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A lealdade dos minicraques

Leandro Marçal

Por muito tempo, não me conformei com a perda daquele pen drive. Pequeno no tamanho, gigante no valor sentimental. Paguei caro na época, precisava de muita memória. Era meu arquivo de textos, histórico profissional, fotos e vídeos. Não sei até quando as tecnologias atuais vão sobreviver, sinto falta dos antigos álbuns como os de casamentos e batizados, então optei por salvar tudo em um pequeno triângulo com as cores do meu time para espetar nos computadores e registrar o tempo.

Nada de selfies ou retratos de comida. Mas os momentos que vou me lembrar quando mais velho precisavam ser resgatados. E numa dessas mudanças, caixas de papelão e poeira enquanto as paredes são furadas para o suporte de prateleiras, painéis e móveis que nos consomem, o pen drive sumiu.

Tudo o que produzi no jornal se resumia a histórias. Não haveria mais como provar. As viagens com a família, as ex-namoradas que apaguei das redes sociais, os contratos assinados e guardados como segurança para eventuais processos. O pen drive ganhara vida própria e me abandonou como um cão maltratado. Meu martírio pelo seu sumiço era maior do que pela morte de alguns parentes.

Prometi na virada do ano não ser mais tão esquecido. Tampouco passaria aperto por juntar dinheiro desde o começo do ano com a missão de completar o álbum da Copa. Nenhum pecado de velhos tempos me faria pagar penitências ao longo dos meses. Nessa vida nova, resolvi limpar o quarto e me livrar da poeira.

Afinal, preciso deixar as portas abertas e um cheiro de desinfetante na casa para a visita da Copa no meio do ano. Assim mesmo, “a Copa”, só para os mais íntimos. Olhei para cima e decidi que a solitária caixa de sapatos sobre o guarda-roupas seria descartada. Pois se o lugar dos pisantes é cobrindo os pés, não há motivos para acumular pó em um papelão retangular.

Puxei-a e ouvi um barulho semelhante ao de peças de xadrez. Eram os minicraques. Caramba, já se passaram 20 anos da minha primeira Copa. Naquela velha casa, sem entender a incredulidade dos vizinhos, esfriando o churrasco a cada gol sofrido na final.

Eles nunca mais voltarão à caixa. Foto: Mercado Livre.

Eles nunca mais voltarão à caixa. Foto: Mercado Livre.

Ganhei esses pequenos bonecos de uma prima distante, que há muito não vejo. Ela trabalhava em uma das fábricas do refrigerante mais famoso. Tomou como missão me ajudar a completar a coleção de jogadores e a preencher meu primeiro álbum da Copa.

Alguns minicraques eram estranhos. Houve os que sequer tocaram em solo francês nos dias insanos. Dunga, Ronaldo e Romário ainda dividem o mesmo suporte verde com uma bola dourada aos pés do dentuço. O primeiro virou técnico odiado, o segundo convulsionou, o último chorou pelo corte 20 anos antes de vestir ternos e fazer discursos.

Eles mereciam um lugar melhor que a caixa abafada. À frente da TV, próximos ao conjunto de souvenires comprados por poucas moedas ao longo das viagens de trabalho.

Curioso foi perceber uma cor vermelha estranha aos jogadores paralisados. Um brilho tocou minhas retinas e redescobri o chaveiro com meu pen drive perdido. Há quatro anos a Copa acabava e eu o guardei ao lado dos donos da bola. Na mesma caixa cheirando a mofo.

Foi despertar os minicraques para eles refrescarem minha memória. Toma aí o pen drive e nunca mais nos coloque de volta naquele monte de papelão, devem ter pensado. Pude rememorar todas as lembranças dos arquivos que não foram perdidos. E que nunca serão.

Um banho de desinfetante e o lugar no móvel. Os mega, giga e terabytes não são capazes de armazenar sentimentos. Eles esperam, parados, os dias de jogos na Rússia. E eu invejo o sorriso constante dos minicraques.