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Futebol e Política: A revolução virá das arquibancadas

Victor de Leonardo Figols

Nessa última parte da série Futebol e Política, vamos tratar das torcidas que se organizam para construir um futebol mais justo, seja questionando a estrutura mercantil vigente no esporte, seja lutando por direitos civis dentro e fora dos estádios.

É difícil pontuar em qual momento histórico as torcidas começaram a assumir pautas políticas e levar para o terreno de jogo. Se lembrarmos da história FC Barcelona, ou mesmo do Athletic Club, as lutas separatistas dos dois clubes datam dos primeiros anos do século XX, e se intensificam depois dos anos 1940, a ditadura de Francisco Franco. Na Itália, como mencionamos no texto anterior, a torcida dos dois clubes da capital tomaram rumos diferentes, os torcedores da Lazio assumiram o caminho da extrema-direita, enquanto os da Roma, em sua maioria, assumiram uma postura de esquerda. Na Alemanha, devido ao passado nazista, muitas torcidas adotaram posturas mais progressistas, outras mais a esquerda, como é o caso do St. Pauli.

Talvez a Inglaterra seja o país mais fácil de localizar o envolvimento das torcidas com a política. Foi em meados dos anos 1980 que torcedores assumiram uma postura de resistência, principalmente com relação aos ataques a sociabilidade que a política anti-hooligan da Margaret Thatcher proporcionava através do Relatório Taylor. É bem verdade que as políticas da Dama de Ferro assumiram os interesses da classe média alta, colocando na marginalidade as classes mais baixas (curiosamente o maior número de torcedores hooligans pertenciam a essas classes mais baixas) que sofreram com restrições tanto no âmbito político-social, quanto cultural.

Todavia, antes dessa cultura de resistência tomar conta das torcidas inglesas, é preciso lembrar que o movimento começou timidamente. Como bem aponta o sociólogo Richard Giulianotti [1], os primeiros movimentos de contestação foram por meio dos fanzines, uma espécie de revistas feita por torcedores para os torcedores (seguindo a cultura Punk dos anos 1970, “do it yourself”), em que discutiam diversos assuntos com relação ao jogo, e que aos poucos a pauta política começou a aparecer. Foi após tragédia de Heysel (1985), um confronto entre torcedores do Liverpool (Inglaterra) e da Juventus (Itália) causou a morte de 39 pessoas e feriu outras 600, que o combate ao hooliganismo se intensificou, e em resposta, a produção de fanzines mais contundentes, denunciando a política perversa por trás do discurso anti-hooligan, também cresceu.

Rapidamente os fanzines se tornaram um dos principais veículos de comunicação entre os torcedores para discutir formas de resistência, além de denunciar a expulsão das classes populares dos estádios. Essa discussão deixou os papeis e se tornou pública, diversos coletivos começaram a se organizar em protestos que questionavam as práticas comerciais do clube. Ainda que não fosse denominado assim, esse pode ser considerado um dos primeiros movimentos contra um novo futebol que estava sendo colocado na Inglaterra do começo dos anos 1990, o futebol moderno.

Como bem mostra Irlan Simões [2], o movimento “contra o futebol moderno” surgiu de forma oficial 1999, quando torcedores da AS Roma fizeram um manifesto se posicionando contrários as mudanças que o futebol sofrera na última década, isto é, a crescente mercantilização, espetacularização e midiatização do futebol. Os clubes da Europa viram o futebol se tornar uma grande indústria, comandada, sobretudo, pelas grandes empresas de comunicação. Em outras palavras, o futebol passou a ser visto como um produto, e os clubes como empresas.

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Torcedores do São Paulo protestam contra o futebol moderno. Foto: Fábio Soares/futeboldecampo.net.

Com a crescente mercantilização do esporte, os torcedores assumiram o papel de consumidores. A relação clube-torcedor foi deformada, e transformada em uma relação entre cliente e empresa, assim, abriu-se um abismo entre o clube e sua torcida. Nesse sentido, esse futebol moderno corrói todas as relações entre clube e torcida, e afetam diretamente as tradições clubísticas.

Foi dentro deste contexto que diversas torcidas se organizaram para questionar os altos valores gastos nas contratações de jogadores, a midiatização do futebol promovida pelas emissoras de televisão, a expulsão das camadas populares dos estádios, e consequentemente, a elitização dos estádios. O fato de o futebol ser tratado como produto, e o torcedor como consumidor era uma das principais críticas, as torcidas estavam se rebelando contra o sistema, contra o capitalismo.

Essa luta anticapitalista originou de maneira espontânea e orgânica diversos coletivos dentro das torcidas, e em alguns casos, até clubes de futebol. Na Alemanha, o St. Pauli foi praticamente refundado por torcedores que passaram a fazer a gestão do clube, colocando em uma perspectiva crítica a mercantilização do jogo. Questões como a luta contra o racismo, o machismo, a homofobia, e até mesmo contra xenofobia foram levadas para as arquibancadas. Na Inglaterra, o FC United of Manchester nasceu em resposta a mercantilização do futebol. Torcedores o Manchester United romperam os seus laços clubísticos quando o clube foi comprado por um milionário americano. Os torcedores decidiram fundar um clube mais representativo, ligado à origem operária da cidade de Manchester, e assim, passaram a questionar fortemente a mercantilização do futebol. No Brasil, a torcida Setor 2 resgata a origem operária do Juventus da Mooca e levantam uma bandeira contra altos valores de dinheiro que circulam no futebol, questionado os impactos da transformação do clube em empresa, que em larga medida, levaria a uma elitização das formas de torcer. Sobre essas três torcidas há um série produzida pelo blog O Campo e compartilhada aqui no Ludopédio [3].

Outra torcida com um grande protagonismo na luta contra futebol moderno é a Bukaneros, do Rayo Vallecano da Espanha. Trata-se de uma torcida fortemente ligada ao bairro operário de Vallecas, em Madrid, que questiona o abismo criado pela televisão espanhola entre os Real Madrid e Barcelona com relação aos outros times. O passado operário do bairro e do clube é resgatado, e pautas como o combate ao racismo, fascismo e homofobia são incorporadas à luta contra o futebol moderno.

Como já foi citado na segunda parte do texto, temos a torcida Brigate Autonome Livornesi do Livorno que é declaradamente comunista, e combate veementemente os torcedores ultras de extrema-direita. No Brasil, a Gaviões da Fiel vem demostrando atitudes bem progressistas, denunciando a forma como o futebol brasileiro vem sendo conduzido pela Rede Globo, CBF e FPF, mas também assumindo pautas mais abrangentes, como a denuncia da Máfia da Merenda no Estado de São Paulo, e recentemente se posicionaram contrários ao Golpe a presidenta Dilma, além buscar medidas para reduzir os gritos homofóbicos no estádio de Itaquera.

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Torcida do Corinthians com sinalizadores em partida pela Libertadores de 2016. Foto: Fábio Soares/futeboldecampo.net.

Seguindo essa postura de esquerda, temos a Galo Marx do Atlético-MG orientação marxista, e a Porcomunas do Palmeiras de que agrega as diversas releituras do marxismo. Em ambos os casos, o que está em discussão é a luta contra as mazelas do capitalismo, dentro e fora dos estádios. Também há um esforço por parte dessas torcidas em se resgatar a tradição operária desses clubes. Além desses dois grupos, temos diversas outas torcidas que levantam uma bandeira progressista, como é o caso das torcidas antifascista. Talvez a mais antiga seja a Ultras Resistência Coral, Ferroviário Atlético Clube do Ceará [4].

Em uma busca rápida no Facebook, foi possível localizar 28 coletivos de diferentes clubes brasileiros que assumem a postura antifascista, faço questão de citar todos eles: Ação Antifascista Joinville, Atlético Mineiro Antifascista – GALO Antifa, B16 – Bangu Antifascista, Bahia Antifascista, Botafogo-SP Antifascista, Ceará S.C. Antifascista, Clube de Regatas do Flamengo – Antifascista, Clube do Remo – Antifascista, Coral AntiFa, Corinthians Antifascista, Coritiba Antifascista, Fluminense Antifascista, Fortaleza E. C. – Antifascista, Galo Ultras Antifa, Grêmio Antifascista, Guarani Antifascista, Inter Antifascista, Internacional de Porto Alegre Antifascista, Londrina Esporte Clube Antifascista, Palmeiras Antifascista, Palmeiras Punk Rock – Antifascista, Ponte Preta Antifascista, Punk Santista, Santos Antifascista, Santos FC Antifascista, São Paulo FC – Antifascista, Vasco Antifascista.

É claro que existem outros coletivos de torcedores antifascistas que não se organizam por meio da rede-social, mas essa quantidade levantada mostra o quanto o futebol vem se politizando e assumindo pautas que buscam mudar não apenas o futebol, mas também a sociedade como um todo. Uma leitura interessante, já que se entende que o futebol não pode ser desvinculado da sociedade.

Existem outros coletivos de torcedores com pautas políticas menos abrangentes, mas de extrema importância, já que buscam reconhecimento, representatividade e respeito. É o caso das torcidas gays, como a Galo Queer, Bambi Tricolor, Palmeiras Livre e Gaivotas Fiéis que lutam pelo fim do preconceito dentro e fora dos estádios. Também há as torcidas femininas, que lutam, principalmente, contra o machismo. Talvez a mais conhecida delas seja a Schickeria München, do Bayern München, da Alemanha.

Se em uma definição simples, a torcida de futebol consegue agregar diversos indivíduos, em suas diferenças, em um único elemento: a paixão clubística. Ideias como igualdade, unidade e pertencimento estão colocadas entre os seus torcedores. Essa ideia de igualdade e pertencimento pode ser levada para o âmbito político, assim, as torcidas de futebol se uniriam em torno de um ideal, que não é mais clubístico, e sim político. O maior exemplo de união de torcidas é o caso do grupo Istanbul United.

Em 2013, durante os protestos na Praça Taskim, na Turquia, as três torcidas dos principais clubes de Istambul se uniram. Torcedores do Galatasaray, Fenerbahçe e Beşiktaş, que tinham um longo histórico de rivalidade e brigas entre eles, se uniram em nos protestos que começaram em torno da demolição do Parque Gezi, e que rapidamente tomou grandes proporções. O grupo ajudou os outros manifestantes no combate à repressão policial durante os protestos, uma vez que já possuíam uma longa experiência com os confrontos desse tipo, além disso, os torcedores engrossarem o movimento contra o AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento) do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan.

A ideia do Istanbul United é o caso mais concreto de como o futebol pode ser usado como ferramenta de luta e resistência. E mais do que isso, é um ótimo exemplo de como a união das forças das torcidas pode mudar a ordem vigente.

Ao questionar a lógica mercantil do futebol globalizado, a elitização dos estádios e as formas autoritárias dentro e fora do ambiente esportivo. Ao levar para as arquibancadas pautas como a luta contra o racismo, machismo, homofobia e a xenofobia. Ao colocarem em discussão um futebol mais justo, e uma sociedade mais justa, as torcidas assumem atitudes revolucionárias. São lutas anticapitalistas e antissistema, portanto, revolucionárias.

A revolução será com bandeirões, tambores e sinalizadores!

Referências

[1] GIULIANOTTI, Richard. Sociologia do Futebol – Dimensões históricas e socioculturais do esporte das multidões. São Paulo: Nova Alexandria, 2010. p.88-89.

[2] “Ódio Eterno ao Futebol Moderno”?

[3] Contra o Futebol Moderno – 1# O Futebol Moderno

[4] Torcidas organizadas pelo futebol, mas contra o machismo e a violência

Recomendo

Filme – Istanbul United (2014)