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Mundialito 1980: futebol, esperanças, uma derrota bem jogada

Alexandre Fernandez Vaz

A estação mais quente de 1979/1980 foi chamada de Verão da Anistia. Pudera, a Lei que se dizia “ampla, geral e irrestrita” entrara em vigor em setembro, possibilitando a volta dos exilados e a progressiva libertação de presos políticos nos cárceres brasileiros. O primeiro regresso foi de Dulce Maia, tia de uma amiga de juventude, militante armada e guerrilheira da cultura e ecologia, cuja prática do corpo livre na Praia Mole, na Florianópolis dos anos 1980, entrou para a história local.

Fernando Gabeira, por sua vez, desembarcou no Galeão junto com o time do Flamengo no último dia de agosto de 1979, sendo carregado por seus admiradores junto à taça que os rubro-negros traziam de viagem. Fora do Brasil havia dez anos, o verão em Ipanema o viu desfilar em trajes femininos emprestados de sua prima, a jornalista Leda Nagle, escandalizando os conservadores e anunciando o corpo como território de disputas e de afirmação políticas.

Apesar do calor e da presença de tantos e tantas que há muito não se via pelo Brasil, e da retomada de aspectos da ordem democrática – como a fundação do Partido dos Trabalhadores, em fevereiro de 1980, na esteira das grandes greves do ABC em anos anteriores –, o mar não estava para peixe, a ditadura civil-militar seguia, com a bizarra figura de João Figueiredo no comando.

No Uruguai, nos últimos dias daquele ano – em novo verão no Hemisfério Sul, tão escaldante quanto o anterior –, começava o Torneio Mundialito, comemoração dos cinquenta anos da primeira Copa do Mundo, no mesmo país, e dos trinta anos da vitória da seleção dos vizinhos sobre o time brasileiro, em pleno Maracanã, em 1950. A contenda deveria reunir os seis campeões mundiais de então, em jogos no intervalo do calendário europeu. Com a recusa da Inglaterra, a Holanda, vice-campeã nos dois Mundiais anteriores, foi convidada. Alemanha Ocidental, Argentina, Brasil, Itália e Uruguai completavam os participantes, divididos em dois grupos triangulares.

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Acervo Futbox.com

1980 começou com futebol, para nós algo intempestivo, acostumados com as férias de janeiro que também pausavam os campeonatos. Havia a Copa São Paulo de Futebol Juvenil, com restrita cobertura da imprensa, e as longas reportagens da Placar sobre futebol europeu. O futebol ao qual estávamos acostumados, esse não. Foi, portanto, divertido ver a seleção brasileira, pela televisão, à beira-mar. Em campo, o Brasil ficou em primeiro em seu grupo, empatando com o time argentino campeão do mundo, mas no qual já brilhava Diego Maradona, ausente em 1978, e goleando a Alemanha. A final seria contra os anfitriões.

Naquele verão de tantas descobertas, uma delas foi a de que a seleção de futebol não era invencível, mesmo jogando bem. Até então eu lera e ouvira que o Brasil, em condições normais, não perdia. Contra a Alemanha Ocidental, então campeã do mundo, no Maracanã, em 1977, o amistoso duríssimo terminara empatado, com gol de Roberto Rivelino no final da partida. Parecia o teste de fogo. No ano seguinte, a Copa seria perdida, mas o time permanecera invicto. Contra o Uruguai, em 1976, o Brasil vencera, em jogo também no maior estádio do mundo, que terminou em pancadaria, com o mesmo Rivelino sendo perseguido por Sergio Ramírez. Bom jogador, Ramírez jogaria no Flamengo e hoje trabalha como técnico no simpático Guarani de Palhoça, município vizinho a Florianópolis.

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O goleiro Rodolfo Rodríguez ergue a taça de campeão. Foto: El Gráfico.

Mas o Brasil perderia, sim, para o Uruguai, na final do Mundialito. Foi derrotado na bola – e não apenas na raça, tampouco com violência – pela forte equipe charrua, na qual brilhavam Rodolfo Rodriguez (goleiraço de Santos, Portuguesa e Bahia, campeoníssimo pelo Nacional de Montevidéu), Hugo De León (capitão do Grêmio campeão da Libertadores e do Mundial Interclubes, igualmente com o Nacional, de Montevidéu), Ruben Paz e Victorino, entre tantos. Em jogo disputadíssimo, os craques brasileiros que brilhariam sem título em 1982 resistiram, tiveram um gol anulado por impedimento, mas finalmente não puderam superar os vizinhos do Sul. Cerezo, Júnior, Sócrates, voltaram derrotados, apesar do bom futebol e da expressiva campanha.

O Uruguai foi o primeiro país estrangeiro que eu visitei. Para encontrar tios e primos canadenses que lá viviam temporariamente, meus pais me providenciaram uma carteira de identidade, aos cinco anos, documento que me acompanhou por muitos anos. Lembro-me pouco daqueles dias, obviamente: de um cavalo que minha prima montava, do frio das férias de julho, dos muitos militares e das manifestações civis nas ruas. Um golpe militar se aproximava, embora eu nada soubesse disso.

A organização do Mundialito não se afasta desse quadro de tensão social. No momento de sua realização, no Uruguai havia – como no Brasil, na Argentina, no Chile e no Paraguai – uma ditadura e os militares que a comandavam programaram o torneio como uma celebração do resultado positivo que esperavam obter em um plebiscito. Este visava uma manobra constitucional que os perpetuaria no poder. As pesquisas de intenção de voto davam-lhes a vitória, mas, finalmente, não foi isso que aconteceu, fazendo com que o torneio tivesse um espírito distinto daquele para o qual fora previsto. Os militares perderam nas urnas, a democracia venceu e aos poucos se consolidou no país em que a experiência republicana é talvez a mais avançada da América do Sul.

Na metade dos anos 1980 muitos uruguaios exilados no Brasil viajaram para as eleições no seu país, entre eles, um amigo, dono de uma lanchonete. A cada 11 de setembro ele colocava um pequeno cartaz sobre o balcão de seu negócio, lembrando o golpe militar que derrubara o socialista Salvador Allende no Chile.

Temos muito o que aprender com o Uruguai.

Ilha de Santa Catarina, outubro de 2017.