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Copa de 1938: rádio, festas nas ruas, cinema: torcendo pelos bravos legionários

Plínio Labriola Negreiros
Publicidade dos Cigarros Leônidas. A Gazeta, 11/09/1938. Mais do que “garoto-propaganda”, Leônidas da Silva, o mais destacado jogador brasileiro na Copa de 1938, oferecia o nome a uma marca de cigarros.

Publicidade dos Cigarros Leônidas. A Gazeta, 11/09/1938. Mais do que “garoto-propaganda”, Leônidas da Silva, o mais destacado jogador brasileiro na Copa de 1938, oferecia o nome a uma marca de cigarros.

Publicidade de um cinejornal sobre o jogo entre as seleções de futebol do Brasil e da Polônia. O Estado de São Paulo, 12/06/1938.

Publicidade de um cinejornal sobre o jogo entre as seleções de futebol do Brasil e da Polônia. O Estado de São Paulo, 12/06/1938.

Volto a tratar da Copa de 1938. Anteriormente, o objetivo foi reconhecer o papel dos brasileiros na preparação da seleção nacional (ver http://www.ludopedio.com.br/arquibancada/copa-de-1938-nacao-entra-em-campo/). Aqui, olho para as várias formas do ato de torcer.

No dia 5 de junho de 1938, um domingo, após de um longo processo, finalmente a seleção brasileira de futebol entrava em campo na busca de uma vitória, que permitiria que o time avançasse rumo ao título. Observe-se, por um lado, que a regra do campeonato baseava-se em jogos eliminatórios, nos quais o time perdedor deixava o campeonato e o vencedor seguia em frente; por outro, as partidas receberam, em termos de Copa do Mundo, inéditas transmissões radiofônicas. Mais: passados alguns dias de cada partida, as imagens podiam ser vistas no cinema.

Assim, cada partida era decisiva. Thomaz Mazzoni, cronista esportivo d’A Gazeta, de São Paulo, presente ao evento, anos mais tarde, no clássico A História do Futebol no Brasil, descreveu a primeira partida:

Chegou o dia da nossa 1ª partida e minutos após iniciado o prélio, contra a Polônia, o público teve a certeza de que os brasileiros venceriam por 7 ou 8 gols… Superioridade absoluta. Mas, nosso quadro, sempre com a velha mania das brincadeiras facilitou tanto que o prélio terminou empatado. Incrível, estivemos a pique de sofrer um grande castigo. A última hora começou a chover. Domingos, febricitante, disputou uma das suas piores partidas internacionais. Felizmente, tudo se arranjou. Vencemos na prorrogação por 6 a 5 e a lição ficou… sem ser aproveitada pelos nossos jogadores, pois nos prélios seguintes fizemos o mesmo, gostavam mais de zombar dos adversários do que meter-lhes o couro nas redes…

No segundo tempo da partida, o selecionado brasileiro ganhava por 3 a 1 e, segundo Mazzoni, o time começou a desrespeitar os adversários, utilizando-se de jogadas de muito efeito plástico, mas sem qualquer objetividade, que seria a marcação de mais gols e selando o resultado a favor dos brasileiros. O adversário foi-se sentindo humilhado e reagiu, empatando o jogo em 4 a 4, levando a partida para uma prorrogação. No final, vitória do time do Brasil, por 6 a 5; porém, com muita dificuldade, pois na prorrogação, que durou 30 minutos, foi jogada sob forte chuva, o que dificultou a ação dos brasileiros, além de gerar um grande cansaço.

E se a vitória da seleção de futebol foi dramática, a recepção dos torcedores não teria como ser diferente. O espaço dado pelos jornais, no dia seguinte ao jogo, foi muito grande. Dentro desse noticiário, era possível perceber a importância que os torcedores estavam dando àquela competição, na qual cada jogo adquirira o caráter de decisão. No Correio da Manhã carioca, lia-se a seguinte notícia:

Torcendo pela vitória dos brasileiros – Matou-o a emoção!

Campos, 6 (do correspondente) – Toda a cidade recebeu consternada, após a notícia alvissareira da vitória brilhante dos brasileiros sobre os poloneses em disputada do Campeonato Mundial de Futebol a notícia de que, fulminado pela emoção intensa, falecera o chefe da estação postal-telegráfica, sr. Dario Balesdent.

— Sexto gol dos brasileiros!

Balesdent ouve e rompe em vivas ao Brasil. Silencia repentinamente e sente obscurecer-lhes a visão. Chama a esposa, que ao chegar apressadamente vê o marido já estendido, agonizando. Quando chegou o médico, o sr. Dario Balesdent era cadáver.

Deixa o extinto viúva a sra. Maria Balesdent e órfão o sr. Enéas Balesdent, médico. Tinha 49 anos de idade e chefiava os serviços postais-telegráficos havia muitos anos.

Em contraposição à tristeza por essa morte, segundo o mesmo periódico, explosões alegrias: um jornal mineiro organizou um “bolão” em relação a essa partida contra a Polônia e um estudante acertou o resultado, ganhando 1:350$000.

A imprensa fazia questão de mostrar que as manifestações vinham de todos os rincões do país, não sendo assunto privativo dos torcedores mais fanáticos do eixo Rio-São Paulo; era o brasileiro comum envolvido com os destinos do futebol nacional.

O poder da vitória do quadro brasileiro produzia efeitos muito mais complexos, que mereciam uma atenção maior dos jornalistas esportivos. Nesse sentido, destacava-se um comentário do articulista d’A Gazeta, que assinava Eme-Eme, sobre o comportamento dos torcedores na cidade de São Paulo após a peleja contra o time polonês, guardado sob um título instigante: “Estrangeiros, mas brasileiros”:

Mil, dez mil, duzentos mil ou número maior de pessoas, talvez a população inteira de São Paulo manifestou domingo a sua grande alegria pelo triunfo dos brasileiros na primeira partida da ‘Taça do Mundo’.

Nesse momento, fizemos ideia do que se passou em todo o Brasil pelo sentimento de pesar que se apossou de todos os que, aqui, na GAZETA, acompanhavam a irradiação do prélio de Strasburgo.

Defronte ao jornal, onde estacionava verdadeira multidão, a expressão de tristeza não era menor, o pesar se estampava nitidamente em todas as fisionomias.

Impossível que não vencêssemos tal jogo, daí o desespero indisfarçável que se apoderou de todos, a atmosfera pesada que envolveu São Paulo como teria envolvido o país inteiro.

O mesmo jornalista percebeu que não fora apenas uma vitória dos brasileiros:

Milhões de brasileiros sofreram, mas com eles sofreram também milhares de estrangeiros.

Italianos, portugueses, húngaros, espanhóis, e filhos de outros países se associaram aos nossos sentimentos patrióticos e nisso residiu o nosso maior conforto.

Não apenas os brasileiros almejavam a vitória do Brasil sobre a Polônia, mas também os estrangeiros radicados no Brasil e que trabalham e colaboram pela nossa grandeza e nosso progresso.

Domingo, em São Paulo, todos foram brasileiros e bons brasileiros, e uma prova temo-la nos ‘botecos’ de portugueses, nas ‘cantinas’ de italianos, nas residências dos húngaros e em outros lugares habitados por estrangeiros, onde enormes cartazes foram colocados às portas, com o resultado do encontro, e foguetes espoucaram em regozijo pelo triunfo.

A crônica que chegava do Rio de Janeiro recolhia a emoção vivida pelos cariocas:

Vivemos minutos de emoção contida. A possibilidade de vitória era admitida por todos. Na Avenida e adjacências, viam-se grupos apinhados em torno de alto-falantes e de automóveis portadores de rádio. Cada ‘goal’ dos brasileiros era anunciado pelas buzinas dos autos e pelo vozerio da assistência.

Ao fim dessa ‘torcida’, conhecidos os resultados, cabendo a vitória aos brasileiros, mau grado as condições péssimas com que tiveram de enfrentar os poloneses…toda a cidade explodiu de alegria.

O rádio não se limitou à transmissão dos jogos; o espaço de uma semana entre o primeiro e o segundo jogo, proporcionou aos ouvintes do Brasil programas especiais, nos quais as vozes dos “heróis” daquela jornada podiam ser ouvidas diretamente da França. Nesse sentido, uma peça publicitária, de 08 de junho de 1938, anunciava:

“Se brasileiro é, tenha fé

HOJE, ÀS 19 H 30

diretamente da França

falarão, em sensacional reportagem, o grande técnico PIMENTA, e os grandes cracks LEÔNIDAS, DOMINGOS, PERACIO, HERCULES, BATATAES, LUIZINHO, ROMEU, etc…

Essa irradiação que é patrocinada pelo

“PEITORAL BARUEL”

será feita pelas seguintes estações: Mayrink Veiga (Rio), S. Paulo, Record, Cultura, Difusora, Tupy, Excelsior.

HOJE, ÀS 19 H 30

Da França para o Brasil

SE BARUEL É, TENHA FÉ”

Já a CBD continuava o seu trabalho de envolver os torcedores com os destinos da seleção, mais do nunca atada aos destinos do Brasil. Sob um título sugestivo, afirmava a nota:

Bravos Legionários

A CBD patrocinou a iniciativa de ser enviado em telegrama coletivo à embaixada brasileira de futebol.

Cerca de trezentas pessoas firmaram o seguinte despacho:

‘Aos bravos legionários de Strasburgo e Bordéus a gratidão de todos os brasileiros.’”

As felicitações continuavam, com outro padrão de torcedores, caso da filha de Vargas e do próprio presidente:

“A srta. Alzira Vargas, madrinha do scratch, enviou o seguinte cabograma de felicitação:

‘Confiante na vitória do Campeonato, envio-lhes entusiásticos cumprimentos pela magnífica afirmação esportiva de hoje.’”

Também a presidência da República manifestava:

“O Gabinete Civil e Militar do presidente Getúlio Vargas congratula-se com a brilhante vitória dos valorosos e esforçados jogadores patrícios — Luiz Vergara e general Francisco José Pinto.”

E a população brasileira, espalhada por todo o país, também expressava a sua alegria. N’A Gazeta, em pequenas notas que pretendiam dar a ideia de que em cada canto do Brasil registra-se a empolgação de várias regiões do país, tem-se ainda após a vitória, depois de duas partidas, contra a Tchecolosváquia:

O desenrolar do jogo Brasil-Tchecolosváquia foi acompanhado pela população dessa capital [Recife] com grande entusiasmo.

Ao meio-dia, o expediente nas repartições públicas foi suspenso e o comércio fechou.

Depois da vitória dos jogadores brasileiros, o povo percorreu as ruas da cidade dando vivas aos jogadores. Falaram vários oradores exaltando o mérito do ‘cracks’ que, de maneira tão brilhante, classificaram o Brasil na semifinal para a disputa da Taça do Mundo.

A vitória dos jogadores brasileiros em Bordéus foi festivamente recebida nesta capital [Belo Horizonte].

Toda a população acompanhou com grande interesse a irradiação da sensacional partida e cada feito dos brasileiros era acolhido com vivo entusiasmo.

Depois da vitória espoucaram milhares de foguetes e numerosos morteiros. O povo organizou um cotejo que percorreu as ruas centrais dando vivas ao Brasil e aos jogadores que tão brilhantemente defenderam as cores sul-americana no campeonato mundial de futebol.

Informam de Guaxupé que o povo daquela cidade vai oferecer a Hércules, filho dali, quando do seu regresso da Europa, uma medalha de ouro comemorativa da participação do selecionado brasileiro na disputa do campeonato mundial de futebol.

A população [e Fortaleza] acompanhou com grande entusiasmo o desenrolar da partida de futebol entre brasileiros e tchecoeslovascos.

Ao terminar o jogo o povo prorrompeu em entusiásticos vivas ao Brasil e aos jogadores brasileiros.

Foi improvisada uma grande passeata que se dirigiu até o palácio do governo onde discursou, debaixo de aclamações, o interventor interino, sr. Martin Rodrigues.

Os jornais deram diversas edições dedicando páginas inteiras ao assunto.”

Com a vitória sobre a seleção tcheca de futebol, a equipe brasileira teria de enfrentar o selecionado italiano; no caso de uma vitória nesta partida, o selecionado do Brasil iria disputar o título do campeonato. Se a emoção havia tomado conta da “nação” nos três primeiros jogos, esse quarto era muito mais importante, já que o futebol brasileiro nunca havia chegado tão longe numa disputa de Copa do Mundo, haja vista as fracassadas campanhas de 1930 e 1934. Dessa forma, a euforia dos primeiros jogos, agora havia se multiplicado; mais do que nunca o Brasil necessitava daquela vitória; a “nação”, como já vinha acontecendo, continuava atenta, pronta a entrar em ação, por mais uma conquista nacional.

Porém, apesar de todo esse clima de unidade nacional a partir da Copa do Mundo e, como se viu, de todos os elogios que partiram da imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro ao comportamento dos estrangeiros radicados nestas cidades — estrangeiros que torceram tanto pelo Brasil que acabaram sendo chamados de brasileiros —, um pequeno senão ocorreu no Rio Grande do Sul, noticiado pela imprensa local e pela A Gazeta:

Porto Alegre, 15 (H) — O interventor federal, coronel Cordeiro de Faria, autorizou aos diretores das repartições públicas a permitirem que os funcionários possam ouvir amanhã a irradiação da partida de futebol entre brasileiros e italianos, que será feita em diversos pontos da cidade.

Em algumas repartições os chefes permitiram que fossem instalados aparelhos de rádio.

Numa fábrica dirigida por um estrangeiro, os operários pediram permissão para suspender os trabalhos às 2 horas e reencetá-los depois de terminada a pugna. O patrão não aceitou a proposta e os operários resolveram não comparecer ao serviço.

Esse patrão, adjetivado enfaticamente como estrangeiro, não atento ao clima que a nação vivenciava, não permitiu que os seus trabalhadores pudessem dar a sua contribuição para a “vitória do Brasil”.

Publicidade anunciando a transmissão radiofônica do jogo entre os selecionados de futebol do Brasil e da Itália. A Gazeta, 15/06/1938. O rádio utilizou-se dos anúncios nos jornais para promover ainda mais as suas transmissões e, consequentemente, os seus patrocinadores. Inclusive, em uma dessas chamadas publicitárias, A Gazeta convidava a população para escutar a irradiação de uma partida defronte a sua sede, lugar em que seriam instalados alto-falantes.

Publicidade anunciando a transmissão radiofônica do jogo entre os selecionados de futebol do Brasil e da Itália. A Gazeta, 15/06/1938. O rádio utilizou-se dos anúncios nos jornais para promover ainda mais as suas transmissões e, consequentemente, os seus patrocinadores. Inclusive, em uma dessas chamadas publicitárias, A Gazeta convidava a população para escutar a irradiação de uma partida defronte a sua sede, lugar em que seriam instalados alto-falantes.

E finalmente veio o jogo contra a Itália. Por mais que a imprensa do Brasil confiasse na vitória contra os italianos, como os brasileiros em geral, sabia-se de todas as dificuldades que seriam encontradas. Resumidamente, a equipe italiana era forte e bem-treinada; assim, os jogadores brasileiros estariam enfrentando uma equipe poderosa, muito mais do que os dois primeiros adversários. Ao mesmo tempo, o selecionado dirigido pelo técnico Adhemar Pimenta tinha uma série de problemas para resolver: ausência de Leônidas da Silva, cansaço do jogo anterior, longa viagem até Marselha, entre outras questões. Porém, para o torcedor comum, longe das querelas de gabinete, nada poderia impedir a definitiva consagração brasileira. Só que nem tudo aconteceu como a maioria dos brasileiros desejava. Thomaz Mazzoni assim descreveu essa partida:

O quadro contrário [a Itália] fez uma grande partida, o juiz o resto… Com um penal contra, perdemos por 2 a 1, mas foi o bastante para não chegarmos mais ao título! Não tivemos outro remédio senão ir nos consolar com o 3º posto… Voltamos tristes e desesperados para Bordeaux.

Todos queriam, porém o primeiro lugar. Por isso a grita, aqui no Brasil foi grande…

Acusações a Pimenta, censura a certos jogadores, o diabo…

A verdade, porém, é que o Brasil fez bonito. A má sorte não quis que o XI brasileiro fosse campeão, eis tudo.

O jogo contra a Itália…resultou na única derrota do Brasil. Muito se comentou.

Aquele dia fatídico quase causou uma…revolução no Brasil.

Todo mundo deixou de trabalhar [foi uma quinta-feira] o decorrer do jogo causou intenso nervosismo, indignação depois, devido ao penal, enfim, não foram poucos os incidentes.

E se a euforia popular havia tomando conta das cidades, a derrota trouxe momentos de apreensão entre os torcedores. Logo após a partida, a delegação de futebol na França, por sentir-se prejudicada pelo árbitro da partida contra a equipe da Itália, entrou com um pedido de anulação da partida. Na prática, esse ato configura muito mais um ato de protesto, já que dificilmente uma partida é anulada por conta dos erros de um árbitro. Porém, para o torcedor amargurado com a derrota inesperada, esse pedido de anulação do jogo tornava-se mais um momento de esperança. Inclusive, junto com a informação de que o pedido de anulação havia sido formalizado, surgiram boatos de que a partida, de fato, havia sido anulada. Enfim, naquele momento de extrema tristeza, era necessário buscar formas de superação da dor. Notícias vindas de Porto Alegre e do Maranhão mostravam o espírito dos torcedores:

A população dessa capital [Porto Alegre] acompanhou emocionada o jogo travado entre as representações do Brasil e da Itália. Sabedora de que Leônidas não jogaria, as esperanças dos porto-alegrenses diminuíram sensivelmente, daí o resultado da peleja não ter causado grande surpresa à torcida local.

O boato da anulação da partida veio trazer uma nova animação, esperando-se ansiosamente a sua confirmação.

Foi indescritível o contentamento popular causado pela notícia de que o jogo entre os selecionados do Brasil e da Itália seria anulado. Durante todo o dia de hoje a ansiedade popular em trono da decisão final da FIFA era grande.

Esperar alguma notícia vinda da Europa passou a ser tão emocionante quanto acompanhar uma partida da seleção nacional.

Enquanto a maioria dos torcedores passou a esperar uma possível anulação da partida, outros entraram em verdadeiro desespero. A seguinte notícia, veio de Fortaleza, logo após a partida contra a equipe italiana:

Em consequência do grave nervosismo popular verificaram-se ontem à noite numerosos incidentes pessoais.

Merece ser destacado o caso da jovem Maria de Lourdes, de 22 anos de idade, a qual torcia apaixonadamente e, ao saber da derrota do team brasileiro, tentou suicidar-se ingerindo forte dose de veneno.

Maria de Lourdes encontra-se em estado gravíssimo.

Em outro caso, outra jovem:

No momento em que era transmitido o jogo Brasil x Itália foi solicitado à polícia de Niterói um carro-forte para remover para a sala de alienados da casa de Detenção, Julia Silva, de 18 anos de idade.

Segundo informou o próprio delegado da capital, sr. Raphael Affialo, a infeliz jovem teria sido acometida de um acesso de loucura motivado pela emoção do desenrolar do jogo.

As vitórias foram muito comemoradas; a derrota para a Itália foi muito sentida. As circunstâncias desse jogo tão polêmico aumentava o sentimento de que a derrota apenas veio a acontecer pela injusta arbitragem.

No dia 19 de junho, as duas últimas partidas do Mundial de 1938: em Paris, os italianos conquistavam o bicampeonato, com uma vitória, 4 a 2, contra a equipe húngara. Em Bordeaux, com o mesmo placar, a vitória brasileira com a Suécia, gerou o terceiro lugar na competição, a melhor colocação até então. Além disso, a delegação brasileira explicitou, oficialmente, na França, a intenção de organizar a Copa do Mundo de 1942. Mas a II Guerra, impediu essa e a Copa de 1946.

Para os torcedores, ainda havia o que fazer por aquela delegação, por aqueles jogadores que foram capazes de mostrar para os europeus o valor do povo brasileiro. Era preciso receber em terras brasileiras os heróis das lutas travadas nos campos de futebol da França:

Poucas vezes se tem visto uma manifestação popular como a do Rio, por ocasião da chegada dos ‘azes’ brasileiros que disputaram a ‘Taça do Mundo’ na França.

Uma verdadeira apoteose. Na capital do país essa foi a maior manifestação esportiva até agora. Em São Paulo lembramos a da chegada dos campeões sul-americanos, em 1919, e a chegada dos campeões do Paulistano da Europa, em 1925, em que toda a cidade vibrou. O III Campeonato Mundial, como é sabido, empolgou todo o Brasil de Norte a Sul e era natural que a recepção aos ‘azes’ no seu desembarque no Rio deveria constituir um espetáculo inesquecível. Todos os nossos ‘azes’ foram homenageados como mereciam, pois todos jogaram e o mérito do 3º lugar foi igual.

O povo, no entanto, chegou ao máximo da vibração com Leônidas, sem dúvida alguma a figura nº 1 do campeonato. Foi um fenômeno, No ‘Diamante Negro’ revive agora a popularidade de ‘El Tigre’, o ídolo do Brasil após o campeonato sul-americano de 1919. Depois de 20 anos surgiu, pois, outra figura que atingiu os píncaros da popularidade, um ‘herói nacional’.

A participação popular continuava no momento de receber os “heróis nacionais”, que levaram o nome do Brasil para os lugares mais altos, os que propiciaram momentos de muita alegria e emoção a cada brasileiro. Esses jogadores foram recebidos como mereciam e como a maior parte da imprensa gostaria que fossem recebidos: como os novos heróis da nação. Os detalhes da recepção do selecionado de futebol não eram pelo O Estado de São Paulo:

Cerca das 15 horas e meia o ‘Almanzora’ em que viajaram os esportistas brasileiros começou a manobrar para a atracação. Na praça Mauá via-se a grande multidão que entusiasticamente aclamava os jogadores. A polícia a posto estabeleceu cordões de isolamento, a fim de facilitar o desembarque.

No mar o entusiasmo não era menor, havendo numerosas lanchas em delegações que faziam constantes aclamações. Vários aviões foram ao encontro do transatlântico inglês. Poucos momentos antes do ‘Almanzora’ atracar os jogadores exceto Leônidas, desembarcaram em lanchas postas à sua disposição pela Confederação Brasileira de Desportos.

A bordo o centroavante da seleção brasileira, interrogado por que não desembarcava juntamente com seus companheiros disse: ‘Em Pernambuco e na Bahia também havia cordões de isolamento e quase fui vitimado pela multidão. Na cidade de Salvador levaram-se da Cidade Baixa para a Cidade Alta, a minha via crucis foi tal que até perdi um sapato.’

Leônidas chamando um amigo entregou-lhe o seu relógio e o alfinete de gravata, receoso de perdê-los dizendo: ‘Aqui também naturalmente haverá cordão de isolamento, mas não sei o que acontecerá comigo…’

Na avenida Rio Branco apresentava-se massa compacta de povo ao lado em que se realizava o desfile, sendo muito difícil a marcha dos veículos. Muitas fachadas estavam ornamentadas. Os jogadores eram muito aclamados, mas todas as atenções voltavam-se para Leônidas. Em vista do extraordinário entusiasmo do público foi tomada a deliberação de fazer Leônidas atravessar a avenida Rio Branco dentro de um carro de transporte de praças do Corpo de Fuzileiros. E assim aconteceu. Aquele jogador passou diante da multidão guardado por praças do Corpo de Fuzileiros, do Exército, da Marinha e da Polícia. Leônidas quase não era visível; mesmo assim foi grande a manifestação feita `a destacada figura do Campeonato Mundial. O povo avançava rumo ao carro, cercando-o por todos os lados e aclamando Leônidas. A polícia tinha de empregar meios enérgicos para romper a massa, mas mesmo assim o desfile só conseguia movimentar-se com lentidão.

brasilxpolonia

Leônidas e a seleção brasileira na Copa do Mundo de 1938.

O cotidiano dos torcedores continuo sempre marcado pelos efeitos Copa de Mundo. Além das intermináveis polêmicas próprias do futebol – a seleção foi prejudicada contra a Itália? Por que Leônidas não jogou a semifinal? Foi pênalti do Domingos da Guia sobre o Piola? -, também as peças publicitárias buscaram a atenção dos torcedores-consumidores. Publicadas nos jornais, é possível verificar o quanto a disputa do campeonato mundial de futebol mexeu com os brasileiros. Não foram poucas as empresas que estiveram atentas ao momento em que se vivia e aproveitaram-se desse momento ao máximo. Principalmente após a Copa, os jogadores do selecionado tornaram-se “garotos de propaganda” muito requisitados.

A primeira mercadoria a ser vendida — inclusive com muita aceitação — foram os denominados filmes-reportagem, que apresentavam sobretudo as imagens das partidas que o time brasileiro havia disputado. As distribuidoras sabiam da ansiedade dos torcedores na espera desse material tão precioso. Ou seja, seria possível ver imagens de partidas acompanhadas dias antes pelo rádio, comentadas exaustivamente pelos jornais e pelos programas esportivos das rádios. Assim, cabia às distribuidoras a disputa para saber quem era capaz de trazer as fitas montadas o mais rápido possível e com o maior tempo de duração, que apresentasse os momentos mais importantes do jogo.

Nesse sentido, a Broadway Programa prometia para o dia 11 de junho de 1938 o filme-reportagem sobre o primeiro jogo do Brasil na Copa, que resultou numa dramática vitória contra a equipe da Polônia. Através de uma peça publicitária publicada no dia 12 de junho, essa distribuidora justificava a impossibilidade de cumprir o prometido, alegando que o avião que traria as fitas para São Paulo não pôde decolar devido ao mau tempo. Ao mesmo tempo, confirmava para o dia 12 de junho, um domingo, a estreia do filme em duas salas de projeção.

É possível notar que esse tipo de material publicitário também cumpria o papel de alimentar a paixão dos torcedores. Nos textos que o compunham, não faltavam frases enaltecendo o desempenho dos atletas brasileiros. Assim, o torcedor poderia ser atraído pela chamada pouco sutil:

O encarniçado EMPATE depois de 2 horas de batalha selvagem mantida galhardamente pelo quadro ‘Azul’. A renhida disputa da VITORIA que, afinal e a despeito de todas as adversidades, coroou o quadro ‘Branco’ do Brasil. ATENÇÃO! Neste filme vereis e ouvireis os nossos gloriosos heróis falando ao microfone para o povo de sua terra estremecida, que anseia de norte a sul por sagrá-los entre os maiores do mundo!

De certa forma, a participação dos torcedores brasileiros na Copa de 1938 inauguraria uma certa forma de envolvimento com o selecionado nacional nas edições subsequentes do torneio mundial. Os apaixonados pelo futebol em 1938 marcariam para sempre a ligação de parte dos brasileiros com o evento Copa do Mundo. Por fim, e não menos importante: a população festejava ocupando as ruas, em um momento no qual as manifestações políticas fora do controle oficial estavam interditadas.