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Entre a tábua de salvação e o tarde demais

Luciane de Castro

Eu tenho um problema. Problema este que inviabiliza uma série de coisas na minha vida, mas, em contra partida, permite que eu mantenha, no mínimo, a coerência ao escolher um lado. Inclusive, escolher um lado não é para todos. Ao se posicionar e bater de frente com um sistema que funciona bem para determinados setores, fica evidente que pessoas destes setores não te querem por perto. O que de certo modo é um elogio. Convenhamos.

Faço esta pequena, mas bastante significativa introdução, para discorrer um pouco sobre a presença de Formiga na concentração da seleção feminina. Formiga foi uma das atletas que assinaram a carta aberta enviada ao presidente ~afastado das atividades~ da CBF, Marco Polo Del Nero. Formiga foi uma das atletas que se posicionaram contra a demissão de Emily Lima.

A pequena aparição da atleta mais bem quista e mais respeitada do futebol mundial, gerou reações diversas. De minha parte, uma certa decepção, confesso. O fato de confraternizar com a comissão de Vadão, transpareceu, ao menos para mim e outras pessoas ligadas à modalidade, um gesto inadequado vindo de quem se posicionou publicamente contra a decisão da CBF.

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Formiga. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

Okay, o contra argumento pode vir em forma de “mas ser contra a demissão de Emily não significa ser contra o retorno de Vadão” e eu diria a mesma coisa se não fosse uma excelente observadora.

Mas existem questões de bastidores que já me foram confiadas e eu não tenho a menor intenção de me comportar como uma X9. Já ouvi de tudo e se me pedem off, é off minha conduta.

Conversando com uma ex-atleta sobre esse rolê esquisito da Formiga – que se aposentou da seleção no final de 2016, lembremos, algumas questões me foram colocadas e me fizeram pensar.

Sejamos honestos. É preciso separar a crítica do julgamento e entre estas duas falas, a linha é bem tênue.

Segundo esta amiga e ex-atleta, a situação da jogadora de futebol é tão precária, que alguns nomes de calibre sequer tem patrocinador esportivo. Apenas uma ideia do abismo que separa o futebol praticado por homens do praticado pelas mulheres.

Existe uma certa recusa por parte das empresas de material esportivo em patrocinar atletas que não estejam na seleção. Não sei se este tipo de filosofia se estende a outros tipos de atividades que se relacionam com a CBF e suas seleções, de qualquer modo me parece uma “estratégia” um tanto tacanha, já que temos grandes nomes do futebol feminino brasileiro – excetuando Marta, óbvio – atuando em diversos clubes pelo mundo.

Também não entendo esse tipo, digamos, ordinário de filosofia, já que a seleção feminina não tem a mesma visibilidade que a masculina e tampouco estou fazendo alguma relação neste sentido, sobre a presença de Formiga na concentração da seleção.

Podem ser muitos os motivos e não cabe fazer especulação, apenas registrar como fato curioso diante das circunstâncias.

Isto posto, gostaria de registrar para qual mar corre o meu rio dentro de todas as perspectivas que o esporte oferece e, no meu caso, muito em função do meu posicionamento enfático.

Formiga do Brasil celebra seu gol durante o jogo contra a Argentina pelo torneiro Internacional em Brasília, 10 de Dezembro de 2014. Bruno Domingos/Mowa Press

Formiga do Brasil celebra seu gol durante o jogo contra a Argentina pelo torneiro Internacional em Brasília (2014). Foto: Bruno Domingos/Mowa Press.

O futebol feminino, como já discorri por aí, me presenteou com muitas coisas boas, amizades sinceras, experiências fascinantes e alguma dor de estômago, é bem verdade, mas dentre todas essas coisas, a mais importante é a oportunidade de trabalho efetivo.

Futebol nunca se fez somente dentro de campo. Para que se tornasse o que é hoje, considerando seu alcance, foi e é preciso, a participação de uma quantidade de pessoas que não aparecem, mas que pela paixão pelo jogo – e de repente falta de habilidade – atuam no sentido de perpetuar sua importância.

Se o jornalismo especializado não me deu o necessário para a manutenção de condições básicas de existência, a produção cultural focada no assunto é a responsável por permitir que eu pague minhas contas e aceite desafios nos mais variados ramos de atividade dentro da produção cultural.

E se cheguei aqui, o futebol feminino tem grande parcela de responsabilidade.

Foi por causa da atuação com a modalidade que fiz minha primeira curadoria para o Sesc, mais especificamente na unidade Interlagos. Desafio estimulante e que me ensinou muito nestes últimos dois anos.

A partir da exposição “O futebol delas – 20 anos de futebol feminino nos Jogos Olímpicos”, outros trabalhos surgiram me impulsionando para outros terrenos da produção cultural vinculada ao futebol e que são partes indissociáveis do jogo, como o cinema, por exemplo.

O festival “De encher os olhos – O esporte do povo na tela do cinema”, abrigado no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, teve como fio condutor o centenário do Derby Paulista, efeméride comemorada em maio de 2017.

Também me colocou numa relação de trabalho muito gratificante e respeitosa com o Sesc São Paulo e a realização de um curta documentário institucional voltado ao esporte.

As atuações, em vários níveis das atividades culturais, são o que considero minha tábua da salvação, vista que o panorama que ainda se apresenta à modalidade, não abre tantas portas quantas necessárias para dar conta dos profissionais que intentam trabalhar com ela.

Cabe a cada um, à medida que as dificuldades se apresentam, buscar outros caminhos para realização de seu trabalho e se sentir feliz, sem abrir concessões e sem ter que confraternizar num ambiente muitas vezes contaminado.

Tomando emprestado um ‘pequeno’ poema de Charles Bukowski para encerrar o texto desta quinzena: “Existem coisas piores que estar sozinho mas geralmente leva décadas para entender isso e quase sempre quando você entende é tarde demais. E não há nada pior que tarde demais.”