93.4

Criciúma x Inter pela Primeira Liga: Torcer por amor

João Manuel Casquinha Malaia Santos

A palavra mais ouvida foi “amor”. Torcer por amor. E não poderia ser diferente. Só muito amor pode levar torcedores a um jogo para lá de esdrúxulo. Criciúma e Inter-RS se enfrentaram pela 3a rodada da Primeira Liga em uma quinta-feira, 23/2, à noite. Na noite anterior (isso mesmo, 24 horas antes), as duas equipes haviam disputado partidas importantes e eliminatórias pela Copa do Brasil.

O Inter-RS recebeu o Oeste em casa, venceu por 4 a 1 e se classificou. O Criciúma também jogou em casa, contra o Altos-PI e venceu nos pênaltis, após uma partida emocionante e um empate em 2 a 2. Na partida do Inter-RS, 9.308 pagantes assistiram à classificação colorada. Já em Criciúma, 2.042 pagantes estiveram no estádio Heriberto Hulse para ver a vitória na Copa do Brasil.

Bilheterias vazias no Heriberto Hulse

Bilheterias vazias no Heriberto Hulse. Foto: João Malaia.

No dia seguinte, seria a vez do Criciúma receber o Inter pela Copa da Primeira Liga, uma competição inventada por clubes do Sul do país, de Minas Gerais e do Rio de Janeiro para fazer frente à CBF. Sem datas disponíveis no calendário, a “solução” encontrada pelos clubes foi marcar jogos em datas que não respeitam o descanso mínimo dos jogadores de 48 horas. Por este motivo, Criciúma e Inter tiveram que se enfrentar 24 horas depois de suas partidas decisivas na Copa do Brasil usando equipes reservas. Além disso, o Criciúma já estava eliminado da competição e o Inter já estava classificado. Ou seja, o jogo não valia praticamente nada.

Estas características da partida fizeram com que eu me deslocasse ao estádio Heriberto Hulse para conversar com alguns torcedores e ambulantes que se deslocaram ao local para a partida. O objetivo era entender um pouco melhor o que leva torcedores ao estádio em uma partida sem o menor apelo, com equipes reservas e sem objetivos esportivos maiores. E encontramos alguns daqueles apaixonados por futebol, amantes de seus clubes e que não medem esforços para apoiar, independente da competição, situação na tabela ou qualquer outro obstáculo.

Logo ao chegar ao estádio, vejo duas pessoas com a camisa do Inter-RS. Um senhor mais velho e um rapaz mais novo. Ao aproximar-me para uma conversa, descobri serem pai e filho: Nelson e Otávio Baron. Os dois são de Porto Alegre, acompanham o Inter-RS sempre juntos nos jogos em casa e estiveram no dia anterior vendo a vitória do Inter-RS, no Beira Rio. No dia seguinte, se deslocaram a Criciúma para apoiar o seu clube na partida da Primeira Liga. Otávio resumiu o motivo da viagem de Porto Alegre a Criciúma:

“É uma oportunidade de conhecer um estádio fora de casa, relativamente perto de Porto Alegre. Aproveitamos que estamos perto do carnaval para já vir curtir também as praias do litoral.” Seu pai, o sr. Nelson, falou também do alto preço cobrado pelo ingresso (R$50,00): “O jogo não vale nada. O Criciúma está eliminado, o Inter está classificado. Acho que o Inter vem com o terceiro time. Esse valor é um absurdo, é muito caro. Deveriam fazer um preço promocional.”

Pai e filho estavam circulando normalmente pelas imediações do estádio com suas camisas vermelhas do Inter. Perguntados sobre se havia algum receio quanto à violência, senhor Nelson foi enfático: “Hoje até em Gre-Nal tem zona de torcida mista, onde você pode levar uma amigo gremista ao Beira Rio e assistir o jogo ao lado dele. A torcida do Criciúma transita livremente nas imediações do Beira Rio e na hora de ir embora, vão tranquilos. O risco da segurança é o risco do Brasil”.

Após esta conversa, fui a um dos locais que mais prezo quando vou a uma partida de futebol: a sede da torcida organizada do clube mandante. Fui ali para conversar com Os Tigres, torcida organizada do Criciúma, a “Barra” como os próprios torcedores chamam sua torcida. Ao chegar na porta da sede, mesmo em um dia de jogo que não vale nada, lá estava um grupo de cerca de 20 torcedores fazendo um belo churrasco na rua e separando as faixas e instrumentos para entrar no estádio.

Os Tigres são uma barra mesmo. Os instrumentos da torcida lembram os instrumentos das barras argentinas, os bumbos murta com pratos ocupam as prateleiras da bonita sede que fica nas dependências do estádio. E ao chegar ali e avisar que eu estava escrevendo para o Ludopédio, fui extremamente bem recebido. Prontamente me indicaram o Vítor Justino, um porta-voz da torcida Os Tigres.

IMG_0309

A conversa com Vítor me deixou com uma certeza: preciso voltar e escrever apenas sobre essa barra do Criciúma. A torcida respira o clube. Vítor vem de uma verdadeira linhagem de torcidas organizadas: seu avô participou ativamente das primeiras torcidas organizadas do Esporte Clube Metropol, equipe da cidade que fez grande sucesso nos anos 1960, década em que foi cinco vezes campeão estadual. Seu pai foi membro da antiga torcida do Criciúma, a Guerrilha Jovem. E agora Vítor segue os passos de seu avô e seu pai e se tornou um dos principais organizadores dos Tigres e é cotado para se tornar conselheiro do clube nas eleições do meio deste ano.

Vítor define bem o ambiente da partida 24 horas após a decisão da Copa do Brasil: “É um jogo que não tem tesão nenhum. É só pelo amor ao Criciúma, mesmo. O clube é um dos fundadores da Primeira Liga, o regulamento não nos ajuda, jogamos apenas uma partida em casa. Qual o benefício de jogar a Primeira Liga?”

E o que vai levar os torcedores a cantarem nesta partida? A resposta é simples: “O amor pelo Criciúma”. Vítor destaca que há também uma rivalidade entre gaúchos e catarinenses em jogo, mas não há tanta rivalidade como se fosse com o Grêmio. Os torcedores de Criciúma e Grêmio levam uma rivalidade que vem desde a final da Copa do Brasil de 1991, quando o Criciúma bateu o Grêmio e foi campeão da competição. Contra o Inter, há uma certa “amizade” que, apesar de não ser oficial entre as torcidas, faz com que o clima entre eles seja bastante amistoso.

Além disso, Vítor também destaca que o jogo seria um “amistoso da base” e por isso seria importante estar ali para incentivar a “molecada” das categorias de base do clube.

Ao fim da conversa, tirei algumas fotos no interior da sede da torcida e me despedi do pessoal que já estava com os preparativos avançados para a festa. Fui ainda conversar com um ambulante que vende espetinhos de carne e frango na porta do estádio. Daniel, que está ali há mais de dez anos, não se mostrava desanimado com o fraco movimento. Claro que a expectativa para o jogo da Copa do Brasil era maior, mas Daniel sabia que mesmo sendo uma partida que não valia nada, haveria gente para comprar seu churrasquinho: “O pessoal vem aqui mesmo assim. A gente tira um pouco menos, mas a galera encosta aqui e aí começam as histórias do passado do Criciúma. E é cada história!”.

A partida? A partida foi 3 a 1 para o Inter, de virada. O público presente? Foram 1.839 pagantes para uma renda de R$ 25.400,00. O público foi pequeno? Sim. Mas, surpreendentemente, apenas 200 pagantes a menos do que no dia anterior, quando o jogo valia a vaga na quarta fase da Copa do Brasil. O que levou esses 1.839 pagantes ao Heriberto Hulse? Depois destas conversas, podemos resumir uma complexa resposta em uma simples palavra: o amor.