem para criar ou potencializar um episódio como esse: o calor do jogo (Fluminense x Internacional haviam acabado de jogar); o mal estar causado pelas declarações de dirigentes e atletas do Inter; e até mesmo pela inflamação conservadora no Brasil. Resultado: a vida pessoal do torcedor tricolor em questão revirada, exposta e ameaçada, ou seja, mais ódio e violência, agora direcionados e justificados por uma patrulha moral sempre em riste diante de qualquer oportunidade de espoliar a vida privada de qualquer pessoa nas redes sociais.

A reação do torcedor tricolor também trouxe malefícios significativos à reputação de seu clube, que já conta com muita rejeição, seja ela mais abstrata – por sua origem aristocrática – ou mais concreta, pelo famoso “tapetão”. Convicto disso, o Fluminense convoca o próprio agressor para um “pedido de desculpas” formal, após prontamente declarar total repúdio às ações do torcedor.

Dentre as diversas reorganizações as quais o futebol é submetido, uma das mais sofisticadas se remete ao seu primeiro ciclo de ajustes, podemos assim dizer. “Cada vez mais profissional”, o esporte dialeticamente intensifica a importância do seu aspecto administrativo, indubitavelmente dependente de uma gestão assertiva de sua comunicação, ao mesmo tempo em que abraça valores e princípios herdados do ideário do amadorismo, atualizados no idioma FIFAneiro como a cultura do fair play.

 

O jornalismo, as relações públicas e a publicidade são esferas da atividade humana e do mercado que passaram a ocupar um lugar estratégico fundamental para as entidades e atores esportivos. Como uma categoria mais abrangente, a comunicação no esporte, mais especificamente no futebol, é o segmento que tardiamente está entrando nesta reorganização profissionalizante.

Em linhas gerais, o front estratégico das entidades esportivas é hospedado em suas páginas, canais e redes sociais oficiais. Tudo que é produzido hoje para a internet é entendido como conteúdo, elemento fundamental para construir, lapidar, abalar ou destruir uma reputação. A reputação do clube, da entidade ou mesmo do próprio atleta é seu capital simbólico em um mercado muito concorrido de torcedores consumidores e apoiadores patrocinadores.
A gestão da comunicação no futebol caminha nesta direção: a boa reputação construída por um bom conteúdo dentro de uma boa estratégia. O repetitivo “bom” citado acima é aquilo que é assertivo, o que dentro de campo, seria o preciso “tempo de bola”. Como um grande negócio que também é, o futebol articulado pela lógica da mercadoria, que carrega sua égide civilizatória, aguarda o tempo certo para jogar por um lado ou por outro.

 

Nos termos Eliasianos, o processo civilizatório não só se manifesta, como se reinventa, pela comunicação, em um período histórico marcado por uma profunda, ampla e intensa utilização da internet e das ferramentas digitais. Àquilo condizente com o processo, articulado pela dinâmica do capital, um case de sucesso, missão cumprida, reputação fortalecida e o valor da imagem do clube e do próprio futebol engrandecidos. Ao restante, à despeito de qualquer juízo moral, a relegação, o esquecimento ou a depreciação da sua imagem e do seu principal produto, o futebol.