93.20

Dizem que o melhor momento do futebol é o gol, mas não é

Arthur Sandes de Carvalho

Vão achar que é maluquice, mas o gol é superestimado. Ouve-se em todo canto que não há nada mais gostoso em um estádio de futebol do que gritar gol, só que não é bem assim. É muito melhor aquele momento que antecede o gol, como por exemplo uma série de escanteios que esfrega na fuça da torcida inteira que o gol vai sair a qualquer instante. Todas as unhas presentes acabam roídas e os cabelos se desarrumam. Cria-se um lapso temporal em que tudo fica entre a angústia e a convicção: a bola vai entrar, tem que entrar. Vêm dois ou três lamentos, o “uuuh” é audível em qualquer lugar. Quando o êxtase está no ápice, é rede.

O gol, sempre que sai, é aquele milagre. É o objetivo da coisa toda, naturalmente. Mas o gol é puramente prazer, e o futebol é mais expectativa do que prazer. De modo que o período de inquietação e tormento, que podemos chamar de “pré-gol”, parece-me ser o que melhor exemplifica o futebol como um todo dentro de campo.

É certo que o pré-gol não se faz presente em toda partida. Quanto mais os times jogam iguaizinhos, desse jeito que jogam hoje, menos vezes há aquela pressão avassaladora que alerta até o torcedor mais distraído que logo, logo vai ter rede balançando. Às vezes não tem nem gol, nem pré-gol, nem nada. E em outras vezes o gol sai sem avisar, o que não é falta de educação, naturalmente. Acaba sendo uma surpresa boa que a gente recebe meio estarrecido, com susto e festança. É muito comum, aliás, o gol sair sem avisar. Há quem possa argumentar que o gol sem aviso seja o melhor entre os seus pares, e talvez caiba a reflexão.

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O gol é inesquecível, claro, mas a apreensão do pré-gol é o que faz do futebol encantador. Foto: Alexandre Macieira/Riotur.

Agora, como eu ia dizendo, não tem gol que supere aquela ânsia do pré-gol. Vocês sabem que vale mais o sofrimento do 1 a 0 do que a goleada meio modorrenta em que o operador do placar (até do eletrônico) chega a ficar com cãibra nos dedos. Nestes jogos, a vantagem vai aumentando quase que automaticamente e chega uma hora em que, convenhamos, já não faz muita diferença – duvido que vocês comemorem o quinto gol do passeio com o mesmo furor dedicado ao primeiro. Daí que o gol vai perdendo moral se sair aos montes, fica com a reputação manchada. É assim que o pré-gol, que não é dessas vulgaridades, pelo menos na média acaba valendo mais.

A vitória perfeita é a do um a zerinho chorado. E melhora muito se o pré-gol for prolongado, parecendo interminável, até que alguém finalmente termine o suplício de qualquer jeito e desengasgue toda a gente. Pré-gol bom é assim mesmo, dura minutos inteiros. É esta a comemoração mais querida ao torcedor humilde, que aposta que o sacrifício será recompensado em dobro. E também serve ao vingativo, porque a torcida adversária vai se desesperando quando vê a zaga meio tonta, rebatendo bola atrás de bola antes do gol anunciado.

Tem vezes que o pré-gol engana o pessoal, realmente. Toda aquela celeuma praticamente em cima da linha, pernada e cabeçada para todo lado, o maior desespero do mundo… e não acontece nada. Os entendidos chamam de anticlímax, que nada mais é do que o time pressionado sair debaixo das traves, só pra variar. A área mais bagunçada que quarto de criança, e de repente a bola some dali por vários minutos e não volta mais. Por isso culpam o pré-gol de agourento, que melhor seria se saísse logo o “gol sem aviso” e está feito. Mas o pessoal não entende que nesse caso não é culpa do pré-gol, é culpa do próprio gol, que não quis sair por vaidade ou sabe-se lá o motivo.

Pelo sim, pelo não, vale a reverência ao pré-gol; que ele apareça mais vezes. Se o gol propriamente dito sair em seguida, puxa vida, inesquecível. Se não sair, paciência, as unhas crescem.