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É culpa do gramado

Leandro Marçal

Se me perguntam o que mais me dá inveja nos boleiros, nunca penso na habilidade, na fortuna com dízimo para os empresários ou no status que os faz se verem acima do bem e do mal, como se não tivessem obrigações de cidadão como o mais comum dos trabalhadores braçais.

Queria mesmo era poder terceirizar a culpa pelos meus fracassos. Podem notar: as entrevistas pós-derrotas são sempre muito mais interessantes do que as dos vencedores.

Os que comemoram títulos usam os mesmos jargões agradecendo ao deus que lhes agracia com tanto dinheiro num país miserável, ressaltam o trabalho mesmo depois da preguiça de treinar ou falam da união do grupo, ainda que o ego lhes impeça, vez ou outra, de passar a bola para outro cara de chuteira colorida ter a chance de se consagrar com o gol do título.

Depois do revés é diferente. A arbitragem é a primeira culpada. Como sofrem esses rapazes, ao menos aqueles menos midiáticos e não-fazedores de média para depois de aposentados terem algum carguinho numa federaçãozinha aqui ou numa emissora ali. Um lance de menos de 10 segundos da uma hora e meia de jogo é a evidência de que os juízes merecem mais críticas do que os perdedores. Mas a reclamação só vale quando é contra o meu lado, óbvio. Suspeito que os comentaristas políticos da internet devem se inspirar em algum “case” desse tipo na hora de defender seus herois que ainda não morreram de overdose, mas seguem lhes entorpecendo.

E quando se critica o vencedor por ter ficado na retranca durante os 90 minutos da peleja? Ah, que se danem as regras definindo o vencedor como aquele que faz mais gols. O recurso de ficar lá atrás fechando a casinha é coisa de covardes e eles sim devem ser criticados, não nós, derrotados e incompetentes, incapazes de furar o bloqueio.

Já vi culparem a imprensa, a altitude, a viagem cansativa, o longo tempo de descanso que fez o time perder ritmo, a tabela, o gramado. Os deuses, o azar, a sorte, a bola, o alinhamento dos planetas e os signos do zodíaco contra um time com ascendente em fomos eliminados são minhas sugestões para as próximas entrevistas.

Vista geral do gramado do estadio Monumental de Nunez atingido pela forte chuva antes da partida entre Brasil e Argentina pelas eliminatÛrias da Copa 2018, em Buenos Aires, Novembro, Quinta feira, 12, 2015. Foto Andre Mourao/Mowa Press

Gramado alagado. Foto: André Mourão/Mowa Press.

Dá inveja demais. Diria Homer Simpson: “a culpa é minha e eu ponho em quem eu quiser”.

Podia ser assim na vida real, fora dos gramados. Dentro de campo a vida também é real, dizem. Mas do lado de cá acontecem coisas que os boleiros em sua dimensão paralela desconhecem.

– Chefe, não entreguei aquele relatório urgente para a reunião com a diretoria hoje, mas a culpa não foi minha. São muitos andares, tenho intolerância à lactose, preciso terminar aquela série. Mas estamos aí, vamos unidos com o grupo conseguir novos resultados e superar as adversidades para as metas do próximo semestre.

Vários repórteres com microfones na mão e cinegrafistas se acotovelando me abordariam na saída do banco, perguntando os motivos de não ter conseguido aquele financiamento urgente que me tiraria da degola – por ser careca, não perguntariam de um novo penteado como se faz à beira do campo.

Sábio, responderia que não havia muito o que fazer: aderimos ao modelo de capitalismo mais selvagem e perverso possível e não deu pra conseguir um bom resultado. Pediria desculpas à torcida da minha família que sempre comparece para me acompanhar e diria que se Deus quiser vou sair dessa situação. As empresas cobradoras das minhas contas vencidas e atrasadas compreenderiam, comovidas, evidentemente.

Quando me trocasse, colocaria uma roupa da patrocinadora e ouviria orientações de algum assessor sobre o que falar. Dá trabalho ter voz própria. De lá iria para uma balada me esbaldar dirigindo meu carro do ano. No dia seguinte, programas esportivos debateriam minha situação bancária e os motivos que levaram o gerente a me recusar o crédito. Na próxima entrevista coletiva, responderia de forma atravessada os repórteres que me questionassem sobre meus erros e dívidas que me levaram a mais essa derrota e sorriria aos mais engraçadinhos.

A culpa da derrota não é minha. Nunca é.