101.7

Muro de estádio

Leandro Marçal

Fiquei para trás numa dessas corridas anti-infarto. Sedentário urbano, tento enganar meu corpo e fingir uma vida minimamente saudável. O impacto no solo sentido pelos joelhos a cada passada é a garantia de mais cerveja no fim de semana e ao fim do expediente diário.

Três pessoas me acompanhavam e mal conseguiam respirar. Nem se deram conta dos meus passos rareando quando me deparei com o muro lateral do estádio, uma dessas coisas inexplicavelmente fascinantes e sem sentido para os outros. Não havia jogo de futebol profissional do outro lado, apenas uma criança e seus pais parados ali, encarando um monte de concreto e me convencendo involuntariamente a lhes fazer companhia.

Porque não importam as cores ou o tamanho do monumento da bola, suas altas paredes falam sem emitir sons ou barrando boa parte deles, vindos lá de dentro quando há canelas se quebrando à procura do gol. Sua função é nos mostrar que há um templo sagrado para uns e desprezado por outros a poucos metros de nós, como as cruzes no topo de construções nababescas e isentas de impostos. O futebol copia a vida nas injustiças e nas crenças raivosas também.

Muro de estádio é diferente, em nada se assemelha aos tantos que dividem seres humanos como os da parte de cima do globo terrestre. Quando passo em frente a um deles, meus olhos hipnotizados tentam captar um pouquinho que seja do gramado, num daqueles jogos mentais estranhos, nos quais ganhamos e perdemos simultaneamente de nós mesmos.

Em menor proporção, o mesmo acontece diante de quadras de futsal ou de futebol society. Os gritos e barulhos de chutes me fazem distrair automática, involuntária e imediatamente do que estiver fazendo para olhar ali, um instantinho apenas.

Pode até ser que algum terapeuta consiga explicar essa fixação de tanto tempo. Mas é uma bobagem buscar uma solução para o que nem é um problema, ainda que me atrase um pouco nas corridas com uma desculpa na ponta da língua, pois a paixão pelo muro de estádio nunca será convincente.

O pai, ali parado, explicava para o filho que não havia jogo àquela hora e olhava para mim como quem busca uma ajuda para contar uma história das partidas ali disputadas e títulos conquistados. A mãe olhava o celular e nem dava bola para nada.

– Você não diz que entende tudo de futebol? Agora se vira – ria docemente.

muroestadio

Muro de estádio. Foto: Prefeitura de Três Lagoas/Divulgação.

Tive vontade de dizer ao pequeno que não haveria graça se não construíssem os muros. Se por algum decreto eles fossem derrubados, meu caro, o futebol perderia completamente a graça. É esse monte de tijolos amontoados e cercando o coliseu da bola que nos faz ter vontade de ir lá dentro ver o que acontece. Ou pelo menos brilhar as pupilas quando se encontram com o gramado, que certamente vai ser tema de alguma conversa sobre sua altura ou qualidade antes dos jogos. Preferi o silêncio dos momentos ímpares.

Nossa despedida foi com um sorriso cúmplice entre adultos e um afago nos cabelos sobre olhos desconfiados de quem perguntava à mãe quando eles iam ver seu time em campo. Ela respondeu que ia demorar, pois era mais barato ele escolher um time daqui, brasileiro que era.

Naqueles poucos segundos, tive alguma esperança no futuro, fraquejada quando percebi termos perdido mais um torcedor mirim para outra equipe milionária e europeia. Ele teria muito a aprender com um muro de estádio meio velho, mas nosso.

Ouvi meu nome e voltei a correr. Demorei uma eternidade para alcançar meu grupo de gente suada, cansada e com vontade de chegar logo à cozinha de casa para comer algum alimento gorduroso e botar todo aquele esforço por água abaixo. Disse apenas que parei para amarrar o cadarço. Passamos em frente a um campo de várzea e uma quadra de escola. Me distraí antes da despedida.

Cumprimentei o porteiro e percebi que o muro do estádio não é maior que o do meu prédio. Moro e sou cúmplice de uma divisão estranha, parece que algo não deu certo. Na próxima corrida vou percorrer outro caminho.