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FC Barcelona, símbolo autofágico

Hilário Franco Junior

As relações entre o mundo político e o mundo futebolístico são antigas e bem conhecidas, os exemplos abundam na história de muitos países. E a atualidade fornece um case study que mereceria um aprofundamento que não cabe aqui, mas que pode ser equacionado. Não é novidade que durante a ditadura franquista (1939-1975) os reprimidos anseios nacionalistas catalães tiveram no FC Barcelona sua melhor possibilidade de expressão, sobretudo quando dos confrontos com o Real Madrid, clube cujo nome lembrava o regime político (monarquia) contra o qual tinham lutado os republicanos catalães na guerra civil (1936-1939), além de simbolizar o poder central (Madrid) que naquele período proibiu o uso público da língua catalã e submeteu a região a Castela. Além do nome da maior cidade da Catalunha, o clube tem no escudo as cores da bandeira regional e em 1968 adotou um lema que resume bem todo um estado de espírito: o Barça é “més que un club”.

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Barça é “més que un club”. Foto: Felipe Setagawa (CC BY-NC 2.0).

A partir de 1988, com Cruyff no comando técnico vieram muitos títulos (inclusive o da primeira Liga dos Campeões) e um estilo vistoso de jogar que reforçaram o orgulho catalão. Em anos mais recentes, tornou-se comum o placar eletrônico do Camp Nou registrar com destaque o minuto 17 e 14 segundos, em clara referência ao ano de 1714 quando a cidade foi cercada e depois ocupada pelas tropas franco-espanholas. Tratou-se de episódio da Guerra de Sucessão da Espanha, que envolveu todas as potências europeias, mas que o atual discurso independentista interpreta como uma luta de secessão de um povo livre contra opressores estrangeiros. Os jogadores do Barcelona, majoritários na seleção espanhola campeã do mundo de 2010, comemoraram a conquista com a bandeira catalã, não com a espanhola. Mais recentemente ainda, embora trabalhe no exterior, o herdeiro técnico de Cruyff, Pep Guardiola – o maior vencedor na história do clube – manifestou várias vezes sua adesão ao projeto de independência da Catalunha. O mesmo faz com frequência Gerard Piqué, jogador por isso vaiado em vários estádios espanhóis. Enfim, o Barcelona tornou-se símbolo da Catalunha independente pretendida por boa parte da população local.

Os adeptos da manutenção da unidade política espanhola, por seu lado, insistem que a constituição em vigor, de 1978, então aprovada por 90,46% dos catalães, torna ilegítimo o referendo pela independência proposto e realizado pelo governo regional dias atrás, em 1º de outubro de 2017. Outros analistas preferem lembrar que uma hipotética República da Catalunha teria pequena possibilidade de ser aceita na União Europeia, pois isso estimularia outras regiões irredentistas como a Córsega na França ou a Lombardia na Itália. Outros colocam a tônica no plano econômico, observando que entre 1º e 11 de outubro 540 empresas optaram por deixar de ter sua sede social na Catalunha diante da insegurança jurídica que a independência necessariamente criaria. Mudaram sua sede os dois principais bancos locais (Sabadell e CaixaBank) face ao risco de retiradas maciças de depósitos e do fim das garantias do Banco Central Europeu. Das quatro províncias catalãs, a mais prejudicada foi a de Barcelona (501 empresas perdidas, apenas 16 ganhas). O caderno econômico do mais importante jornal espanhol, El País, intitulou sua edição do 15/10/2017 “la economía asfixia al secesionismo”, e o editorial proclamou que “uma Catalunha independente carece de viabilidade econômica”.

Concentração nas portas dos prédios municipais, como uma rejeição da violência produzida durante o dia de ontem e em apoio ao diálogo e à democracia. Foto Ajuntament Barcelona

Concentração em frente a prédios públicos contra a violência policial no dia do referendo. Foto: Ajuntament Barcelona.

No entanto, talvez devido ao estatuto de símbolo (isto é, referente com conotações religiosas) que o clube local assumiu ao longo do tempo, ainda não se falou, que saibamos, de um ponto central de toda a questão: com a independência catalã o Barcelona possivelmente deixará de participar da Liga espanhola e das competições europeias. Do lado catalão, evita-se o tema porque ele poderia arrefecer muitos ânimos separatistas. Do lado espanhol, não se agita essa bandeira porque o assunto é complexo e poderia soar a chantagem, azedando de vez as possibilidades de diálogo e reintegração. De qualquer forma, seria preciso levar em conta que a independência implicaria esperar o reconhecimento internacional do novo país (ONU, UE, etc.), para somente depois sua federação solicitar inscrição nas instâncias futebolísticas (UEFA e FIFA).

Admitindo que em algum momento seja superada essa etapa, o Barcelona apesar de atrair público em toda Espanha e de ajudar muito a vender a liga espanhola no exterior, teria dificuldade em reintegrar a Liga, seja por rejeição espanhola, seja por coerência ideológica dos catalães. As raízes do fenômeno são, aliás, antigas: depois de viajar pela Espanha em 1603-1604, o francês Bartolomeu Joly observou que “os espanhóis se devoram entre si, cada um preferindo sua província à do seu companheiro”. Mais de dois séculos depois, o inglês Richard Ford (1796-1858) notaria a mesma coisa: “cada espanhol pensa que sua aldeia ou província é a melhor de toda Espanha”. Ainda que resolvidas as questões burocrático-institucionais, para o Barcelona participar de alguma outra liga europeia parece pouco factível. É verdade que há antecedentes de clubes de pequenos países jogando ligas vizinhas – o Monaco na Ligue 1 francesa, o Swansea na Premier League inglesa – mas a história e a geografia revelam-se fatores importantes para tanto. Não é o caso do Barcelona, que se impedido de jogar La Liga só poderia vislumbrar a Ligue 1, do outro lado da fronteira, sem que a aceitação por parte dos vizinhos seja evidente. Além disso, do ponto de vista interno, se o Camp Nou claramente lotaria para receber como visitantes o PSG, o Marseille ou o Monaco, todos os demais clubes, de pouca expressão fora da França e sem história de rivalidade com o Barcelona, não despertariam maior interesse.

Do plano europeu, o mais mediático e rentável, o Barcelona estaria excluído possivelmente por anos, enquanto durasse o processo de reconhecimento político do novo Estado e seu ingresso na UEFA. Mesmo depois, condenado a disputar uma liga catalã com Espanyol, Girona e clubes desse porte, o Barcelona jamais chegaria à Champions League em boas condições de competitividade. Manter um elenco caro e atrair grandes estrelas sem os recursos da televisão, de patrocinadores de peso e de estádio sempre lotado, revelar-se-ia tarefa hercúlea mesmo para um gigante como o Barça. O més que un clube estaria nessas circunstâncias condenado a se tornar menys que un clube. O caráter inerentemente catalão que fez a força do clube durante décadas, pode vir a asfixiá-lo, a sugar essa força. Sem o Outro, o Eu perde sentido, esvazia-se.

A história política ou religiosa está cheia de casos em que um símbolo dá vida a uma comunidade, em que se morre por um símbolo, mas presta-se menos atenção à morte de um símbolo, sobretudo quando ela é provocada pelo próprio conteúdo simbólico. E aqui o futebol pode vir a fornecer um retumbante exemplo desse tipo: a catalanidade do Barça talvez o devore por dentro. Em matéria publicada em El País (14/10/2017, p. 26), o filósofo e jornalista espanhol Teodoro León Gross chamou atenção para o caráter passadista da atual reivindicação autonômica catalã, assentada mais no romantismo nacionalista do século XIX do que na lógica do século XXI, e concluiu que os independentistas “parecem não aspirar a um grande futuro, e sim a um grande passado”. É o que pode acontecer com o FC Barcelona.