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Cronologia das torcidas organizadas (II): Independente Tricolor – torcida organizada do São Paulo Futebol Clube

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, Raphael Piva Favelli Favero

 * Nota explicativa. Esta série é parte integrante do projeto “Territórios do Torcer – uma análise quantitativa e qualitativa das associações de torcedores de futebol na cidade de São Paulo”, desenvolvida entre os anos de 2014 e 2015, com o apoio da FAPESP. A pesquisa foi realizada em parceria pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), equipamento público vinculado ao Museu do Futebol/Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Nesta seção, será apresentado um total de 12 torcidas organizadas da cidade de São Paulo. O propósito informativo desta série é compartilhar breves apontamentos cronológicos sobre a história e a memória das associações de torcedores paulistanos. Os dados aqui fornecidos foram de início a base para a montagem de um roteiro de perguntas que serviu à gravação dos depoimentos de fundadores e lideranças das respectivas agremiações torcedoras, tal como ilustram as fotos que acompanham os textos.

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A torcida Independente constituiu-se em 1972, a partir de uma dissidência com a Torcida Uniformizada do São Paulo, a primeira e até então única associação torcedora do clube são-paulino. As origens da TUSP remontam a 1939, através do “Grêmio Tricolor”, um antigo núcleo de dirigentes e jogadores do clube, fundado por Manoel Raymundo Paes de Almeida. Dele surge o embrião da TUSP, agrupamento pioneiro no “torcer organizado” no país.

Sobre o perfil dos membros da TUSP nos primeiros anos de atuação da torcida, o livro Laudo Natel – um bandeirante, de Ricardo Viveiros, informa: “a torcida era formada por universitários”, pessoas educadas, nas palavras do fundador, que usavam uma camisa branca, com o emblema do SPFC sob a inscrição ‘grêmio são paulino”. Faziam alegorias que serviam de atração para os jogos, em especial quando os jogadores entravam em campo, e eram recebidos com confetes e serpentinas.

Dentre os cânticos de então, alguns gritos coletivos da TUSP, de teor onomatopaico, ainda são lembrados:

“Uáique Páique-Cháique

Uáique

Uáique Páique-Cháique

Uáique

Tchen-Gô-Tchen-Gô

Rá-Rá-Rá”

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“Arakan – balan – bakan

arakan – balan – bakan

Tumerê – Tumerá

Ma-cam-bê Bê-cam-bê-cá

Rico-réco Rico-rá

Rá – Rá – Rá

São Paulo!

São Paulo!

São Paulo”

O livro Saga de um campeão, de autoria do escritor Ignácio de Loyola Brandão, informa:

“O Grêmio São-Paulino surgiu na Mooca, em 1939. Fazíamos tudo com entusiasmo e por nossa conta. Lembro-me do primeiro espetáculo que demos no Pacaembu. Uma festa maravilhosa, com serpentinas e confetes. Fizemos depois uma magnífica ‘marche aux flambeaux’, em 1943, quando a moeda caiu em pé e o São Paulo foi campeão. Montamos um carro alegórico, com uma moeda gigante de pé, e fomos, em cortejo de automóveis, buscar a Taça dos Invictos de A Gazeta Esportiva”.

A passagem “quando a moeda caiu em pé” faz referência às brincadeiras, entre dirigentes, repórteres e torcedores, em torno da disputa do campeonato paulista de 1943. Na reunião do conselho arbitral que antecedeu à edição do torneio, dirigentes e repórteres diziam que bastava uma disputa de “cara ou coroa” para ver quem seria o campeão, já que, desde 1937, apenas Corinthians e Palmeiras conquistaram o torneio. Quando questionada a possibilidade de o São Paulo vir a conquistar o título, reza a lenda que algum dirigente rival teria dito que as chances de vitória do tricolor seriam as mesmas da moeda vir a cair em pé.

Embora não filiada à TUSP, em 1949, Dona Filhinha, torcedora símbolo do São Paulo FC nas décadas seguintes e futura integrante da torcida Independente, começou a frequentar os estádios.

Passadas as décadas de 1940 a 1960, em 1972, mais precisamente no dia 17 de abril, a Torcida Independente foi oficialmente fundada por ex-membros, dissidente da TUSP. Segundo relatos dos integrantes, a ideia de fundar uma nova torcida foi decorrência de desentendimentos entre membros e diretores da TUSP.

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Torcida Independente.

No mês anterior, em março de 1972, aconteceu o episódio que marca definitivamente a ruptura com a TUSP e a proposta de criar uma nova torcida. Na primeira caravana internacional organizada pela TUSP, para acompanhar o São Paulo FC no Paraguai, pela Taça Libertadores da América, para a qual foram fretados 8 ônibus de torcedores, os diretores da torcida se hospedaram em hotéis 4 estrelas, enquanto os demais membros da torcida ficaram em pensões. Além disso, descobriu-se que os diretores vendiam materiais da equipe são-paulina, entre brindes e camisas, que eram para serem distribuídos de graça entre os simpatizantes estrangeiros do clube do Morumbi, no país vizinho.

Frente à discórdia, a decisão de se fundar outra torcida se concretizou, então, pouco tempo depois, durante um jogo no Pacaembu. Nele, o torcedor Newton Ribeiro foi procurado por outros dois torcedores da TUSP, Ricardo Rapp e Rinaldo Cardoso, que também estavam descontentes com a torcida. Mais tarde, um grupo de 40 jovens da TUSP, também descontentes, se juntaram aos descontentes.

Para selar a fundação, a primeira reunião da torcida foi realizada em uma sala emprestada da Esfera Tour Turismo, na Avenida Ipiranga, no centro de São Paulo. Nessa primeira reunião foi definido, entre outras pautas, o nome da torcida. Chegou-se a cogitar em batizar a torcida com o nome de algum animal. No entanto, decidiu-se pelo nome “Independente”, que faz referência ao processo de independência de colônias na África e na Ásia, em curso naquele momento.  Essa ideia foi dada por Ricardo Rapp e traduzia os ideais de “total independência” da nova torcida em relação ao clube.

A escolha da camisa da nova torcida foi feita em contraposição ao uniforme que era usado pela TUSP. Enquanto a TUSP usava um modelo baseado no segundo uniforme do São Paulo (listras verticais em vermelho, preto e branco), a Independente elegeu o primeiro uniforme (inteira branca com uma listra vermelha e uma preta na horizontal) como referência para sua camisa oficial.

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O uniforme da Independente.

A primeira diretoria da Independente foi composta por: Newton Ribeiro, presidente; Rinaldo Cardoso Leite, vice-presidente; Ricardo Rapp, coordenador de campo e tesoureiro; e Célio Perina, José Octávio Alvez Azevedo, Plínio Peloso e José Oswaldo Feitosa, que não ocupavam cargos específicos. Dona Filhinha, figura muita querida por toda torcida são paulina, foi escolhida como “torcedora símbolo” pela Independente.

Após a montagem da direção, o estatuto da torcida ficou pronto em 9 de junho de 1972. Naquele princípio, para tornar-se sócio da nova torcida era necessário ser são paulino, ter duas fotografias e contribuir mensalmente com Cr$ 20 mil. A estreia da torcida foi em um jogo contra a Portuguesa, em 23 de abril de 1972, no Estádio do Pacaembu.

O surgimento da Independente causou reações negativas dentro da diretoria do clube. Arnaldo Ruick, diretor social do São Paulo à época, chegou a afirmar que a nova torcida era coisa de “corintiano e maloqueiro”. Em momento posterior, face às dificuldades encontradas pela torcida em transportar seus materiais ao estádio, a Independente procurou o conselheiro do clube, Paulo Planet Buarque, para pedir um espaço no Morumbi, no intuito de alojar os instrumentos.

Sendo assim, uma reunião foi marcada com a presença do conselheiro de obras do estádio, Antonio Numes Leme Galvão. No entanto, a pauta da reunião acabou sendo a própria existência da torcida. Os diretores do tricolor paulista queriam que os membros da Independente desistissem da torcida. Um ano após esse primeiro encontro, e depois de muita negociação, a torcida conseguiu uma sala no estádio do Morumbi.

Para viabilizar seu próprio espaço, a torcida utilizou uma sala emprestada na Avenida Ipiranga durante os seus três primeiros meses de atividades. Após esse período, os encontros da torcida passaram a acontecer na Galeria Guatapará, na rua 24 de maio, ou em pleno Largo do Paissandu. Os integrantes da Independente relatam dificuldades tanto em alugar uma sede, pela recusa dos proprietários em locar os seus imóveis para uma torcida organizada, quanto pela impossibilidade de se reunir em espaços públicos, haja vista a repressão policial durante a ditadura militar. Ainda assim, a primeira sede da torcida foi na Galeria Guatapará, onde se situa até hoje.

A Independente só conseguiu contar com a sua própria bateria no início dos anos 1980. Até então, a torcida contratava baterias e cordões carnavalescos. A primeira caravana da torcida foi para o interior do estado, Piracicaba, em 1972, em jogo do Campeonato Paulista. A torcida alugou um ônibus, mas apenas 15 pessoas compareceram. A segunda viagem da torcida foi para Araraquara, em partida também válida pelo campeonato paulista. A excursão marcou a chegada de uma figura importante na história da torcida: Arari Guimarães. O torcedor, que soube da caravana por conta de um anúncio publicado no jornal A Gazeta Esportiva, foi responsável por dar maior organização a parte financeira da torcida.

Durante os três primeiros anos de existência, a torcida teve em média 200 membros ativos. Naquele começo, cada torcedor visto usando a camisa do São Paulo nos estádios era convidado a fazer parte da torcida. No entanto, devido ao mau desempenho da equipe são-paulina entre 1972 e 1974, a torcida não teve grande aumento no número de componentes.

A baixa adesão de são paulinos à torcida levou as lideranças à iniciativa de divulgar suas atividades em rádios e jornais. Nessa mesma época, foi lançado também o “São Paulino Amigo”, um folheto que era distribuído nos jogos como tentativa de popularizar a Independente.

O primeiro grande salto no número de associados da torcida é atribuído a uma ação do grupo em resposta à proibição que a polícia impôs ao uso de instrumentos musicais nos estádios. A Independente confeccionou uma faixa com os dizeres: “Silêncio, estamos jogando”. Junto a esta, uma corneta passou a tocar a marcha do “Silêncio”. A ação teve grande repercussão nos meios de comunicação e a torcida, em um ano, alcançou a marca de 1000 associados.

Além da polarização entre a TUSP e a Independente, nesse período existiram outras torcidas que apoiavam o São Paulo FC, a exemplo da: Força Total, Juventude Tricolor, Pantera Tricolor, Caveira Tricolor, Dragões do Mais Querido, Real Força Inflamante Tricolor e Coração Tricolor.

Em 1981, Reginaldo Tadeu Batista de Souza, futuro presidente da agremiação, começa a frequentar a Torcida Independente. No grupo, receberia dos colegas de torcida o apelido de “Adamastor”, por conta de seu tipo físico “gordinho”, em referência a um personagem de um famoso comercial de televisão na época.

No final daquele decênio, Adamastor assumiria a presidência da torcida. Em entrevista ao projeto “Territórios do Torcer”, Adamastor conta que uma de suas iniciativas foi “impor o respeito” da Independente ante as rivais do estado, principalmente frente à Mancha Verde. A categoria “respeito” é muito utilizada no universo das torcidas para denotar a capacidade de um grupo inspirar temor ante os rivais.

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Adamastor durante a entrevista.

O próprio símbolo do clube, um anjo, conforme mostra o antropólogo Luiz Henrique de Toledo em percuciente artigo, é transformado nessa ocasião de um inocente escudo clubístico em uma possante, musculosa e amedrontadora figura, por paradoxal que fosse a sugestão de um ícone angelical assim representado.

Neste período também, a torcida rearticulou a sua rede de alianças nacionais, dando origem nos anos 2000 à “união sinistra”, ou União do Punho Cruzado, que reúne a Torcida Jovem do Flamengo, a Máfia Azul do Cruzeiro, a Camisa 12 do Internacional e a Fanáticos (Atlético-PR), a Torcida Jovem do Sport, a Dragões Atleticanos (Atlético-GO), e cultiva, entre outros personagens guerrilheiros, a efígie de Ernesto Che Guevara.

Desde então, o crescimento da Independente foi notável, favorecido também pelo desempenho do clube em campo. Na década de 1990, com a conquista de títulos nacionais e internacionais, pesquisas de opinião realizadas por diversas instituições e órgãos da mídia apontam para um crescimento da torcida são paulina. Segundo sondagens, esta ultrapassa em quantidade o número de torcedores do Palmeiras e passa a ser, assim, a segunda maior torcida em São Paulo, e a terceira maior do país, ficando atrás somente de Flamengo e Corinthians.

Em 1995, após a “Batalha do Pacaembu”, conflito generalizado dentro do estádio municipal, com a participação ativa de integrantes da Independente, uma portaria da Federação Paulista de Futebol, com o apoio do Ministério Público e da Polícia Militar do Estado de São Paulo, impede a entrada de faixas, bandeiras e uniformes que identificassem as torcidas organizadas nos eventos esportivos no estado de São Paulo.

Em 11 de novembro de 1998, a torcida Independente é refundada após ter sido extinta nos anos anteriores pelo Ministério Público. O grupo recomeça “do zero”, em razão do afastamento de muitos antigos associados, diretores e fundadores, como Ferrão e outras referências. O “Grêmio Esportivo Recreativo e Cultural Tricolor Independente” é reaberto sem possuir sede, material e dinheiro, herdando apenas o nome “Independente” da antiga fase da torcida.

Nos anos 2000, a torcida revitaliza-se, começando a se organizar para participar do carnaval de São Paulo como bloco carnavalesco. Em 2002, ocorre um movimento interno intitulado “A Retomada”. Membros insatisfeitos com a diretoria, acusada de ser bancada pelo clube e gastar o dinheiro da torcida para fins particulares, a facção interna toma à força o controle da torcida. No final daquele ano, então, o “bonde do Batata e do Negão” assume a torcida. A nova diretoria se depara, não obstante, com dívidas acumuladas, que superavam o valor de 250 mil reais, além do nome sujo “na praça”.

Foi essa nova diretoria que, após intenso diálogo com o Ministério Público e com a Policia Militar, conseguiu fazer retornar para os estádios os materiais de identificação da torcida (faixa, camisas, bandeiras). Em paralelo, ocorre a organização do grupo como bloco carnavalesco. Em 2003, após confusão com integrantes da Mancha Verde e da Pavilhão 9 nos arredores do Anhembi, o “Bloco Independente” foi excluído do carnaval pela UESP. Mas, em 2009, depois de incorporar a agremiação Malungos, a torcida passa a competir oficialmente no carnaval paulistano como escola de samba, desfilando pelo grupo 4, o equivalente à sexta divisão.

Segundo relato de campo feito por pesquisadores do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB/Museu do Futebol), em visita à sede da torcida no dia 19 de outubro de 2011:

“A Independente possui estatuto, CNPJ, empresa constituída e eleições em um sistema próximo do parlamentarista, com um conselho deliberativo e fiscal que elege o presidente para um mandato de dois anos. Não há reeleição e os que querem perpetuar sua gestão “fazem” um sucessor. De acordo com Kinho (na época diretor de marketing da torcida), há a intenção de instituir a eleição do presidente por voto direto dos associados já na próxima gestão. Os recursos econômicos da Independente advêm do pagamento da mensalidade pelos sócios e da venda de produtos na sede da torcida, especialmente de vestuário”.

No início da década de 2010, a Independente fez parte da CONATORG – Conselho Nacional de Torcidas Organizadas, junto com outras torcidas rivais. Sobre essa experiência, o líder Kinho deixou claro que essas torcidas não são amigas, nem nunca serão, mas que atuavam conjuntamente para defender interesses em comum.

Em 2012, começa a trajetória ascendente da torcida no carnaval paulistano, sob a liderança de Batata e graças ao apoio de integrantes históricos, oriundos da geração dos fundadores, como Danilo Zamboni. Enquanto a torcida assistia à emergência de uma nova liderança, Baby, apelido de Henrique Gomes, a Escola de Samba Independente liderada por Batata passa a se chamar Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Independente Tricolor, conquistando o vice-campeonato do grupo 3 da UESP (União da Escolas de Samba Paulistanas).

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Torcida Independente no carnaval.

Em 2013, a Escola de Samba Independente sagra-se campeã do grupo 2. No ano seguinte, a escola conquista o título do grupo 1, obtendo o direito de disputar o Grupo de Acesso no ano de 2015. Neste ano, em virtude de um forte temporal, o desfile no Anhembi é prejudicado e, embora com pontuação para rebaixamento, a Liga das Escolas mantém a agremiação no grupo de acesso em 2016. No desfile de 2017, a escola surpreende, faz um exuberante desfile no sambódromo e fica na segunda colocação, conquistando o direito de participar do grupo especial em 2018.