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Jogadores brasileiros na Alemanha: recordações e fantasia do jogo

Alexandre Fernandez Vaz

Na primavera europeia de 2005 cheguei ao Instituto de Sociologia da Universidade de Hannover, onde havia estudado anos antes, para uma visita afetiva. Apenas nos dias seguintes teria atividades de trabalho, mas passeando pela Cidade Norte, bairro onde eu morara, decidi-me por entrar no prédio da rua Schneiderberg, número 6, onde uma profícua Teoria Crítica da Sociedade foi desenvolvida entre os anos 1970 e a primeira década deste século. Ao chegar ao terceiro andar, à sala de trabalho de Detlev Claussen, a surpresa: como a dar boas-vindas aos visitantes, fotos de Mesut Özil e Aílton, destaques do Werder Bremen, campeão da Bundesliga na temporada anterior. O grande ensaísta e crítico, Professor hoje emérito, é fã de futebol, sobre o qual escreveu diversos ensaios e um livro, e torcedor do Bremen.

Özil seria o grande jogador que todos conhecemos, destaque da Alemanha campeã do Mundo em 2014; Aílton nunca chegou a ser famoso no seu país natal, o Brasil. Mas, pelo Bremen campeão, foi não apenas artilheiro, mas o melhor jogador da competição. O atacante parrudo ainda jogaria anos na primeira divisão alemã, antes de seguir peregrinando pelo futebol e se aposentar apenas no ano passado.

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Aílton em 2007, treinando no MSV Duisburg. Foto: Andreas Nowak/Wikipédia.

Um pouco antes de Aílton, o brasileiro com mais destaque na Liga Alemã era o também centroavante Giovane Élber, do Stuttgart e do Bayern de Munique, até a alguns anos o maior goleador estrangeiro da história do campeonato teutônico. Foi superado pelo peruano Cláudio Pizarro que ainda hoje, aos trinta e nove anos, segue ativo e cuja convocação para a seleção de seu país, que depois de trinta e seis anos voltará à Copa, é defendida por muitos compatriotas. Logo depois de sair do Bayern, atuando pelo Lyon contra o time em que foi ídolo, na Arena de Munique, Élber foi saudado pela torcida local ao ser substituído, mesmo tendo marcado o gol da vitória dos visitantes.

Aílton e Élber não são exceção, não foram os pioneiros. O primeiro de quem me lembro de ter ido atuar na Alemanha é Tita, meia que se destacou no Flamengo do final dos anos 1970, e que foi campeão da Libertadores pelo Grêmio em 1983. Suponho que ele tenha sido quem iniciou a presença de brasileiros no Bayer Leverkusen, time que quase sempre, desde então, contou com algum dos nossos no plantel. Uma vez vi Rudi Völler, atacante campeão do mundo em 1990 e supervisor do time por vários anos – antes de ser treinador da seleção nacional em 2002 – dizer da importância dos futebolistas daqui para a equipe da indústria de produtos farmacêuticos. A lista é longa, e inclui o atacante Nando, um dos muitos Mazinhos que já tivemos, o craque Zé Roberto, os defensores Lúcio e Juan, Zé Elias e Renato Augusto, atualmente o lateral Wendell.

É a tal magia do futebol brasileiro? Em parte, talvez, uma vez que vários que daqui emigraram para povoar o futebol alemão foram ou são jogadores cuja principal função é tática, quando não predominantemente defensiva. Além dos zagueiros e do Zé-da-Fiel, já citados, Dunga e Jorginho, que depois fariam dupla de treinadores na seleção brasileira, se destacaram na Bundesliga, assim como Rafinha, há mais de uma década no Munique, em que também jogaram muito bem Dante e Luís Gustavo. Antes deles, Júlio César foi durante anos o Xerife da zaga do Borussia Dortmund.

MUNICH, GERMANY - AUGUST 01: General action during the AUDI Cup 2013 Final between FC Bayern Muenchen and Manchester City at Allianz Arena on August 1, 2013 in Munich, Germany. (Photo by Lennart Preiss/Getty Images)

Dante em ação pelo Bayern de Munique. Foto: Lennart Preiss/Getty Images.

Força, tática e técnica, sem dúvida, são requisitos muito valorizados no futebol alemão, mas a habilidade segue sendo uma fonte de recursos imprevisíveis. Élber, formado no futebol de salão do Norte do Paraná e craque, no campo, da seleção de juniores vice-campeã mundial, fez gols de todos os tipos, com seu drible curto e colocação perfeita. Grafite foi um goleador impressionante, ao ser artilheiro, pelo Wolfsburg, time da Volkswagen, da temporada 2008/2009. Houve ainda o habilidoso Lincoln, que girava o jogo do Schalke 04. E, claro, Zé Roberto, de longeva carreira, até hoje ídolo no Munique, que migrou da lateral-esquerda – terra dos craques Nílton Santos, Junior, Roberto Carlos, Marcelo, e dos ótimos Everaldo, Marco Antônio, Marinho, Wladimir, Filipe Luís – para o meio-de-campo, chegando à seleção dos melhores do Mundial de 2010.

O fato é que há brasileiros de todas as posições jogando na Alemanha, com exceção de goleiros, não mais apenas atacantes ou meias habilidosos. O futebol brasileiro parece ser hoje mais completo e globalizado, com funções múltiplas sendo exercidas pelo mesmo futebolista. Renato Augusto disse certa vez que a exigência de acompanhar o lateral adversário, de ser responsável pelo um x um (Zweikampf) só se deu no Leverkusen. Segundo ele, que vinha de ser o camisa 10 do Flamengo (convenhamos, não é pouco), marcar era, até então, para os outros.

Em 2013, assisti a um Mainz 05 x Wolfsburg. Diego, Josué e Naldo jogavam pela equipe verde. Meia-atacante, volante e zagueiro brasileiros, todos com boa história na Bundesliga, principalmente o último, autor, aliás, de um belo gol de cabeça depois de escanteio cobrado pelo ex Menino da Vila. Três brasileiros jogando, cada um, em regiões distintas do campo de futebol em um mesmo jogo.

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Diego e Naldo em comemoração do título da Copa da Alemanha (DFB-Pokal), 2009. Foto: Benjamin Radzun.

Jogo bonito, diz um grafite enorme no centro da cidade de Berlim, em que se mostra jogadores brasileiros em ação. Os recortes de jornal na porta da sala do Professor Emérito mostravam um pouco dessa utopia que os povos do Norte modernamente buscam no Sul. Eram também como que uma defesa contra análises que desprezam a experiência social concreta, aquela da qual o futebol faz parte. Özil era o craque que fazia o time jogar, alemão de ascendência turca. Aílton representava o toque sul-americano, brasileiro, a definir os gols.

O futebol desde muito é tático e técnico, físico, inclusive no Brasil. Isso não o faz distópico, ao contrário. É o que potencializa sua fantasia.

Paúba, Litoral Norte de São Paulo, janeiro de 2018.