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O futebol na Catalunha independente

Victor de Leonardo Figols

A atual situação política da Catalunha é extremamente delicada. Há um referendo marcado para o dia 1º de outubro, onde a população da Catalunha irá decidir se o futuro da região será livre da Espanha ou não. Por outro lado, o governo espanhol vem reprimindo duramente qualquer movimentação a favor dessa votação. Esse separatismo catalão possuí raízes históricas profundas, e encontra lugar até mesmo no futebol.

Para entender o que se passa hoje na Catalunha é preciso voltar ao século XVIII. Após a derrota para as tropas bourbônicas, na Guerra de Sucessão Espanhola, em 11 de setembro de 1714, a Coroa de Aragão, a qual a Catalunha fazia parte, foi anexada em definitivo à Coroa de Castela. Com anexação, rapidamente, a Coroa de Castela iniciou um processo que visava à substituição da língua catalã pelo castelhano, ou pelo latim, em toda a vida pública da região, proibindo, principalmente, o ensino da língua. Durante os séculos XVIII e XIX, a língua catalã foi fortemente reprimida, a ponto de ser predominantemente oral, e relegada aos camponeses, que viviam longe dos centros urbanos.

A Coroa de Castela procurou reprimir todos os símbolos que representasse a Catalunha, o mesmo pode ser dito para as manifestações culturais. Este quadro só começaria a mudar em meados do século XIX, com o movimento cultural conhecido como Renaixença. Entre 1833 a 1850, esse movimento literário buscou retomar a um passado glorioso da Catalunha, algumas vezes retornando a um passado medieval. Desta forma, a língua catalã passou ser usada pelos intelectuais e literatos, como uma forma de exaltação da cultura popular. Ainda que não tivesse um conteúdo político, ou mesmo separatista, o movimento foi importante para a renovação do nacionalismo catalão.

Foi apenas nas duas últimas décadas do século XIX que a língua catalã assumiu um sentido de identidade coletiva da Catalunha, deixado as academias de letras e atingindo a população de forma mais ampla. Os primeiros anos do século XX foram marcados pelo crescimento da região, assim como da cultura, e consequentemente do catalanismo.

Esse crescimento do nacionalismo catalão sofreria outra grave ruptura com a ascensão de Primo de Rivera ao poder, em uma ditadura que durou entre os anos de 1923-1930. Foi apenas durante a Segunda República Espanhola (1931-1939) que a Catalunha passou a ser reconhecida como uma região autônoma da Espanha, o que significa dizer que devido as suas particularidades históricas e culturais, a região teria autonomia legislativa e administrativa.

Todavia, com a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), e posteriormente com a ditadura de Francisco Franco (1939-1975), o catalanismo foi duramente reprimido, com a proibição do uso das línguas regionais na vida pública, além da abolição dos símbolos nacionais como hinos e bandeiras, uma vez que essas manifestações eram consideradas pela ditadura uma forma de desagregar o Estado Espanhol.

27/09/2015- Barcelona - O presidente da Catalunha, Artur Mas (centro), comemora vitória com líderes dos partidos separatistas da Catalunha neste domingo (27) em Barcelona

População de Barcelona comemora vitória com líderes dos partidos separatistas da Catalunha em 2015. Foto: Junts pel Sí.

A Catalunha foi um dos principais focos de resistência, tanto durante a Guerra Civil, quanto durante o franquismo. A região era a mais industrializada da Espanha, e a presença das ideias de esquerda (sobretudo as anarquistas e anarco-sindicalistas), canalizadas pela classe trabalhadora, encontrou lugar nas ideias separatistas, e o catalanismo ganhou, assim, um forte apelo popular.

Durante toda a ditadura franquista, o governo buscou eliminar qualquer meio em que a língua catalã poderia ser utilizada. Escola, imprensa, rádio, cinema e televisão estavam proibidos de ser em outra língua que não a castelhana. A língua catalã foi proibida em lugares públicos, mas um dos poucos lugares, se não o único, onde se podia falar o catalão sem proibição, era nos estádios de futebol.

Ao final da ditadura de Franco, a língua catalã estava extremamente enfraquecida, sem ser ensinada, sem ser veiculada nos meios de comunicação e sem nenhum reconhecimento político. Com a morte de Franco em 1975, o poder passou para as mãos do rei Juan Carlos de Borbón que conduziria a transição democrática. Com a Constituição de 1978, a Espanha passou a ser uma monarquia constitucional, com Estados autônomos, como por exemplo, Catalunha, País Basco e Galícia. Era o primeiro passo para a retomada da autonomia políticas da Catalunha, o que foi significativo para o retorno e fortalecimento tanto da língua, quanto da cultura catalã.

Enquanto Comunidades Autônomas, a Catalunha garantiu que a língua fosse ensinada nas escolas, além da criação de canais de televisão e mídia impressa exclusivamente em catalão. Do ponto de vista cultural, houve um significativo fortalecimento da cultural local, e também, do sentimento independentista.

Com uma política minimente estável, relativamente autônoma, a Catalunha se fortaleceu e se tornou a principal região da Espanha, em termos econômicos. Essa estabilidade seria afetada de forma significativa em 2008, com a crise econômica que assolou o mundo. O movimento catalanista, que estava um pouco tímido na virada do século XXI, ganhou um impulso após a crise, e passou a questionar duramente a presença da Catalunha na Espanha, tanto que em 2014 foi tentou fazer um referendo sobre a independência região. Na ocasião, o governo central impediu a região de realizar o tal referendo alegando que feria a constituição, o governo da Catalunha, por sua vez, organizou uma consulta popular como alternativa a proibição.

O resultado da consulta foi significativo, mais de 80% da população que votou escolhe que a Catalunha se tornasse um estado independente. Com o resultado, o governo catalão buscou se organizar para que o referendo fosse finalmente realizado. Em 2015, os independentistas assumiram a maioria dos cargos no governo catalão, e uma coalizão de partido a favor da independência se articulou para que algumas medidas fossem aprovadas na Catalunha que garantiria o direito de decisão da região, e concomitantemente, se discutindo por qual via seria feita a independência, tanto que um novo referendo foi marcado para o dia 1º de outubro desse ano.

Se por um lado, o movimento independentista defende que cabe apenas aos catalães decidir o futuro da região, do outro o presidente espanhol, Mariano Rajoy (do Partido Popular, de raízes franquistas) argumenta que a decisão tenha que ser tomada por toda a Espanha. Toda a discussão e articulação para o referendo de outubro vem causando uma crise política e legislativa na Espanha. Legalmente, a Catalunha pode realizar o referendo, e caso o “Sim” pela independência se confirme nas urnas, o governo regional pode declarar independência da Espanha.

Já o governo espanhol vem tentando desarticular toda a movimentação para o referendo, desde a semana passada, foram presos 14 políticos catalães que são a favor do referendo e da independência, gráficas foram invadidas e tiveram as cédulas e cartazes do referendo apreendidos pela polícia. A TV3, televisão regional da Catalunha, foi proibida de vincular propaganda que incentivavam as pessoas a votarem.  Manifestações a favor da realização da votação foram duramente reprimidas pela polícia, e pessoas foram presas com “porte ilegal” de cartazes, vassoura e cola. O medo de perder a região mais rica da Espanha vem levando o governo espanhol a suprimir os direitos democráticos.

De maneira resumida, as disputas políticas que envolvem a votação do dia 1º de outubro giram em torno da legalidade da realização do referendo. Do ponto de vista legal, o referendo tem total respaldo das leis regionais e o do princípio de autodeterminação dos povos da ONU, mas não das leis espanholas, assim, significa dizer que há uma clada disputa por soberania.

A reivindicação de um estado independente catalão remonta um passado longínquo, no qual busca uma identidade nacional catalã baseada na opressão sofrida pelos catalães. Se durante anos o governo central da Espanha vem conduzindo os rumos da história da Catalunha, chegou a hora da população da região tomar o direito legítimo de autodeterminação, e escolher o seu caminho.

Centenário do Barça (museu)

Foto do centenário do Barça disponível no Museu do clube. Foto: Victor Figols.


Mas e o futebol, como fica?

Quando se fala de futebol na Catalunha rapidamente o FC Barcelona vem a mente, muito por conta da história do clube, que em diversos momentos se confunde com a história da região. O slogn do Barça, “més que un club” (“mais que un clube”), é um exemplo disso, a frase tem uma carga de significados, que relembra o embate do clube, enquanto representante da Catalunha, contra o governo central, sobretudo contra o governo franquista. Mas como os torcedores do outro clube da cidade de Barcelona, o RCD Espanyol, gostam de dizer, “Catalunya es més que un club” (“Catalunha é mais que um clube”), isto é, a Catalunha é mais do que o FC Barcelona.

O futebol chegou na região por volta da segunda metade de século XIX, graças a circulação de um grande número de estrangeiros na cidade. Os britânicos foram os principais incentivadores a práticas do futebol na Catalunha, mas graças ao fato da região ter uma classe operária muito grande, o futebol era extremamente popular. Diversos clubes nasceram nesse contexto durante a virada do século até os anos 1930, e muitos deles ainda estão ativos até hoje.

Além dos já citados, Barcelona e Espanyol, o Girona FC está atualmente na primeira divisão da Liga Espanhola. Já o Gimnàstic de Tarragona e CF Reus estão na segunda divisão. Nas divisões inferiores do futebol profissional da Espanha, temos CF Badalona, UE Cornellà, UE Llagostera, Lleida Esportiu, CE Sabadell, UE Olot, CF Peralada, CF Gavà, Horta U.At., CE Hospitalet, AE Prat, UE Castelldefels, CF Cerdanyola del Vallès, CE Europa, UE Figueres, EC Granollers, Santboià FC, CF Palamós, CF Pobla de Mafumet, UE Sant Andreu, FC Santfeliuenc, FC Terrassa, Vilafranca FC e UE Vilassar de Mar. Alguns desses clubes são centenários e tradicionais, já tendo disputado a primeira divisão.

Com a independência da Catalunha, todos esses clubes deixariam de fazer parte das competições da Federação Espanhola. Mas com uma divisão correta das cotas televisivas, seria viável pensar em uma Liga da Catalunha competitiva, ainda que o abismo entre o FC Barcelona e os demais clubes seja imenso.

A curto e médio prazo, uma Liga da Catalunha seria fraca, mas a longo prazo, poderia competir com as ligas da Holanda, de Portugal, e talvez até da França, pensando no poder econômico da região e o quanto pode ser revertido para o futebol. Em termos de organização, a Federació Catalana de Futbol já conta com uma Copa da Catalunha, em que esses clubes menores disputam.

Pensado nas competições europeias, o Barça sem dúvida seria o principal representante do país, mas levaria algumas temporadas para conquistar uma vaga direta para a competição, o que em termo econômicos, tanto para a UEFA, que deixaria de contar com um clube de grande audiência, quanto para o clube, que deixaria de arrecadar o prêmio de competição e com marketing.

Alguns clubes poderiam receber investimentos de outros, como é o caso do Girona que tem um acordo com o Manchester City, onde jogadores são emprestados para o clube catalão. Ou como foi o caso do Sant Andreu, que teve Dinorah Santa’Ana da Silva (ex-mulher do jogador Daniel Alves) como dona até o ano passado. Poderíamos ver o fortalecimento do Club Esportiu Júpiter, um clube histórico que foi muito importante para o futebol catalão nas primeiras décadas do século XX, ou até mesmo o ressurgimento do Català FC, um clube fundado em 1899 que foi o maior rival do Barcelona até meados dos anos 1920. Além disso, o Català poderia ser o equivalente do Athletic Club de Bilbao na Catalunha, pois quando foi fundado, buscava promover o esporte local aceitando apenas jogadores catalães.

Outro fato considerável é que graças ao trabalho com a base, o FC Barcelona, revela uma quantidade considerável de jogadores catalães, alguns de altíssimo nível, isso fomentaria a formação de uma seleção nacional competitiva. Aliás, atualmente, a Seleção da Catalunha possui alguns jogadores de destaque internacional como Gerard Piqué, Jordi Alba, Cesc Fàbregas e Xavier Hernández. A Catalunha também formou o maior técnico da atualidade, Pep Guardiola e o melhor jogador do mundo de todos os tempos, Lionel Messi.

Há muita coisa para acontecer até o resultado do referendo, e caso ocorra de fato a independência da Catalunha, uma coisa é certa, não faltará futebol.

Para entender mais:
Cataluña en la encrucijada. Una perspectiva libertaria (https://www.todoporhacer.org/entrevista-catalunya/)

Polícia apreende 10 milhões de boletins de voto para referendo catalão (http://www.dn.pt/mundo/interior/policia-apreende-10-milhoes-de-boletins-de-voto-para-referendo-catalao-8785055.html?utm_source=dlvr.it&utm_medium=twitter)

El Barça condena cualquier acción contra “la democracia y el derecho a decidir” (https://elpais.com/ccaa/2017/09/20/catalunya/1505907819_005447.html?id_externo_rsoc=TW_CM)

Liga diz que Barcelona não jogará Espanhol se Catalunha aprovar independência (https://www.reporterdiario.com.br/noticia/2401615/liga-diz-que-barcelona-nao-jogara-espanhol-se-catalunha-aprovar-independencia/)