99.12

Eles narram minha vida

Leandro Marçal

Meu sonho de infância era ser narrador de futebol. Muito antes de estudar jornalismo, bem mais gratificante do que passar em um concurso público, infinitamente melhor do que ficar rico, quando mal pensava em virar escritor. Queria narrar futebol e todos os esportes.

Enquanto uns e outros nutriam o desejo insaciável de serem jogadores profissionais de sucesso e desfrutar tal status na sociedade do espetáculo, me chamavam mais atenção as sombras empunhando microfones nas cabines, dando voz e emoção ao que acontecia no gramado, nas quadras, nos grandes eventos.

Não foram poucos os domingos em que o pai acordou mais cedo que o planejado, pois eu botava a TV no mudo e narrava para as paredes surdas e cachorros desentendidos as corridas de Fórmula 1. Não sou capaz de correr 10 metros com a bola nos pés e dar um passe simples ao atacante porque ficava do lado de fora da quadra, narrando os interclasses da vida. Alguns me achavam louco, talvez com um pouco de razão.

Fico alheio aos debates sobre PES e Fifa nos PlayStation da vida: nos campeonatos realizados na primeira casa onde morei, com a vizinhança na mesma sala em que acordava o pai aos domingos, eu preferia narrar. E havia quem gostasse, com exceção da mãe: já era tarde e ela preferia dormir.

Quando vou a um campo de várzea, sinto falta das vozes me indicando quem dominou e cruzou, qual a escalação, o grito de gol com musiquinha. No estádio já fui um ser estranho com fone no ouvido, antes desses aparelhos caros e modernos darem poder para que nossos modernos e tontos aplicativos tirassem o espaço das rádios dentro das telas deslizantes.

Aliás, não é só sua falta nos celulares que vem acabando com o rádio. Uma lágrima solitária escorre sobre minha face toda vez que percebo uma transmissão inteiramente tubada (quando o jogo é transmitido com a equipe nos estúdios e não nos estádios, para conter gastos, diz-se que é um “tubo” – e eu aprendi o significado disso lá pelos 11 anos).

Narração de futebol no rádio, inclusive, é um dos meus amores platônicos, como a Maria Fernanda Cândido. Não sei se é comum nas outras famílias algum integrante ter arquivos no computador com mais de 200 gols narrados por José Silvério e Osmar Santos, meus únicos ídolos. Suas vozes no notebook já gritaram gols de todos os times, para todos os gostos.

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José Silvério posa para foto do documentário “O pai do gol”. Foto: Olé Produções.

Também não acredito ser um costume disseminado por aí decorar tantas narrações de momentos importantes na história do futebol e do esporte em geral. Pergunte quem comandou transmissões das principais finais desde a década de 70 e sou capaz de indicar os profissionais de cada emissora, pontuando suas falas nos momentos agudos.

Aliás, minha lista de bordões no dia a dia me faria dever milhões de royalties a Galvão Bueno, Luciano do Valle, Cleber Machado, Milton Leite e tantos outros que me levariam à falência para umas três encarnações. Um amigo próximo diz que tenho espírito de Silvio Luiz: meio irônico e escrachado, mas azedo quando pisam no meu calo, com certo talento pra alguma coisa que não descobri bem o que é.

Vou além: todos os momentos cruciais da minha vida são narrados mentalmente. É estar prestes a ganhar um beijo da moça que o Galvão grita “Olha o gol, olha o gol, olha o gol…”; alcanço um objetivo muito importante e o Silvério solta um “e que golaçoooooo” (ver abaixo)

Levanto cedo, cansado, e lá vem o Cleber Machado com seu “hoje não, hoje não, hoje sim…”; chega o fim do expediente de sexta-feira e o Luiz Alfredo solta um “corrrrrrrrrrrrrrre pra alegria…”; finalizo uma tarefa e o Paulo Brito entoa um “feitooooooooo”; alguém dá mancada e Ulisses Costa grita “mas o que que é issooooo????”; chego a um novo ambiente e Fiori Gigliotti me apresenta como “o moooooooooooooooço de São Vicente”

Queria ouvir mais vozes femininas narrando esses meus momentos. Um dia nosso provincianismo rompe essa barreira também nas rádios e televisões, espero.

Para citar tudo o que passa na minha cabeça nessas horas, escreveria um extenso livro. Em três anos de terapia, nunca tive coragem de falar à psicóloga sobre essas vozes que falam comigo em velocidade frenética como a da minha ansiedade (aliás, será que os narradores têm culpa nisso? Espero superar essa mistura de vergonha e medo de ser internado compulsoriamente na próxima sessão, vou contar esse segredo se ela não tiver lido essa confissão com imagens ao vivo de mais uma crônica).

Sem narração, o futebol e a vida ficam sem graça. Acho até o nome “narrador” mais bonito que “locutor”. Devo ter virado escritor pela ânsia de narrar histórias, para realizar um sonho que me persegue feito sombra.

Ainda que não tenha sido da forma que eu queria, (na traaaaaaaaave) meu sonho de infância é vivido todos os dias (apiiiiiiiiiita o árbitro), o que me faz pensar se o pessoal da quadra não estava certo (é fiiiiiim de joooooogo) e eu, talvez, tenha alguns parafusos a menos (não adianta chorar, torcida brasileira).