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A governamentalidade da população futebolística

Arlei Sander Damo

A reconfiguração dos estádios brasileiros e de seu público – de parte deles, ao menos – suscita uma série de questões que extrapolam o espectro do futebol. Volto ao tema e talvez esta não seja a última vez. Todos sabem que segurança e conforto foi o binômio orientador da remodelação dos principais estádios brasileiros; que o impulso não partiu daqui; que há muitas controvérsias em aberto e por aí segue. Em certo sentido, as arenas ou estádios – a terminologia não é tão importante no momento – são parte, e não a questão em si. Os estádios são um dispositivo de governamentalidade do público. Eles podem ser pensados neste registro, como tendo sido, desde sempre, um dispositivo desta natureza, apesar de não terem sido ainda suficientemente explorados. A questão mal pode ser tangenciada neste espaço. São tantas e tão densas as possibilidades de abordagem desta temática que neste texto me limitarei a apresentar, em linhas gerais, alguns enunciados a respeito.

A questão da governamentalidade é aquela que coloca o futebol – e os esportes – no raio de interesse dos cientistas sociais. Não é a questão estética, que talvez seja a via principal para se entender as razões pelas quais o esporte se tornou um fenômeno de massa no decurso do século XX. Na verdade, uma questão e outra não estão separadas, ainda que tenham suas próprias especificidades. Quando se fala em governo, está se falando de poder. Mas de que poder, afinal? E de que modalidade de governo?

O termo governamentalidade é identificado com o pensamento de Michel Foucault. Sua formulação mais bem acaba é relativamente tardia, dos cursos ministrados no Collège de France, no final dos anos de 1970, e publicados em Sécurité, territoire, population e La naissance de la biopolitique. A noção não está ausente em outras obras – quando trata do governo dos loucos, dos presos, dos doentes, enfim, de toda a sorte de “indesejáveis”. Todavia, a noção de governamentalidade desenvolvida nos cursos acima abre outros (e novos) horizontes. Não vou me estender sobre o conceito em si, apenas ressaltar que ele compreende uma transição em relação às preocupações anteriores de Foucault, sugerindo uma transição do que seria a sociedade disciplinar para a sociedade de controle e, sobretudo, dos controles exteriores para os interiores, do governo direto para o indireto, do governo exercido pelo estado para aquele do eu – um autogoverno, portanto.

Foucault formulou a questão acerca da emergência de uma economia política moderna destinada ao controle da população e poderíamos estendê-la para o caso do futebol. A população futebolística é de um tipo sui generis, porque não pode ser alcançada facilmente pela demografia, a ciência responsável pela gestão das pessoas – uma das mais importantes, ao menos -, salvo em circunstâncias específicas. A população futebolística irrompe abruptamente, por ocasião de certos eventos, que todos sabemos identificar. Seja como for, não é um tipo de população que possa ser facilmente submetida aos regimes disciplinares convencionais, seja porque isso parece impraticável do ponto de vista logístico ou injustificável do ponto de vista moral ou mesmo legal. Poderiam, então, os estádios serem pensados como um espaço de confinamento, à maneira das prisões? Por óbvio, não se vai à prisão senão forçado; e aos estádios por livre arbítrio. À primeira vista a analogia pode parecer absurda, mas olhando-se com acuidade talvez não seja.

arquibancada

Detalhe das arquibancadas do Estádio Olímpico Atahualpa localizado em Quito. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

No quinto capítulo de A Busca da Excitação, “O futebol popular na Grã-Bretanha medieval e no início dos tempos modernos”, Norbert Elias e Eric Dunning fazem uma resenha dos editos reais visando proibir o folk football, tido como desencadeador de graves distúrbios sociais. Os pedagogos do século XIX transformaram o limão em limonada, usando os esportes como meio de proteger as instituições, fazendo com que as energias acumuladas pelos internos fossem dissipadas através de atividades físicas. A violência potencialmente lesiva a ordem institucional poderia ser desviada e domesticada. Para quem já estivesse em regime de confinamento, em colégios laicos ou confessionais – à diferença pode existir em termos de conteúdo, mas na forma de disciplinamento eram muito semelhantes – o esporte poderia ser um purgante.

Os estádios não foram pensados para esta finalidade, definitivamente. O esporte pode ser uma invenção moderno, mas não os estádios. Na Roma Antiga havia as arenas, mais portentosas e sofisticadas do que os primeiros estádios que surgiram no norte da Inglaterra na segunda metade do século XIX. Os estádios foram uma solução encontrada para cumprir uma dupla finalidade que se tornara urgente com a popularização do futebol. Uma delas, certamente a mais evidente, era acolher um certo contingente populacional que acorria aos espetáculos, o que implicava em proporcionar a possibilidade de assistência e, não menos importante, separar certas classes de pessoas segundo critérios de status alheios ao futebol. A outra, não menos importante, era separar adequadamente dois segmentos aficionados pelo jogo: os que estariam no centro, jogando, e os que deveriam permanecer na periferia, assistindo; aqueles de quem seria esperada a ação, à diferença daqueles de quem se esperava uma atitude contemplativa, quase passiva. Diferentemente do espetáculo de gladiadores – e já que estamos falando de arenas e estádios não há como evitar referências comparativas – que colocavam no centro os forçados e as feras, os estádios ingleses colocaram, de início, os gentlemen no centro e a plebe nos arredores.

As instituições esportivas preocuparam-se desde sempre com a gestão do jogar, não com a do contemplar. A assistência não impunha tantos problemas quanto os jogadores, isso pode ser uma hipótese. Torcer, que denota uma disposição mais ativa, talvez seja algo mais recente, compatível com a emergência de “problemas” nesta seara. Mas pode haver outras razões para que tenhamos tão poucas referências a respeito disso. Norbert Elias tem méritos indiscutíveis em sua interpretação sobre o lugar do esporte na modernidade, como um espaço-tempo que possibilita o acesso a determinadas experiências, como a excitação com a morte mimética. Mas a sua análise é bastante incompleta – e nem seria de esperar mais – porque não acentua adequadamente a distinção entre os praticantes e a assistência, que mais tarde resultaria na diferenciação entre profissionais e amadores, jogadores e torcedores. Elias oferece pistas importantes para a reconstrução de uma genealogia do controle da violência, sempre presente nas atividades agonísticas. No entanto, a impressão é que ele está sempre olhando para o jogo e para as instituições que o controlam. Quando seus sucessores – autorizados ou não – extrapolaram a questão, nem sempre foram tão brilhantes. Talvez porque as ferramentas analíticas tivessem de ser repensadas.

Há que se considerar que a violência entre os jogadores foi desde sempre um problema que coube às instituições futebolísticas resolver. Já acerca das brigas na assistência, sempre se pode alegar que era coisas de gente alheia ao espírito esportivo. Poder-se-ia, inclusive, constituir uma história social das categorias utilizadas para retratar esse tipo agente. O que o futebol não poderia tolerar, sob o pretexto de se tornar um espetáculo não recomendável, era a violência dentro de campo, entre os atletas e destes para com a arbitragem. Foi para isso que se instituiu uma justiça bastarda, que se confunde com a justiça dita oficial, visando vigiar e punir os excessos dos jogadores.

E em relação aos torcedores? Aparentemente as instituições esportivas nunca se preocuparam com eles; nunca foram vistos como uma população a quem lhes competisse modular, muito menos controlar. Isso era um problema do Estado. E ponto. Foi apenas quando o Estado se mostrou incapaz – não importa os motivos, por hora – de controlar esta população que as instituições esportivas entraram em cena. E isto aconteceu num momento em que o torcer deixou de ser sinônimo de passividade. É por esta razão que o Relatório Taylor, forjado a partir da Tragédia de Hillsborough, é um documento tão extraordinário. Ele é muitas coisas ao mesmo tempo, mas poderia ser sintetizado numa orientação pontual: é preciso que as instituições futebolísticas passem a se ocupar também do público. Não é propriamente uma questão de cidadania; é a sobrevivência do negócio.