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Do Valle à eternidade

Leandro Marçal

Custou muito acreditar que naquele sábado, há três anos, uma voz tão forte e marcante se calaria de uma hora para outra, mais rápido que o voo até Minas Gerais para a cobertura da primeira rodada do Brasileirão em ano de Copa do Mundo por estas bandas.

Os que, como eu, zapeavam pelos canais de televisão naquela tarde ingrata de 19 de abril de 2014,  ficaram com a boca tão aberta quanto a de Luciano do Valle em cada gol que narrou em tantas décadas entre Globo, Record e Bandeirantes. Era impensável ligar a TV e não ter a opção de ouvir a narração de quem já se esforçava ainda mais nos últimos anos para continuar levando emoção aos telespectadores. Coisas do tempo, esse implacável algoz de todos.

Tempo esse que já deixava claro que ele não era o mesmo Luciano do Valle de outrora. Ainda assim, por alguns minutos ele fez todos os descrentes acreditarem em Deus no primeiro gol de Ronaldo (vídeo 1) como fizera o Real Madrid temer o capeta anos antes (vídeo 2). Foram também do Fenômeno as renovações de fé que proporcionaram momentos marcantes de um fã com microfone na mão (vídeo 30, no caso, aquele que sempre teve o grito de gol mais bonito entre os narradores da TV.

 

Luciano do Valle nunca desafinava e nos momentos mais agudos transmitia uma impostação vocal não recomendada para imitadores, pois lhes deixaria roucos após o gracejo.

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Luciano do Valle. Foto: Carol Gherardi – Band.

Ele foi pé quente com a seleção tetracampeã do mundo e partiu a tempo de não presenciar fisicamente o fatídico 7 a 1. Sua voz empostada no gol de Neymar na final da Copa das Confederações (vídeo 4) foi marcante, ainda que não fique tão guardada na gaveta de lembranças onde está o tento marcado por Falcão na tragédia de Sarriá (vídeo 5) e toda a história contada naquele dia marcado pelo imponderável.

 

Em sua última narração registrou o momento histórico em que o Ituano vencia o Santos nos pênaltis pela decisão do Campeonato Paulista (vídeo 6), naquele típico duelo entre Davi e Golias que marca o futebol desde sempre.

Cresci ouvindo meu pai contrariar tanta gente ao dizer que Luciano do Valle era o melhor narrador da televisão brasileira e não foram poucas as vezes em que minha casa ignorou o império global e optou pela transmissão de Seu Bolacha, mesmo quando ele já se perdia em números e errava mais do que o normal.

Nós o perdoávamos pela sua História tão maiúscula quanto fora a participação nos fatos esportivos da década de 70 para cá. Ele botava emoção até nos jogos de sinuca do Rui Chapéu, ainda repete meu pai ao me explicar o que era passar os domingos sem TV por assinatura ligado na Bandeirantes em meio a tantos esportes e compactos do futebol, hoje diluídos em canais de qualidade duvidosa ou não.

Uma breve pesquisa na internet leva a inúmeras transmissões inesquecíveis de Luciano do Valle, dessas que, ao lembrar do fato, não é possível dissociá-lo da voz que nos passou aquela emoção: o primeiro gol de Ronaldinho Gaúcho (vídeo 7) e o último de Zico pela Seleção (vídeo 8), o antológico de Marta contra a China (vídeo 9), a vitória de Emerson Fittipaldi nas 500 Milhas de Indianápolis (vídeo 10), o ouro do vôlei masculino brasileiro nas Olimpíadas de 92 (vídeo 11), enfim…

Sua voz se calou pelos caminhos do destino que nos leva a ser mortais, mas continua a ecoar na memória de todos aqueles que não separam as memórias afetivas das esportivas. Todas as homenagens serão poucas a quem tanto deixou de registros e emoções.

Ainda bem que o YouTube nos presenteia e à nossa nostalgia com tantos momentos eternizados por ele em sua riquíssima trajetória e o homenageia de forma mais digna do que esta singela crônica a quem marcou a vida de quem um dia sonhou em irradiar futebol, com Luciano do Valle como uma de suas referências.

Siga narrando daí de cima, Seu Bolacha. Aguardo ansiosamente que dentro em breve haja uma biografia à sua altura para contar sua trajetória iniciada em Campinas no longínquo 1947 para o mundo e para sempre.

Daqui, quando a rodada do próximo domingo começar, eu e meu pai ligaremos em um desses pay per view que nos mostram tudo de todos os jogos, mas não transmitem um terço do lirismo que foi acompanhar futebol e outros esportes com sua voz ecoando pela casa.