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Cronologia das torcidas organizadas (III): Gaviões da Fiel (Parte 2) – torcida organizada do Sport Club Corinthians Paulista

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, Raphael Piva Favelli Favero

* Nota explicativa. Esta série é parte integrante do projeto “Territórios do Torcer – uma análise quantitativa e qualitativa das associações de torcedores de futebol na cidade de São Paulo”, desenvolvida entre os anos de 2014 e 2015, com o apoio da FAPESP. A pesquisa foi realizada em parceria pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), equipamento público vinculado ao Museu do Futebol/Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Nesta seção, será apresentado um total de 12 torcidas organizadas da cidade de São Paulo. O propósito informativo desta série é compartilhar breves apontamentos cronológicos sobre a história e a memória das associações de torcedores paulistanos. Os dados aqui fornecidos foram de início a base para a montagem de um roteiro de perguntas que serviu à gravação dos depoimentos de fundadores e lideranças das respectivas agremiações torcedoras, tal como ilustram as fotos que acompanham os textos.

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(Continuação)

No carnaval de 1978, o bloco dos Gaviões desfila com o tema-enredo “Campeão dos Campeões – Eternamente em nossos corações”, composto por Osvaldinho da Cuica e Marco Aurélio (Jangada), conquistando o seu terceiro título. A quadra dos Gaviões da Fiel, situada na Rua Cristian Tomás, no Bom Retiro, berço do clube, é inaugurada.

Em 1979, no dia 11 de fevereiro, durante a realização de um Corinthians e Santos no estádio do Morumbi, ocorre outro episódio “mítico” na memória do grupo: no espaço do estádio ocupado pelos Gaviões da Fiel, desfralda-se uma faixa de oposição ao regime militar, com a mensagem: “Anistia Ampla, Geral e Irrestrita”. Para tanto, Chico Malfitani, um dos fundadores dos Gaviões, em depoimento ao projeto “Territórios do torcer”, conta que a ideia de levar essa faixa surgiu de Antônio Carlos Fon, na época seu colega de trabalho na revista Veja. Fon e Malfitani levaram a faixa, que passou pela revista policial escondida dentro dos instrumentos da bateria dos Gaviões.

Ainda em 1979, Tadeu Aparecido de Souza Piva assume a presidência dos Gaviões da Fiel, o sexto presidente em dez anos da entidade. É criada uma novidade editorial: o jornal “O Gavião”, com tiragem de até 60 mil exemplares. O enredo “Folias da Vovó”, composto por Osvaldo Arouche e Criolé, faz com que o bloco carnavalesco conquiste o seu quarto título.

Em 1980, após quatro vitórias consecutivas, o bloco carnavalesco do grêmio acaba obtendo o vice-campeonato. Seu enredo, “Corinthians, turbilhão de alegria”, é assinado pelos compositores Osvaldo Arouche e Valter Pinho. Em 6 de agosto daquele ano, morre Francisco Piciocchi, o Tantã, torcedor-símbolo do clube.

Já em 1981, com o tema “Folias de Momo”, composto por Armando da Mangueira e Jangada, o carnaval gavião volta a se sagrar campeão, conquistando o seu quinto título. Luiz Antonio Achôa Mezher (Magrão) é conduzido à presidência dos Gaviões da Fiel, tornando-se o sétimo presidente na história da torcida. Neste ano, é realizado o curta-metragem “Gaviões”, dirigido por André Klotzel, o mesmo diretor de “Memórias póstumas” e “Capitalismo selvagem”.

Em janeiro de 1982, integrantes dos Gaviões da Fiel distribuíram panfletos no centro da cidade, convocando torcedores para manifestação de protesto em frente ao Parque São Jorge. O alvo principal era o diretor de futebol Adílson Monteiro. No mesmo início de ano, a música “Folias do Zé Pereira”, composto por Armando da Mangueira e Jangada, embala o bloco carnavalesco, que angaria o seu sexto título.

Segundo o pesquisador José Paulo Florenzano, a relação dos Gaviões com a Democracia Corinthiana “se caracterizou pela mais profunda ambiguidade, pois às manifestações de apoio incondicional sucediam-se as de total repúdio, perfazendo um contínuo vaivém ideológico que, não raro, estremecia as relações entre a organizada e o elenco, como quando, no Campeonato Brasileiro de 83, aquela compôs faixa aberta nos estádios: Democracia sim, bagunça não”.

Em 1983, a composição “Fique bem comportado e será lembrado”, de autoria de Armando da Mangueira e Osvaldo Arouche, dá à agremiação mais um título no carnaval, o sétimo. Ainda naquele ano, Avelino Leonardo Gomes, o Bigode, é empossado como oitavo presidente da torcida.

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O pesquisador Bernardo Borges durante a entrevista no Museu do Futebol. Foto: Museu do Futebol.

Um ano depois, 1984, é a vez do enredo: “Não temos tema pra não criar problema”. Composto pela tradicional dupla Armando da Mangueira e Osvaldo Arouche, o bloco carnavalesco arrebata o seu oitavo título.

Chega o ano de 1985 e o bloco desfila com o tema “Jubileu de Diamantes”, composto pela mesma dupla de compositores do carnaval passado, e sagra-se mais uma vez campeão. Neste ano, José Lucas Amaral da Silva assume a presidência dos Gaviões da Fiel, o nono da história da entidade.

Passado um ano, mais uma comemoração no carnaval. O enredo “Será que vem?”, composto por Biro dos Gaviões e Toninho de Carvalho, arrebata o decacampeonato do grêmio carnavalesco.

Em 1987, falece Dona Elisa, torcedora símbolo do clube. Além de viver intensamente o Corinthians durante toda sua vida, Elisa trabalhou como cozinheira e empregada doméstica. Uma placa em homenagem a Dona Elisa, com os seguintes dizeres, pode ser encontrada no Parque São Jorge:

“A você, ELISA, símbolo da torcida corinthiana, sempre presente em nossos corações pela garra, fé e lição de vida. Nossa homenagem em nome de todos os corinthianos. E mais presente ainda com suas próprias palavras: Minha alma também é preta e branca. Sou toda Corinthians por dentro e por fora”.

Dona Elisa teve uma relação próxima com os jogadores que vestiram a camisa do Corinthians, a quem chamava de “meninos”. Era comum também que entrasse em campo com a equipe. Dona Elisa teve dois filhos e cinco netos, todos corinthianos.

Em 1987, o carnaval sacramenta mais um campeonato, o 11ª dos Gaviões. O tema “Do jeito que vier eu traço” vem assinado por José Rifai e Marco Antônio Geronimo (Clay). Ariovaldo Aparecido da Silva (Ari) torna-se o novo (10ª) presidente da torcida.

Em 1988, com o enredo “Palhaços e palhaçadas”, composto por José Rifai e Marco Antônio (Bigu), o bloco carnavalesco amealha o seu décimo segundo título consecutivo.

Um ano depois, após vencer 12 desfiles de 13 disputados como bloco carnavalesco, os Gaviões são convidados para participar do Grupo de Acesso das Escolas de Samba de São Paulo. Em seu primeiro desfile, no mesmo ano, a escola é vice-campeã. “O Preto e Branco na Avenida”, composto por Biro, Xavier, Frutuoso, Deolindo e Baixinho do Banjo, foi o enredo que marcou a estréia dos Gaviões da Fiel como Escola de Samba.

Ainda em 1989, o líder da torcida Magrão, que já fora presidente, reassume a presidência dos Gaviões da Fiel, um fato inédito na linha sucessória do grupo, cujo poder alternava-se a cada dois anos, sem permitir reeleição.

No carnaval, o ano de 1990 marca o primeiro desfile da torcida no Grupo Especial. A Escola de Samba Gaviões da Fiel termina em nono lugar, entre as dez escolas que disputaram o certame, sendo rebaixada para o Grupo de Acesso. O enredo desse ano chama-se “O homem nasceu para voar”, composto por Pantera e Rogério PC.

No carnaval seguinte, 1991, a Escola de Samba vence o Grupo de Acesso, com o enredo “A dança das horas”, composto por Grego, e reascende à elite das agremiações carnavalescas. Em 1991, Alex Simão Araújo assume a presidência dos Gaviões da Fiel, tornando-se o décimo segundo da história da agremiação.

No ano seguinte, a torcida-escola termina na oitava colocação do Grupo Especial, com o enredo “Cidade Aquariana”, composto por Grego. 1992 assinala um marco no crescimento da torcida: o Grêmio Gaviões da Fiel confecciona a carteirinha de associado de número 20 mil.

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Dentinho. Foto: Museu do Futebol.

Em 1993, a Escola de Samba termina na quinta colocação do Grupo Especial, com o enredo “A chave do tempo”, também composto por Grego. José Claudio de Almeida Moraes (Dentinho) torna-se o novo (13ª) presidente dos Gaviões da Fiel.

Um ano depois, em 1994, ocorre o então melhor resultado da Escola de Samba, sagrando-se vice-campeã do Grupo Especial, com o enredo “A Saliva do Santo e o Veneno da Serpente”, composto por Grego e Magal. A sonoridade do samba faz com que até hoje ele seja lembrado e entoado nas arquibancadas pela torcida. O crescimento acelerado da torcida continua intenso: em 1994, em apenas um dia, 406 corinthianos se filiam aos Gaviões.

Em 1995, após uma briga generalizada entre as torcidas organizadas do Palmeiras e São Paulo, ao final de uma partida de juniores, episódio conhecido como “A batalha campal do Pacamebu”, uniformes, faixas, bandeiras e instrumentos de bateria de torcidas organizadas paulistanas são proibidos de adentrar aos estádios.

No mesmo ano, o almejado título para a Escola de Samba Gaviões da Fiel, que conquista pela primeira vez o campeonato do Grupo Especial. O enredo campeão, “Coisa boa é para sempre”, composto por Grego, tornou-se um clássico do carnaval de São Paulo e até hoje é entoado nas arquibancadas dos estádios. Em 1995, cria-se o site oficial dos Gaviões da Fiel na Internet. No mesmo ano, Paulo Romano (Jamelão) vem a ser o novo (14ª) presidente dos Gaviões da Fiel.

Em 1996, a Escola de Samba termina na quarta colocação do Grupo Especial, com o enredo “Quem viver verá o vinte vivar”, composto por Alemão do Cavaco, Luis Eduardo e Luis Lopes.

No ano seguinte, 1997, a grêmio carnavalesco fica na quinta colocação do Grupo Especial, com o enredo “Mundo da Rua”, composto por Grego. No mesmo ano, 1997, Douglas Deungaro (Metaleiro) assume a presidência dos Gaviões da Fiel, o décimo quinto da história.

Em 1998, a Escola de Samba Gaviões da Fiel termina na quinta colocação do Grupo Especial, com o enredo “Corinthians… meu mundo é você!”, composto pro Alemão do Cavaco, José Rifai e Ernesto Teixeira.

Um ano depois, a Escola de Samba termina na primeira colocação do Grupo Especial, empatada com a Vai-Vai, e sagra-se novamente campeã. O enredo campeão foi “O Príncipe Encoberto ou a Busca de Dom Sebastião na Ilha de São Luís do Maranhão”, composto por Alemão do Cavaco, José Rifai e Ernesto Teixeira.

Ainda em 1999, José Cláudio de Almeida Moraes (Dentinho) reassume a presidência dos Gaviões da Fiel, tornando-se o 16ª mandatário da entidade. Junto ao ex-presidente Magrão, são os únicos casos de dois mandatos da história da torcida.

Em 2000, a Escola de Samba Gaviões termina na terceira colocação do Grupo Especial, com o enredo “Um voo para a liberdade”, composto por José Rifai, Alemão do Cavaco, Ernesto Teixeira e Armando Daguer.

No ano seguinte, a torcida disputa o carnaval e termina na quarta colocação, com o enredo “Mitos e Magias na Triunfante Odisséia da Criação”, composto por José Rifai, Alemão do Cavaco e Ernesto Teixeira. Em 2001 também, Marcelo Caetano Carreiro (Pancho) assume a presidência (17ª) dos Gaviões da Fiel.

Em 2002, nova comemoração na quadra da torcida, com a conquista do terceiro título do Grupo Especial. O enredo “Xeque Mate” vem assinado por José Rifai, Alemão do Cavaco e Ernesto Teixeira.

Um ano depois, vem o tetracampeonato: a Escola de Samba arrebata novamente o título do Grupo Especial, com o enredo “As Cinco Deusas Encantadas na Corte do Rei Gavião”, composto por Grego. Em 2003, Ronaldo Pinto assume a presidência dos Gaviões da Fiel, tornando-se o 18ª presidente de sua história.

2004 é um ano negativo: a Escola de Samba termina na última colocação do Grupo Especial e é rebaixada para o Grupo de Acesso. O desfile da escola foi marcado por problemas mecânicos em um de seus carros alegóricos que, além de causar incidentes, com pessoas feridas, fez com que o tempo excedesse o limite estipulado pelo regulamento. O enredo desse ano foi “Ideias e paixões: combustível das revoluções”, composto por Binho e Claudinho.

Vem o ano de 2005 e a torcida-escola conquista o título do Grupo de Acesso, garantindo o direito de retornar à elite do samba de São Paulo no ano seguinte. O enredo desse ano, “Renasce, sacode a poeira e dá a volta por cima”, simboliza a superação dos percalços do ano anterior, sendo composto por José Rifai, Ernesto Teixeira, Alemão do Cavaco e Grego. Ainda em 2005, Wellington Rocha Jr. (Tonhão) assume a presidência (19ª) dos Gaviões da Fiel.

No ano seguinte, nova crise carnavalesca. A Escola de Samba Gaviões da Fiel termina novamente na última colocação do Grupo Especial. Os Gaviões participaram do Grupo Especial, nesse ano, por conta de uma liminar na Justiça. Pelo regulamento oficial, a escola deveria competir no recém-criado “Grupo Especial das Escolas de Samba Desportivas”, junto com a Escola de Samba Mancha Verde.

A apuração das notas e a confirmação de um novo rebaixamento para o Grupo de Acesso gera revolta entre os componentes dos Gaviões e o presidente da entidade, Wellington Rocha Junior, o “Tonhão”, chega a declarar que os Gaviões não participariam mais do carnaval paulistano. O enredo daquele ano intitula-se “Asas da fascinação” e é de autoria de Ernesto Teixeira, Alemão do Cavaco, José Rifai e Grego.

Gaviões da Fiel. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Bandeirão da Gaviões da Fiel. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Em 2007, o grêmio decide continuar no carnaval paulistano e conquista novamente o título do Grupo de Acesso, com o enredo “Anchieta, José do Brasil”, composto por Binho e Claudinho. Herbert César Ferreira torna-se o novo (20ª) presidente dos Gaviões da Fiel.

Em 2008, a escola-torcida termina na décima primeira colocação do Grupo Especial, com o enredo “Nas asas dos Gaviões, rumo ao portal dos sertões – Santana de Parnaíba: berço de bandeirantes”, composto por Fabinho do Cavaco.

Após um ano, a Escola de Samba fica na quarta colocação do Grupo Especial, com o enredo “O sonho comanda a vida, quando o homem sonha o mundo avança. A fantástica velocidade da roda para a evolução humana. É pura adrenalina!”, composto por Fabinho do Cavaco, João 10, Moraes e Juninho Mascarenhas. Ainda em 2009, Eduardo Araújo Fontes (Panchinho) assume a presidência dos Gaviões da Fiel, tornando-se o vigésimo primeiro da história da entidade.

Em 2010, como homenagem ao centenário do Corinthians, a escola apresenta o enredo: “Corinthians… Minha Vida, Minha História, Meu Amor”, composto por Luciano Costa, Araken Quedas, Flávio Rocha, Gustavo Henrique e Junior Fionda. O resultado é a quinta colocação no desfile do Grupo Especial.

No ano seguinte, desfila-se no Anhembi com o enredo “Do Mar das Pérolas e das Areias do Deserto à Cidade do Futuro. Dubai, o Sonho do Rei Maktoum”, composto pelo mesmo time de sambistas de 2010: Luciano Costa, Araken Quedas, Flávio Rocha, Gustavo Henrique e Junior Fionda. A Escola de Samba termina novamente na quinta colocação do Grupo Especial. Também em 2011, Antônio Alan Souza Silva (Donizeti) torna-se o 22ª presidente dos Gaviões da Fiel.

Em 2012, a homenagem ao ex-presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, vale o enredo “Verás que um filho fiel não foge à luta, Lula – o retrato de uma nação”, composto por Grandão, Batata, Netinho, Max, Magrão, Luciano, Mariano Araújo e Dentinho. A Escola de Samba obtém a nona colocação do Grupo Especial.

Um ano depois, o enredo “Ser Fiel é a alma do negócio”, composto por José Rifai, Ernesto Teixeira, André União, Fadico, Murillo, Alex e Bruno, rende novamente a nona colocação à torcida. Ainda em 2013, Wagner da Costa (B.O.) assume a presidência dos Gaviões da Fiel. Torna-se o presidente de número 23 da história do agrupamento.

Em 2014, os Gaviões atingem um feito no universo das torcidas organizadas, ao chegar à marca de 100 mil sócios. O enredo “R9 – o voo real do Fenômeno”, composto por José Rifai, Ernesto Teixeira, Grandão, Preto, Cainã, Sukata, Netinho da Carioca e Max, homenageia o ex-jogador Ronaldo Nazário, atacante campeão do mundo pela Seleção brasileira, que atuou pelo Corinthians em 69 jogos, tendo marcado 35 gols e conquistado dois títulos (Campeonato Paulista e Copa do Brasil em 2009).

Em 2015, o enredo escolhido para o desfile desse ano foi “No jogo enigmático das cartas, desvendem os mistérios e façam suas apostas, pois a sorte está lançada!”, composto por Eduardo Nery, Dom Álvaro, Rodrigo Pezão, Tadeu Paulista, Gustavinho Oliveira, Danilo Garcia, Caio Alves e Rafael Tinguinha. Ainda neste ano, por meio de eleições diretas entre os associados, uma tradição nos quase 50 anos de história da torcida, Diguinho é eleito para a presidência (24ª) da entidade.