96.4

Quando as meninas invadem o campo dos meninos: conheçam a Laura

Ana Cláudia Bianconi, Osmar Moreira de Souza Júnior

No ano de 2016 o desabafo de um pai nas redes sociais gerou grande repercussão, chegando a ganhar algum espaço nos noticiários locais, regionais e inclusive nacionais. Tratava-se da revolta do senhor Lauro Pigatin, com o fato de sua filha Laura Pigatin ter sido proibida de participar do campeonato estadual de São Paulo na categoria sub-13 por sua equipe após a mesma ter se sagrado campeã da fase municipal em São Carlos.

Laurinha2

Laura (5ª em pé atrás da esquerda para a direita) com a equipe da ADESM-São Carlos.

Qual o motivo? Laura é uma menina e a competição, segundo os representantes da entidade que a organiza (SELJ-Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude do Estado de São Paulo), é voltada exclusivamente para meninos.

Alguns podem pensar que não haveria nada de errado nessa decisão e que Laura deveria participar de competições voltadas para equipes femininas. Mas, ocorre que as competições femininas da mesma entidade iniciam-se apenas com a categoria sub-16. Ou seja, Laura (e qualquer outra garota abaixo da categoria sub-16), à época com 12 anos, é forçada a uma iniciação tardia no futebol competitivo.

Integrante do ProFut, a professora Ana Cláudia Bianconi trabalha com as categorias de base do futsal feminino de São Carlos, e iniciação na modalidade para crianças e adolescentes. E foi nesses espaços que conheceu a Laura mais de perto. Portanto, ninguém melhor que nossa companheira Aninha para nos apresentar a Laurinha.

Laurinha3

Laura (última da esquerda para direita das agachadas a frente) com a equipe de futsal de São Carlos.

A Laura é uma de minhas alunas, com 13 anos de idade e apaixonada por futebol, mas para contar a história dela, vou primeiramente apresentar como nos conhecemos.

Pois bem, eu conheci a Laura antes dela me conhecer e isso foi possível porque os meninos que participavam das aulas de futsal junto ao projeto no qual desenvolvo meu trabalho falavam muito da Laura: “Nossa, a Laurinha joga muito! Você conhece professora?” e eu sempre dizia “não” e pensava “ainda não a conheço pessoalmente”. Passavam alguns dias e vinha outro: “Professora, você conhece a Laurinha? Ela treina com a gente lá no sindicato e joga muito” E nestas conversas aqui e ali eu acabei conhecendo a Laura. Acho que na verdade, os alunos sabendo que eu jogava futsal e era a treinadora da equipe de base feminina, pensavam que ela poderia ser “uma contratação”, ou poderia algum dia vir a jogar na minha equipe.

Laurinha1

Laura em partida pela equipe da ADESM-São Carlos.

Foi exatamente assim que aconteceu, passaram alguns meses, quando em 2016 eu iniciava novamente uma equipe sub15. Diante da necessidade de buscar novas meninas para formar a equipe, me lembrei dos meus alunos e fui procurar a Laura nas redes sociais. A encontrei no Facebook, falei com os pais e ela começou a treinar com as meninas. De início percebi que a garota jogava há um bom tempo mesmo, com qualidade técnica diferenciada para uma menina de 12 anos e bom entendimento tático para idade.

Nos conhecemos pessoalmente e com os treinos, jogos, convívio e conversas nos aproximamos mais o que me permitiu compreender a Laura e é esta que agora vou lhes apresentar.

A Laura é uma menina hoje com 13 anos, que desde pequenininha mostrou gosto pelo futebol; por sorte tem pais que olharam para esse desejo da menina com respeito e carinho e a permitiram jogar futebol, não só permitiram como incentivaram (eles a acompanham em todos os jogos que podem, levam aos treinos e fazem de tudo para que ela continue fazendo o que gosta).

Assim, com quatro anos ela começou a jogar futebol com os meninos, pois na escola em que estudava era oferecido às meninas aulas de balé e aos meninos futebol, mas a Laura não quis participar do balé, escolheu o futebol e lá se firmou. Com o tempo, começou a se destacar mesmo entre os garotos e iniciou sua participação nos campeonatos com os mesmos.

Aos 12 eu a convidei para treinar futsal com as meninas e participar das competições no sub15. A Laura apesar de mais nova, não é uma garota “mirrada” e mesmo lidando com meninas mais velhas e com “mais corpo”, conseguia jogar de igual para igual, conquistando a vaga de titular da equipe. Na verdade o fato dela estar alguns passos à frente das demais faz com que em alguns momentos ela não se sinta tão motivada para jogar entre as meninas.

Mesmo iniciando no futsal, ela sempre deixou claro que sua preferência era pelo futebol de campo, e por assim ser se algum dia os jogos chocassem ela iria jogar futebol e isso com os meninos de sua idade. Aliás, no ano passado, quando ela ainda estava com 12 anos, participava do sub13 entre os meninos. Apesar da diferença de idade e gênero isso nunca foi problema para ela nos treinos, até o dia em que foi proibida de jogar o campeonato estadual.

Aqui em São Carlos, durante o primeiro semestre a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer organiza um campeonato com intuito de eleger uma entre as várias equipes de futebol, que possa representar a região na competição estadual. Acontece que nesta ocasião, diante da novidade da inscrição de uma menina entre os meninos, foi discutido com as demais equipes a possibilidade ou não da participação da Laura no campeonato. Com algum “burburinho” foi decidido que ela poderia participar do campeonato. Assim, ela disputou toda a fase de classificação estadual com seus colegas e foram campeões, conquistando a vaga para representar a região na fase estadual.

Esse é apenas o início da história da Laurinha. Conforme já antecipado pela nossa companheira Aninha ela ainda seria proibida de participar da fase estadual do campeonato, mas sua família não aceitou passivamente a decisão da SELJ do Estado de São Paulo. Deixemos essa segunda parte da história para nosso próximo texto.