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Lico, Renato Sá: craques de Santa Catarina

Alexandre Fernandez Vaz

É admirável o desempenho recente da Associação Chapecoense de Futebol, clube que já angariava simpatia de muitos torcedores de outros times, admiração que cresceu depois do trágico acidente que vitimou a maior parte do time, comissão técnica, dirigentes e jornalistas que os acompanhavam em viagem a Medellín, no ano passado[1]. Antes dessa versão da Chape, que saiu da quarta divisão nacional em 2009 para estrear na primeira em 2014, houve outra, que há quarenta anos foi campeã caterinense, desbancando os times da capital, Figueirense e Avaí, e o recém-nascido e emergente Joinville Esporte Clube (o JEC), vencedor em sua primeira participação, no ano anterior.

Na final de 1977, a Chapecoense venceu o Avaí por dois a um, em jogo disputadíssimo no Estádio Índio Condá, em Chapecó, hoje chamado de Arena Condá, com direito a gol da vitória aos quarenta e um minutos do segundo tempo. O craque do time vice-campeão era o meia-atacante pela esquerda Lico, nascido em Imbituba, litoral sul de Santa Catarina, que peregrinara por clubes catarinenses e atuara discretamente no Grêmio de Porto Alegre. Foi caçado pelos adversários em Chapecó, ou pelo menos foi isso que escutamos pelo rádio naquela tarde de domingo. No ano seguinte jogaria no JEC e logo se transferiria para o Flamengo, já aos vinte e oito anos, idade avançada para a época. Houve quem dissesse que a contratação só se concretizara porque não sabiam os dirigentes do rubro-negro carioca que Lico já se avizinhava aos trinta anos. Não acredito muito nessa história. O catarinense jogava muito bem e não por acaso foi titular do time campeão da Copa Intercontinental de 1981.

Em 1978, eu assisti ao artilheiro Nunes, vindo do Santa Cruz para brilhar no Flamengo, em ação pela seleção brasileira. O centroavante nunca foi um frequentador contumaz da equipe, mas teve lá seus momentos de brilho com a camiseta amarela. Isso foi em março de 1978, quando em escala de uma viagem rodoviária para São Paulo, fomos ao Couto Pereira, estádio do Coritiba, meu pai, meu irmão e eu, para presenciar o jogo do selecionado com um combinado dos times paranaenses. Eram comuns os amistosos preparatórios contra equipes regionais naquela época. Desta feita, visava-se o Mundial da Argentina, naquele mesmo ano, e Nunes, que substituíra Reinaldo, do Atlético Mineiro, fez o único gol da partida, já ao seu final, com a força, a calma e o oportunismo que lhe eram característicos. Para a Copa viajaram, no entanto, o atacante do Galo e Roberto Dinamite, do Vasco.

Nunes, mas também Adílio, Júnior e o craque Zico, eram os destaques daquele time mágico que foi formado aos poucos por Cláudio Coutinho e logo liderado por Paulo César Carpegiani, jovem treinador que herdou uma equipe vencedora e soube levá-la ao seu apogeu e ao primeiro título mundial de clubes depois do Santos de Pelé. Antes disso, a derrota contra o Vasco, nos pênaltis, em duas Taças Guanabara, a primeira com erro de Zico, em 1976, a segunda de Tita, no seguinte. Depois, campeonatos cariocas e brasileiros em profusão, Libertadores, Intercontinental. De 1978 a 1983, o Fla foi um time impecável.

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Lico no time do Flamengo campeão da Taça Libertadores da América de 1981. Foto: Reprodução.

Lico não participou do título brasileiro de 1980, embora já fosse jogador do Flamengo. Estava emprestado para o clube do qual saíra em direção à Gávea, o JEC. Mas, logo voltou e foi conquistando seu lugar na equipe titular, substituindo o agudo ponteiro Júlio César, que por sua habilidade na finta era chamado de Uri Geller, nome de um ilusionista israelense que supostamente entortava talheres com a força da mente. O catarinense jogava de outra forma, fechava o meio-de-campo pela esquerda, ocupava a faixa de Zico quando este atacava de maneira mais aguda (quase sempre), ou abria pela esquerda para tabelar com o craque da camisa 10, Júnior ou Nunes.

Lembro-me de ver o catarinense tomando seu lugar no campo para o início do jogo do Flamengo contra o Liverpool, no Japão, em 1981. Flamengo campeão, três a zero, desempenho incrível, Zico no comando, Nunes artilheiro. Lico presente, titular. Sentimos um pouco de nós do outro lado do mundo, naquela madrugada de sábado para domingo.

No mesmo Avaí derrotado pela Chape no Índio Condá em 1977 estava outro jogador que faria história não apenas em Santa Catarina. Sem chegar a alcançar o cartel de títulos de seu conterrâneo – pudera, já que jogar naquele Flamengo de Zico era sinônimo de faixa no peito – Renato Sá também foi um meia-atacante com eventual lugar na ponta-esquerda. Menos definidor e mais armador que Lico, do Leão da Ilha foi jogar no Grêmio, onde deu o passe final para Baltazar fazer o gol da vitória contra o São Paulo, selando a vitória no Campeonato Brasileiro de 1983. O centroavante, aliás, brilhara no Galo na era pós Reinaldo e depois faria sucesso no Atlético de Madri.

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Torcedora ouve o jogo no rádio no estádio Ressacada. Foto: Max Rocha/Ludens.

Mas Renato Sá, que deixara o futebol de salão para treinar no Avaí quando o estádio do time ainda era o Adolfo Konder, onde hoje fica o Shopping Beira-mar, em Florianópolis, deixou outra marca definitiva no tricolor gaúcho. Em 1979, o Botafogo fazia grande campanha, liderado pelo craque Paulo Cézar Lima, em nova passagem pelo clube em que se profissionalizara e jogara uma barbaridade entre 1967 e 1972. Invicto havia cinquenta e dois jogos, o Botafogo teve sua invencibilidade interrompida pelo Grêmio, vitorioso três a zero no Maracanã, em julho de 1978. Dois dos gols foram de Renato Sá.

No ano seguinte, eis que o catarinense está em campo em partida contra o forte Flamengo de Zico, que fazia história, mas envergando a camiseta 11 do Botafogo. O time da Gávea tentava chegar ao quinquagésimo-terceiro jogo sem derrotas, mas foi vencido em um a zero pelo então detentor único da marca. Gol de quem? Sim, dele mesmo, Renato Sá.

Depois de mais algum tempo no campo, ele ainda voltaria a brilhar no esporte de quadra, no final dos anos 1980, em Florianópolis.

Vi a ambos, Lico e Renato Sá, brilharem no Adolfo Konder e no Orlando Scarpelli, em derbies locais. Depois, a televisão e a Revista Placar me permitiram seguir suas carreiras. O discreto futebol de Santa Catarina viu alguns dos seus brilharem fora de casa. Merecem respeito.

Ilha de Santa Catarina, novembro de 2017.

 

[1] Sobre o momento do acidente, vale a leitura de Uma manhã qualquer, de Sérgio Settani Giglio, publicado à quente aqui mesmo no Ludopédio: http://www.ludopedio.com.br/arquibancada/uma-manha-qualquer/