98.10

Não vim aqui só pra te ver campeão, eu vim aqui porque eu te amo!

Gustavo Cerqueira Guimarães

[…] Habituei-me a uma paisagem confinada e a um horizonte quase doméstico. No seu âmbito poucas são as imagens do presente, e muitas as do passado. E se tal vida é melancólica, trata-se de uma sorte de melancolia a que meu espírito se adaptou e que, portanto, não desperta novas reações. A variação violenta dos quadros, numa noite de carnaval em que fomos abandonados pelos amigos e em que nossa porção de espaço foi invadida por outros seres, leva-nos a um mergulho mais profundo nos nossos abismos. Novas melancolias são despertadas, o homem sofre, e o amanuense põe a alma no papel.

O amanuense Belmiro, Cyro dos Anjos.

 

Ele gosta muito de ler crônicas que dramatizam outras nuanças da vida além do próprio jogo de futebol, textos que trazem personagens mais descolados da “realidade”. Quando se cria um personagem, no final das contas, no ato da leitura ele se funda, ele se torna real e passa a existir, costuma pensar o nosso professor aposentado de educação física. Hoje, um diletante do futebol e da literatura que versa sobre ele.

Todos o chamam de Miro, redução de Belmiro, nome dado por sua mãe em homenagem ao seu tio-avô, um amanuense a serviço do Estado, típico burocrata, porém grande escritor de diários na década de 1930 e 1940, em Belo Horizonte. Ele não o conheceu pessoalmente, mas alguns desses diários sobejaram em suas mãos e sempre os lê frequentemente, procurando respostas para sua existência (ou mesmo perguntas), quase um oráculo.

Miro conserva alguns dos hábitos do tio, como ler o jornal todos os dias, andar a pé pela cidade, frequentar festas populares e ir ao futebol, além de igualmente escrever seu diário, secretamente. “Tomo o café. Leio o Minas. Lá fora, na cidade, a manhã deve estar alegre e o parque cheio de gente. Veio-me a ideia de sair um pouco, para espairecer. Depois, à tarde, talvez o futebol. Os jornais anunciam um encontro sensacional” – transcreveu a lápis esse trecho de um domingo qualquer do diário do tio, conferindo ao passado aspectos cotidianos e, em contrapartida, fala do presente a partir de formas pretéritas.

Miro herdou a pequena casa do tio Belmiro, localizada à Rua Erê, no Prado, na zona oeste da cidade. Todo mês, ele paga meio salário mínimo para uma prima de quinto grau e estão quites. Belmiro foi um solteirão convicto, não teve filhos. E como se contraísse uma dívida com o tio, como se tivesse sempre que lhe agradecer, Miro procura também mimetizar certo temperamento melancólico de seu antepassado, expresso com força em seus escritos líricos, nostálgicos. Assim, mantém sua memória viva pela casa. Miro mora sozinho, Belmiro dividia a casa com duas irmãs, Francisquinha e Emília. Ambas, como sempre disseram parte da família, eram de “outro mundo”. Chiquinha morreu primeiro e a outra se foi dois anos depois.

“Tia Emília, dizem, enlouqueceu de vez no dia em que o Atlético ganhou a Copa dos Campeões, enfiando 5 a 1, de virada, no Rio Branco do Espírito Santo, com gols do Guará, o “Perigo Louro”, craque do time, Bazzoni, Nicola e dois do Paulista”, Miro, aos goles, costuma recontar essa história ao amigo Silviano, como se parte sua também estivesse presente no Estadinho de Lourdes naquela quarta-feira, dia 03 de fevereiro de 1937. Segundo o Jornal dos Sports, “o Athletico levantou o título do primeiro certame entre clubes campeões regionais que a Federação Brasileira de Football instituiu para o corrente ano”, escreveu Belmiro em seu diário.

Time do Atlético Mineiro, campeão da Copa dos Campeões, em 1937.

Time do Atlético Mineiro, campeão da Copa dos Campeões, em 1937.

À época, houve muito barulho pela cidade, muitos fogos. A festa foi muito grande pela cidade, cuja população girava em torno de duzentos mil habitantes. O título ocorreu às vésperas do Carnaval e, muito eufóricos, os atleticanos emendaram de vez na folia ao cantar inúmeras vezes o último sucesso de Francisco Alves, “Favela oi, favela / favela que trago no meu coração / ao recordar com saudade / a minha felicidade / favela dos sonhos de amor / e do samba-canção // Minha favela querida / onde eu senti minha vida / presa a um romance de amor / numa doce ilusão / em uma saudade bem rara / na distância que nos separa / eu guardo de ti esta recordação”.

  

Quarta-feira, 19 de agosto de 2017

[…] Este caderno, onde alinho episódios, impressões, sentimentos e vagas ideias, tornou-se, a meus olhos, a própria vida, tanto se acha embebido de tudo o que de mim provém e constitui a parte mais íntima de minha substância.

O amanuense Belmiro, Cyro dos Anjos.

Hoje à noite, Miro vai ao jogo do Atlético pelas quartas de final da Copa Libertadores. Para seguir na competição, é preciso, ao menos, ganhar do Jorge Wilstermann pelo placar mínimo para igualar o marcador da partida de ida no altiplano boliviano (e disputar os pênaltis). A torcida anda meio tensa, pois o time não vem obtendo bons resultados nos últimos jogos do Brasileirão, figurando mais perto da zona de rebaixamento para a série B do que da classificatória para a Libertadores, além de ter sido eliminado da Copa do Brasil pelo Botafogo, que, ao lado do Goiás, tornou-se o maior algoz dos alvinegros mineiros nessa competição. Mesmo assim, como sempre se espera, o público no Mineirão será gigante, cerca de quarenta mil torcedores já garantiram presença.

São quase 17h, Miro está indo ao centro da cidade para adquirir o bilhete. Dia de jogo do Galo é sempre um dia diferente, com rituais próprios. Depois, pretende passar na casa de Silviano, jantar e seguir a sós pra Pampulha. Está contente por poder presenciar mais um jogo importante do seu time (e isso basta), independente do resultado. Afinal, não vai ao campo só pra vê-lo ser campeão.

Miro também frequenta alguns jogos do América no Independência e costuma dizer que não é anticruzeirense, pois às vezes se priva com amigos torcedores celestes para assistir aos jogos da Raposa. Ser atleticano é só mais um componente de sua identidade, não é tudo. Ele fica muito alegre quando o seu time ganha, mas a tristeza não é proporcional quando se dá o revés. Ele tem muitas preocupações na vida. Gosta de tratar o jogo de maneira lúdica, sem com isso diminuir sua importância.

O nosso professor não é torcedor de sofá. Quando não vai ao estádio, prefere ouvir o jogo pelo rádio, momento em que também lê, cozinha ou caminha. O Atlético concentra e comunica muitas coisas que lhe interessam. Gosta de todos os rituais que envolvem o espetáculo. Gosta de ver as pessoas bebendo ao se deslocarem em direção ao estádio – ele sempre vai de ônibus. Gosta dos cânticos e gritos dos torcedores, Miro muitas vezes chora ao cantar o hino. Gosta da Charanga do Galo, dos fogos de artifício, do aquecimento dos jogadores e do feijão-tropeiro ao redor do estádio. Gosta das inesgotáveis narrativas produzidas a cada confronto – das motivações. Gosta da multidão, pois sempre parece estar numa espécie de transe. E, sobretudo, ele gosta das jogadas que se constroem na mesma medida em que vão se desconstruindo para se fixarem na memória, como aquele pênalti defendido por São Victor na Libertadores de 2013. Ali, sem saber exatamente o que, mudou algo em sua vida.  Na verdade, suas recordações, como as do tio, transformam-se em romance, e os fatos, logo consumados, ganham outro contorno, são acrescidos de mil acessórios. Romance trágico, cômico, disparatado, conforme cada um de nós, monstros imaginativos.

Miro gosta tanto de futebol que sempre o praticou e o ensinou em suas aulas de educação física no ensino fundamental. O esporte é o seu ganha-pão, inseparável de sua existência. Um dia, ele reproduziu em seus diários, a seguinte passagem dos cadernos íntimos do tio: “Os dias de festa coletiva [futebol, no caso], introduzindo o elemento multidão na minha esfera e propondo-me novos espetáculos ou novas sugestões, interrompem o equilíbrio do meu pequeno mundo e nele vem produzir desnivelamentos que suscitam mais fundos movimentos interiores”. Miro até se enfeitiça pelo futebol, mas não é o seu ópio, não basta. Miro não projeta todas as suas desgraças nele, cria outros espaços com o intuito de construir outras metáforas, muito além (aquém) das automatizadas e maliciosas narrativas diárias que giram em torno desse jogo.

Enfim, ele não chega a ser um boleiro, mas entende do riscado, gosta das táticas, gosta de falar sobre futebol, gosta do instante extraordinário do gol, celebrado, por vezes, com um sorriso discreto, uma expiração. O futebol ajuda, mas não esconde todas as suas adversidades, as mazelas sociais.

Imagem: PeDRa LeTRa.

Imagem: PeDRa LeTRa.

Descendo ainda a rua da Bahia, ele para e escreve em seu caderno: “O Atlético Mineiro é minha única certeza, ele não morre antes de mim”. Ele caminha. Ele chora. Ele para de andar. Ele escrever. Ele caminha para a morte com a plena consciência disso. Ele caminha. Ele caminha só, mas com o profundo desejo e disposição para se irmanar. Explora geografias. Explora seu corpo, de fato, sua única morada. De súbito, ele vê uma criança parada a mirá-lo. Os dois estão com a camisa do Atlético. Ele se aproxima, agacha-se, toca em suas mãos. A mãe ao lado estimula a aproximação. A criança lhe dá um beijo.

Ele dá as costas para aquela criança, para aquela cena que nunca mais se repetirá. Ele segue descendo a Bahia, rumo a mais um jogo, uma festa sempre estranha. “Hoje, vamos botar pra foder, Galo!”, disse em voz alta. Caso contrário, Miro, de toda forma, terá um ganho, pois degustará a pimenta cumari-do-pará que ele mesmo preparou e deixou curtindo desde o início da Libertadores. Ao prepará-la, prometeu abrir o vidro no último jogo do Atlético na competição. Infelizmente, pode ser hoje. Futebol é assim, cheio de infortúnios, como a vida.

Hoje, provavelmente, o time entrará em campo com a potência máxima, do jeitinho que ele acredita ser a melhor formação: Victor; Marcos Rocha, Léo Silva, Gabriel e Fábio Santos; Adilson, Rafael Carioca, Elias; Cazares, Luan (Robinho) e Fred.

Ôôôôôôôôôôô-ôôô!, vai pra cima deles, Galô!