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Jornalistas esportivas e a etiqueta da neutralidade

Leonardo Turchi Pacheco

Em uma pesquisa, que está em fase de desenvolvimento no PPGIEL/EEFFTO/UFMG[1] e tem como objeto as mulheres no campo do jornalismo esportivo em Minas Gerais, me deparei com uma dificuldade inusitada. Ao acompanhar as fotógrafas nos Estádios e entrevistar repórteres, apresentadoras, radialistas e assessoras de imprensa, percebi uma resistência para que elas revelassem o time pro qual torcem: o time de coração. A resposta para essa pergunta era marcada, na maioria das vezes, por um sorriso contido acompanhado pelo silêncio. Eu me sentia como se estivesse adentrando em águas turvas delimitadas por intimidades que deveriam ser mantidas no mais completo segredo.

Ora, todas elas afirmavam que possuíam um time do coração. Todas elas narravam uma paixão pelo futebol e por alguma agremiação nesse esporte. Então, por que eram poucas as que revelam o nome dessa paixão, esse segredo, sem nenhum constrangimento? Curioso com essas questões do silencio e do segredo decidi abordá-las e explorá-las nas entrevistas.

Faço dessa oportunidade, mesmo que de forma preliminar, um momento para refletir sobre os motivos que me foram relatados pelas jornalistas esportivas para não se expressarem em relação à paixão clubística. Os motivos pelos quais elas se mantêm em um comportamento e em uma posição de neutralidade quando estão profissionalmente envolvidas com o futebol. Esses motivos que se ligam a um determinado comportamento e posição analítica, que por hora carece de maiores explorações, se oferecem como uma pista de uma noção que identifiquei como sendo uma etiqueta da neutralidade.

Pois bem, um dos motivos enumerados para manter a neutralidade está associado com o controle das emoções como elemento primordial para se construir uma etiqueta da atuação profissional. Se nos espaços privados há mais possibilidades de dissipar-se do autocontrole emocional e se posicionar a favor de uma ou outra agremiação, isso não acontece nos espaços públicos e na esfera profissional. Nesses momentos o autocontrole das emoções, e consequentemente a aparência da neutralidade, faz-se necessário para que a autoridade das analises sobre o jogo seja legitimada. Sem esse aprisionamento da paixão pela neutralidade os comentários são percebidos pelos torcedores como enviesados e, portanto são deslegitimados. Portanto, perdem a credibilidade e a autoridade.

Portanto, esse comportamento que denominei etiqueta da neutralidade revela uma estratégia para conquistar e manter a autoridade, a posição social e o prestigio da função desempenhada tanto entre os pares como entre os torcedores. Tudo se passa como se a aparência de neutralidade nas análises e nos comentários refletisse uma posição de neutralidade perante a percepção dos torcedores. Como afirma Roger Chartier, em outro contexto de análise, ao prefaciar a Sociedade de Corte de Norbert Elias: “[…] o ser social do indivíduo é totalmente identificado com a representação que lhe é dada por ele próprio ou pelos outros. A “realidade” de uma posição social aí é apenas o que a opinião julga o que ela é […]” (2001, p. 20-21).

Coletiva de imprensa do Atlético Mineiro por Cristiane Mattos

Coletiva de imprensa do Atlético Mineiro. Foto: Cristiane Mattos.

Essa passagem pode nos ajudar a pensar que para ser (neutro) é necessário parecer ser de maneira convincente para si mesmo e para o olhar do outro, seu interlocutor. Mas, isso não é tudo, a etiqueta da neutralidade evita, como diria Goffman (1985), a “perda da face” e permite a “manutenção da fachada” de comentarista isento confiável, plausível e comedido na sua representação do eu pela audiência[2]. Nesse sentido, esse ou essa profissional adquire maior credibilidade e respeito no campo do jornalismo esportivo.

Certamente há programas esportivos que ao serem pautados pela dinâmica da comicidade oferecem aos jornalistas, ex-jogadores e torcedores proeminentes a possibilidade de defenderem apaixonadamente o seu clube de preferência. Como nesses programas a tônica dos debates e discussões é marcada pela ironia, pela jocosidade e pelo deboche, a ausência de autocontrole e os posicionamentos enviesados não são percebidos como falta de credibilidade e, portanto não há uma ameaça de deslegitimação e perda de autoridade jornalística pelos torcedores.

Esse é o caso do programa “Jogo Aberto” do canal de televisão Band. O próprio titulo do programa faz uma dupla alusão: do dispositivo de se jogar no ataque, e consequentemente ser combativo com as ideias defendidas, e da clareza das posições do “staff” do programa. Outro programa esportivo que utiliza da mesma dinâmica de rivalidade permeada por deboches é o Alterosa Esporte da TV Alterosa, filial do SBT em Minas Gerais. Nele as três equipes da capital mineira são representadas cada qual por um representante em uma bancada denominada de democrática. Em outras ocasiões, como nas transmissões pelo rádio, é muito comum os narradores serem representantes de uma equipe particular. Assim, ainda que com grau de moderação maior do que os programas mencionados, a livre expressão da emoção clubistica é permitida sem perda de credibilidade.

Outro motivo associado à etiqueta da neutralidade se revela pela pouca diversidade e opção de trabalho. Isso faz com que as jornalistas de Minas Gerais circulem durante a sua carreira pelas três principais equipes do Estado, desempenhando funções como assessoras, como repórteres e setoristas, entre outras. Esse trânsito entre as equipes, associado ao autocontrole e a autodisciplina na manutenção da fachada contribuem para o arrefecimento das emoções e pertencimentos relacionados ao clube de futebol. Ouvi várias narrativas que indicavam que a maior visibilidade na carreira possibilitada pelo sucesso do clube em que as jornalistas trabalhavam ou cobriam fazia com que elas torcessem por ele, mesmo sendo este o arquirrival do time de coração. Creio que nessas ocasiões elas operam através de uma lógica que combina cálculos de racionalidade e pragmatismo. Assim, se o time que se trabalha está indo bem nas competições, certamente a quantidade de informação produzida será maior, assim como a visibilidade da cobertura será melhor o que culmina em maiores perspectivas de sucesso na carreira.

Por outro lado, há sempre o perigo de se associar a imagem pessoal ao clube que se trabalha ou se cobre. Isso é perigoso na medida em que as portas se fecham para jornais, emissoras de televisão e de rádio que tem por politica editorial a neutralidade. Parecer ser identificado com uma equipe qualquer dificulta a contratação da profissional. Percebe-se nesse sentido um sistema de inclusão e de exclusão do campo profissional mediante uma vigilância da associação de um profissional com uma agremiação o que deporia contra a etiqueta de neutralidade de determinado indivíduo.

Por fim, associada à etiqueta de neutralidade está o medo da violência resultante da paixão torcedora. As narrativas dão conta de jornalistas que foram perseguidas e agredidas por torcedores que suspeitavam de sua preferência, real ou imaginada, por algum clube. Não mencionar o clube pelo qual se torce apresenta-se como uma estratégia para evitar o risco de violências por parte de torcedores. Um medo sempre presente nas narrativas das jornalistas.

Creio que esses relatos estabelecem uma fronteira entre a lógica do profissional que trabalha com o futebol e a condição de torcedor. Tudo se passa como se de um lado da fronteira estivesse assentado o autocontrole das emoções do jornalista esportivo orientando seu olhar critico e imparcial, sua etiqueta de neutralidade e do outro estivesse às emoções sem controle, expressas de maneiras exacerbadas, orientadas por um olhar distorcido e enviesado pelos torcedores sobre o mesmo jogo.

Referências
CHARTIER, Roger. Prefácio. In: ELIAS, Norbert. A Sociedade de corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2001.

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1985.

1 – Utilizo o termo jornalistas esportivas indeterminadamente para me referir ás profissões da área de comunicação social que trabalham com esporte. Nesse sentido incluo indistintamente no mesmo campo as apresentadoras, as repórteres de campo, as setoristas, as redatoras, as assessoras de imprensa, as radialistas e as fotografas. Certamente no campo do jornalismo esportivo essas distinções são importantes e apontam para posições sociais relevantes. Mas creio que este não é o momento de explorar essas questões.

2 – Goffman define “fachada” como “[…] equipamento expressivo de tipo padronizado intencional ou inconscientemente empregado pelo individuo durante sua apresentação.” (1985, p. 29). Ao “perder a face”, outra noção goffmaniana, o indivíduo não consegue manter a coerência entre a aparência e a maneira como se apresenta.