95.17

Dia Mundial contra a Homofobia (no esporte e na vida)

Wagner Xavier de Camargo

Na exibição teatral de uma ignorância já institucionalizada, não se deve procurar potencial transformador

(Eve Segdwick, 2007, p. 36, grifo da autora)

Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil (14/09/2014)

Ato contra a LGBTfobia e pela criminalização da homofobia. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.

No próximo 17 de maio comemora-se o Dia Mundial de luta contra a Homofobia. Homofobia é um termo em voga que denota uma hostilidade contra homossexuais – ou, dito de outro modo, contra pessoas que não encampam a heterossexualidade. Com o passar dos anos e com a crescente violência contra transexuais e pessoas transgênero, mais e mais o dia 17 de maio é tratado como Dia Mundial contra a Homofobia e a Transfobia (em inglês, IDAHOT ou International Day Against Homophobia and Transphobia). A mensagem é que não apenas devemos nos mobilizar (como sociedade civil) no combate à homofobia nas múltiplas dimensões do social, como também precisamos nos atentar às outras formas de discriminação relacionadas à sexualidade, como a bifobia (aversão a bissexuais), transfobia (intolerância a pessoas trans) ou lesbofobia (aversão a lésbicas). Como nos ensinou Daniel Borillo (2010, p. 14), a “homossexualidade é uma forma de sexualidade tão legítima quanto a heterossexualidade”, visto que ela não é nada além do que mais uma expressão do pluralismo sexual que envolve os seres humanos.

O marco referencial desta data dá-se pois, neste mesmo dia no ano de 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) determinou a exclusão da homossexualidade da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas relacionados com a Saúde (CID). Essa decisão foi considerada uma vitória sem precedentes por parte de ONGs e grupos ativistas vinculados aos movimentos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans) de todo o mundo. Em que pese isso também tenha atingido o Brasil, em âmbito interno o “Dia Nacional de Combate à Homofobia” apenas foi instituído em 04 de junho de 2010, por meio de decreto da Presidência da República.

Como já insinuei no título, a homofobia e outras formas de discriminação relacionadas à sexualidade aparecem em nossas vidas cotidianas e também no esporte. Basta, para tanto, relembrarmos momentos em que fomos alvo de gozações (hoje nominadas bullying) em aulas de Educação Física ou mesmo ouvimos/participamos de brincadeiras de natureza vexatória em vestiários e jogos esportivos. Os preconceitos relativos à sexualidade, raça/etnia, religião, etc., encontram-se, em geral, instituídos e incrustados em nossa cultura, sendo reproduzidos via discurso a todos instantes e em todos os lugares, de modo acrítico. Muitas vezes, se não nos atentamos para a gravidade dessas “brincadeiras” ou “gozações”, não percebemos que há várias formas de estigmatização, que concorrem ao mesmo tempo, e são reproduzidas de modos diferenciados por nós mesmos.

Um caso interessante aconteceu em abril passado, numa aparente simples entrevista do goleiro da Ponte Preta, Márcio Lúcio Duarte Costa (ou mais conhecido como “Aranha”). Após a equipe campineira ter perdido a partida contra Palmeiras (1 x 0) no jogo de volta, mesmo tendo se classificado para a final do Campeonato Paulista, seu goleiro se envolveu em uma polêmica junto a repórteres numa coletiva de imprensa. Aranha demonstrou irritação quando questionado sobre seu preparo físico e disparou que “estava bem” (o que o fez permanecer, segundo ele, mais de sete anos em grandes clubes), porém não “estava sarado”, como “alguns jornalistas gays gostariam”. A infeliz resposta com menção à (suposta) homossexualidade foi conferida a um repórter que o questionou sobre alguma “preparação especial” na Ponte, diferente do que havia feito em clubes anteriores.

Tal resposta repercutiu negativamente e foi comentada em vários veículos de comunicação, principalmente pelo fato de que o mesmo goleiro, em anos recentes, tem sido vítima de discriminação racial. A lógica subjacente às críticas é a de que ele não pode ser preconceituoso (no caso, fazer comentário homofóbico), uma vez que é, igualmente, alvo de preconceito racial (por ser negro).

Aqui gostaria de convocar Eve Kosofsky Sedgwick (2007), uma teórica norte-americana dos Estudos de Gênero, Teoria Queer e Teoria Crítica, para me ajudar numa explicação como resposta a essa expectativa de senso comum acerca de questões consideradas opressões e formas variadas de fobias e estigmatizações.

O primeiro ponto importante é que a opressão não significa o mesmo para um homem gay, um homem negro ou um homem muçulmano, apenas para tomar três simples exemplos. Por mais que Aranha como homem negro tenha sofrido preconceito racial (bem como outros atletas brasileiros de futebol e mesmo árbitros tenham passado pelo mesmo), ele não tem, necessariamente, conhecimento da opressão que um homossexual (jogador ou não) sente na pele. Possivelmente ele teria se fosse negro e se dissesse atraído por homens. E o mesmo se pode pensar a respeito de um atleta branco abertamente homossexual e de sua visão de mundo sobre atletas negros ou mesmo muçulmanos; ou ainda homens muçulmanos acerca de negros e homossexuais. Segundo Sedgwick, por mais que alguém seja alvo de dada opressão, esse alguém não tem noção, necessariamente, da estigmatização e do sofrimento por que passa o outro.

Obviamente isso não justifica a resposta, muito menos a insinuação do goleiro em depreciação a desejos supostamente homoorientados de jornalistas que fazem referência aos físicos de jogadores de futebol. A resposta dele na entrevista coletiva é, em certa medida, vaga, e não sabemos a quem se direciona, de fato. O comentário é infeliz e dá margem a considerações homofóbicas, mas não podemos nos esquecer que negros, árabes, gays, lésbicas, etc., também podem reproduzir aversões (fobias) a quaisquer sujeitos representados pela sigla LGBT. O machismo e a hierarquia do macho-alfa, instaurados no patriarcalismo e em vigor nas sociedades ocidentais, corroboram com a misoginia (ódio ou aversão às mulheres) e as múltiplas fobias relativas às sexualidades de sujeitos dissidentes da heteronormatividade.

Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil (27/03/2015)

Ato contra homofobia reúne centenas em praça do Rio. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.

Um segundo ponto relativo ao assunto é que vivemos hoje, no seio da sociedade e mesmo do esporte, uma crise de representação entre hetero e homossexuais. E essa oposição está calcada na “política de identidades” sexuais e de gênero. O problema já nos fora colocado por Michel Foucault (1985) quando situou uma mudança no pensamento europeu do século XIX e que o mundo passou a seguir a partir da disseminação do eurocentrismo: a sexualidade é encarcerada e o “casal procriador” heterossexual impõe-se como modelo e dita a lei (fazendo reinar a norma associada à função do reproduzir). A sexualidade do mesmo sexo deixa de ser considerada uma “função de atos genitais isolados e proibidos” e passa a ser tida como uma “função de definições estáveis de identidade”.

Portanto, há um conhecimento compartilhado pelo senso comum na definição do que é “ser homossexual”, como se houvesse uma identidade sólida, estável, definidora do ser e, portanto, ameaçadora da heteronormatividade. Em oposição a ela está uma “identidade heterossexual” masculina, suportada por uma cultura masculinista, que se coloca como supostamente homogênea e incontestável. Esquecem-se que, o que está fora dessas certezas instituídas é a fragilidade sobre a qual se assentam concepções e comportamentos radicais, baseados nos pressupostos acima. E, para nossa felicidade, hoje em dia há homossexuais (gays e lésbicas) jogando futebol, bissexuais declarados na ginástica artística, pessoas transgênero e intersexo correndo em campeonatos oficiais de atletismo.

Qualquer discussão nesse âmbito de disputas provoca convulsões e erupções de intolerância em todas as partes. Homossexuais (atletas ou não), por sua vez, não são as únicas vítimas da violência homofóbica; travestis (e, por exemplo, pessoas transgênero ou intersexo recentemente), bissexuais, mulheres heterossexuais masculinizadas ou mesmo homens heterossexuais/metrossexuais delicados sofrem ataques de todos os tipos por não se adequarem às normas da ordem clássica dos gêneros (Borrillo, 2010), tanto nos esportes, quanto em outras instituições sociais.

E aqui volto ao mote introdutório deste texto no qual Sedgwick (2007) diz que “na exibição teatral de uma ignorância já institucionalizada, não se deve procurar potencial transformador” (p. 36, grifo dela). E eu reitero e amplio: na ignorância já institucionalizada, provavelmente não; mas nesses corpos que citei e em suas práticas esportivas dissonantes se encontram potencialidades ainda não percebidas e não exploradas, que farão os esportes (e mesmo a sociedade) se surpreenderem no futuro!

Foto: Corredores/as de revezamento, Gay Games IX (Cleveland 2014). Acervo do autor

Corredores/as de revezamento, Gay Games IX (Cleveland 2014). Foto: Wagner Xavier de Camargo.

Referências Bibliográficas

BORRILLO, Daniel. Homofobia: história e crítica de um preconceito.  Trad. Guilherme João de Freitas Teixeira. Belo Horizonte: Autêntica Ed., 2010.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber I. 8. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985.

SEDGWICK, Eve Kosofsky. A epistemologia do armário. Cadernos PAGU; Campinas, v. 1, n. 28, p. 19-54, jan./jun. 2007.