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O nascimento de uma paixão ianque

Vicente Magno Figueiredo Cardoso

Primeiras observações sobre torcedores organizados nova-iorquinos

“Against the establishment and pro NYCFC”, assim Jhonny, presidente dos Hearts of Oak, resumiu a proposta de sua torcida que há dois anos apoia o time da cidade. Os Hearts são uma das torcidas organizadas do New York City Football Club (NYCFC), única equipe da cidade de Nova Iorque presente na maior liga de futebol dos Estados Unidos, a Major League Soccer (MLS).

Os Hearts ocupam, ao lado de outros grupos, as arquibancadas populares, chamadas ‘bleachers’, do Yankee Stadium[i]. Há três anos a cidade não contava com um time de futebol na MLS. Então o City Football Group[ii], que também detém o inglês Manchester City Football Club decidiu apostar no campeonato estadunidense. Hoje, uma média 26.967 torcedores frequentam esse estádio para assistir as partidas do New York City Football Club (a terceira maior frequência da MLS)[iii].

Observar a torcida de perto e por dentro desvenda questões interessantes sobre o futebol nos Estados Unidos, onde esporte compartilha, em desvantagem, corações e consumo no país. Esse artigo se propõe a ser o primeiro passo em busca de uma pesquisa mais aprofundada sobre as questões que giram em torno do futebol no Estados Unidos, dialogando mais intimamente com o universo do torcedor deste esporte, já que entende-se que o ato de torcer traz incluído nele como são expressos dramas cotidianos e contradições vividas no dia a dia. (GEERTZ, 1989; BROMBERGER, 1995 e 1998; DAMO, 2014).

A primeira experiência no Yankee Stadium foi proporcionada pelo porto-riquenho Daniel, morador do South Bronx e que enxerga no clube uma representação do local onde mora. O caribenho é membro do programa de sócio-torcedor do clube nova-iorquino e, por isso, tem ingresso para todos os jogos da temporada. Neste jogo, o clube nova-iorquino empatou em 2 a 2 com o Dallas F.C., equipe do estado do Texas. Enquanto a ‘audience’ do Yankee Stadium assiste a partida predominantemente sentada, seus torcedores organizados passaram os 90 minutos saltando e cantando. E não apenas canções em inglês, mas também em espanhol. “New York. Oh, New York. Oh, City said I / I’ll stand here in the bleachers untill the day I die / Take me to the Bronx, that’s where I want to be / Because I follow New York, New York City!” ou “Vamos, vamos celeste, esa noche tenemos que ganhar” são frequentemente entoados nas arquibancadas.

Daniel assiste os jogos nas cadeiras do estádio e não nega sua vontade de estar em meio à barulhenta torcida. O porto-riquenho acredita que estar em meio ao grupo é uma experiência mais pessoal do que compartilhar as cadeiras onde os nova-iorquinos assistem seus jogos passivamente. Ele acredita que estar nas bleachers com os torcedores organizados lhe permite mostrar o apoio ao clube que está jogando. Seu posicionamento dá a entender que o lugar onde ele assiste aos jogos parece uma plateia onde expressar-se não é tido como oportuno. Com ele fui às arquibancadas populares e me apresentei ao rapaz que estava com os instrumentos de percussão ainda no anel exterior do estádio e que logo mais seriam levados para o lugar onde ficariam em meio à Third Rail e Los Templados (outra torcida organizada). Lá, fui apresentado à Jhonny, presidente e um dos fundadores da torcida. O NYCFC disputa a MLS há dois anos, quanto os Hearts começaram a frequentar a ‘audience’ e se transformar como grupo organizado.

Naquele sábado, eram cerca 30 torcedores sem tambores, sem faixa, com seis bandeiras que foram entregues a membros da torcida. Mesmo assim, uma ou duas são agitadas ao mesmo tempo, existindo aquelas que permanecem enroladas sobre os bancos. Eles preferem ser chamados de Hearts e têm seu nome inspirado em uma milícia que lutou pela independência dos Estados Unidos. O grupo tem um símbolo em alusão aos Hearts of Oak originais, mas são discretos. Não existe uma massificação em camisas, bonés ou cantos entoados por eles. Nenhuma das torcidas do NYCFC explora seus próprios símbolos. No entanto, os Hearts têm um núcleo muito ativos em relação ao seu canto de apoio ao time e jogadores. As vezes o fazem com tanta força que levam consigo os demais grupos de torcedores localizado nos bleachers.

As canções são muitas vezes inspiradas em músicas do universo pop ou mesmo em outras cantadas por torcidas inglesas e sul-americanas, principalmente argentinas. Os cantos dos Hearts costumam ser brincadeiras que tocam o imaginário do grupo e mesmo gritos políticos em tom jocoso contra o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump. Ao mesmo tempo, a torcida desaprova quando as demais torcidas colocadas à sua direita cantam para o goleiro “Eeeee, puto”, como fazem torcidas mexicanas. Eles têm, inclusive, uma bandeira arco-íris com o símbolo do grupo. Os Hearts entendem como preconceito. Johnny, em nosso primeiro contato, afirmou que a inspiração dos Hearts é de ser um grupo ultra e mesmo que sua localização à esquerda da bleacher não acontece à toa, já que a orientação do grupo é politicamente progressista, à esquerda.

Na semana seguinte, a segunda experiência, o jogo contra o Chicago Fire. Desta vez, o time vencer por 4 a 1. Antes deste jogo fui convidado para encontrar os Hearts of Oak no seu ponto de encontro antes das partidas, o Yankee Bar & Grill, na River Avenue, e bem embaixo da linha do metrô que passa suspenso sobre as ruas naquela região do Bronx. Do lado de fora, três mesas e três torcedores, mas do lado de dentro, por onde só se chega ao descer um lance de escadas para encontrar um hall com cerca de 30, 40 pessoas vestindo camisas celestes ou ostentando cachecóis do NYCF.

Após se encontrarem, os torcedores partiam individualmente ou em pequenos grupos para o estádio em uma caminhada de pouco mais de cem metros. O South Bronx parece só perceber que é dia de jogo de futebol quando se passa diante dos bares, que ficam lotados, ou pela chegada de torcedores vestindo camisas e bonés e carregando seus cachecóis pela estação 161th Street, que recebe os ramais 4, B e D. Nos Estados Unidos não é permitido tomar bebidas alcoólicas nas ruas, portanto os torcedores são obrigados a ficar no interior dos bares enquanto estiverem acompanhados de garrafas de cerveja. Não foi possível identificar uma mudança de dinâmicas do bairro em dias de jogo uma vez que os torcedores chegam ao estádio de carro sem ostentar símbolos ou mesmo de metrô, a partir das três linhas que os deixam em frente ao campo esportivo, sem cantos mais ostensivos.

Já dentro do estádio, na bleacher, uma novidade: o NYCFC colou centenas de comunicados nos bancos onde os torcedores se sentam (ou ficam de pé durante os jogos) onde dizia para que não cantassem canções de cunho racista, xenófobo ou quaisquer tipos de ofensas aos demais torcedores. A pena seria a expulsão do estádio. Em resposta, esses mesmos torcedores do núcleo que puxa os cantos, puxaram também “We can’t sing fuck”.

O “processo civilizatório” e a “excitação mimética”, conforme proposto por Nobert Elias (ELIAS e DUNNING, 1986) podem ser claramente observados aí. No mesmo momento em que se procurar apaziguar um suposto comportamento selvagem dos torcedores que teriam uma conduta agressiva enquanto buscam um estado de catarse dentro das arquibancadas. Ao mesmo tempo, esse mesmo estado de catarse seria possível a partir do compartilhamento do mesmo momento de ‘partisanerie’ (BROMBERGER, 1995), ou seja, o pertencimento que um torcedor tem do grupo do qual faz parte e com o qual vive aquele momento especial.

Ainda houve a experiência do terceiro jogo, realizado em Houston, no Texas, a mais de 2.600 quilômetros de distância de Nova Iorque. Nesse dia, cerca de 20 membros dos Hearts of Oak se reuniram no bar Mad Hatter, ao sul de Manhattan, também em Nova Iorque, para assistir a partida contra o Houston Dynamo. A exemplo do estádio, 30% do público era feminino (seis mulheres). O time celeste venceu por 2 a 0 e se colocou no topo da tabela, ao lado do rival New York Red Bull (que embora carregue New York no nome, está baseado e manda seus jogos em New Jersey, outra cidade e pertencente a outro estado). Um outro grupo se reúne ao norte, já fora da cidade.

A presença no bar é diferente da presença no estádio. Os jogadores não estão diante da arquibancada, mas com sua imagem transmitida pela televisão. O importante nesta hora é estar junto e compartilhar o torcer com os demais membros do grupo. Outros fãs do NYCFC que não são da torcida também estavam no bar, que ostenta um escudo no vidro principal do Manchester City Football Club, outro clube que pertence ao City Football Group. Eram quatro televisões espalhadas pelo bar, todas sintonizadas na partida, e o grupo ocupava três mesas com tampão redondo e elevado em torno das quais se espalhavam para assistir ao jogo. Nesse dia fui recebido por Will, com sua vasta barba vermelha. Ele era um dos mais ativos na hora de puxar os cantos da torcida no estádio.

O clima era de tensão pois o time precisava vencer. A torcida em vários momentos parecia se esquecer do jogo até que um lance com perigo de gol fazia com que todos voltassem sua atenção para a televisão. A dinâmica dos cantos, mesmo no Mad Hatter, seguiu. Com os Hearst fazendo canções que se divertem entre eles ou mesmo fazendo graça do próprio clube.

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Time do NYCFC saúda a torcida. Foto: Vicente Magno Figueiredo Cardoso.

Os corações de carvalho

Em meados de 2014 alguns membros que eram envolvidos com a Third Rail, a maior torcida organizada, deixaram esse grupo por considerar que a direção do clube o beneficiava financeiramente. Em janeiro de 2015, esses membros que já haviam deixado a Third Rail começaram a se organizar, mas ainda sem um nome.

Surgiu a ideia de adotar a referência de um grupo civil, uma milícia, que tomou parte das ações pela independência do país e que agiu na cidade de Nova Iorque. Os Hearts of Oak participaram das ações da chamada revolução americana entre 1775 e 1776, o que culminou na independência do país.

Em dois anos de atividade, a torcida conta com cerca de 120 associados, sendo 30% de mulheres. Segundo Jhonny, cerca de 60 desses têm ingresso para toda a temporada. E em dia de jogo contra o rival, NYRB (no chamado “clássico do Rio Hudson”), os Hearts reuniram 80 torcedores na bleacher apoiando o time do Bronx. Sobre a rivalidade com o NYRB, além da localização (os Red Bulls ficam New Jersey), Jhonny aponta o fato que seu principal objetivo é comercial já que o clube é patrocinado por uma bebida que é um estimulante enquanto o objetivo final do NYCFC, mesmo sendo uma franquia do City Footbal Group, é o futebol. Para ser membro da torcida não há mensalidade, mas um membro mais antigo tem que ser seu padrinho, um tipo de patrocinador no seus primeiros passos dentro dos Hearts.

Mas aí entra um elemento que faz a compreensão mais complexa e sobre a qual é preciso refletir e estudar. Nenhum dos informantes que se identificam como torcedores do NYCF se mantém fieis ao estádio quando muda o esporte. No beisebol, Jhonny e André torcem pelos New York Mets, que fica no Queens (um outro borough nova-iorquino). Ao mesmo tempo que Daniel, seduzido pela torcida do clube celeste para fazer parte de grupos organizados, prefere no beisebol os Boston Red Sox, do estado de Massachusetts. Tanto os Mets quanto os Red Sox são rivais do New York Yankees, o dono do estádio onde o NYCFC manda seus jogos. O clube nova-iorquino dá a entender que desperta em si uma fidelidade, mas o estádio usado como casa vira casa do inimigo quando o esporte é alterado.

O lidar com o estádio é complexo assim como o lidar com o clube. A torcida contesta a ação controladora do clube e nega a proposta que obrigaria os torcedores a um comportamento teoricamente mais limpo que controlaria uma possível rivalidade. Só a Third Rail pode usar instrumentos, além de não ser permitida a utilização de bandeiras de mastros mais altos, fumaça colorida ou mesmo faixas penduradas (os chamados trapos em países de língua espanhola). Os fãs do clube nova-iorquino também rejeitam, por exemplo, a maneira como o NYCFC sugere que os torcedores sejam chamados: citizens (cidadãos), a exemplo do Manchester City F.C, na Inglaterra. Desde já se nota uma tensão entre os torcedores organizados e a proposta do clube. É clara a tensão entre torcedor e torcedor-consumidor nas arquibancadas.

O clube investe em uma identificação local, além de nomes conhecidos internacionalmente para atrair e fidelizar seus torcedores. Enquanto nomes como o espanhol David Villa, o inglês David Lampard e o italiano Andre Pirlo vestem a camisa celeste, se vê exibido em letreiros luminosos no estádio (e também em peças publicitárias) a mensagem “Support your city”. Algo com duplo significado que sugere simultaneamente que o torcedor apoie sua cidade, mas também apoie o seu time de futebol.

O torcer é um ato político no qual o torcedor atribui ao jogador de futebol do clube ao qual aderiu como seu representante dentro do campo, na prática do esporte. Some-se a isso a apreciação do jogo e, como um desdobramento, o comportamento do fã com coreografias, cores e cantos que pode ser entendido como estético, que de forma muito resumida, pode-se entender como a apreciação do esporte praticado dentro de parâmetros performáticos (DAMO, 2014).

Essa ação que combina estética e política dialoga intimamente com a padronização de comportamento, que atende aos interesses da Fifa e também dos clubes que têm na prática do esporte uma ação empresarial. Esse diálogo não é pacífico todo o tempo, como se nota quando o NYCFC se propõe a impor padrões de comportamento, como o cantar dos torcedores, e a resposta destes mesmos torcedores à iniciativa do clube que julgam ser ao mesmo tempo opressora, mas ineficaz.

O clube segue a tendência em busca de uma padronização do torcedor, que entra em confronto com uma ‘cultura torcedora’ que existe na América do Sul e na Europa e que, ao mesmo tempo, parece servir de modelo para as jovens torcidas organizadas dos Estados Unidos. Uma iniciativa adotada pelos clubes é o programa de sócio-torcedor, também adotado pelo NYCFC, que se propõe a oferecer vantagens ao fã do esporte, mas que também exige um retorno em forma de comportamento ordenado.

Essas iniciativas geram territorialidades excludentes (MASCARENHAS, 2014), pois tem como objetivo fazer do estádio um espaço antisséptico, sem gestos considerados agressivos (como cantos que tenha ofensas a adversário que o clube proíbe no estádio com a pena de expulsão de quem o fizer). A instituição se posiciona em favor do torcedor-consumidor e com maior poder aquisitivo.

As torcidas organizadas do NYCFC nascem em um momento em que o futebol é uma das principais engrenagens da indústria planetária do entretenimento, por isso a busca por parte dos clubes em fazer das arquibancadas lugares assépticos. Talvez por isso também, Jhonny, como na frase que abre esse texto, afirma que seu grupo é contra o que está estabelecido, mas favorável ao clube de futebol pelo qual torce.

Enquanto isso, o NYCF se classificou para a próxima fase da MLS nesta temporada 2016, que no Brasil seria chamado de eliminatórias ou mata-mata, mas por aqui ganha o nome de play-offs. E sigo acompanhando os ‘bloys in blue’ ianques e aprendendo com os Heart of Oaks.

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[i] Casa do New York Yankees, o estádio foi erguido em 1923. Nele, originalmente está um ‘diamante’ (campo usado para o beisebol), mas que dá lugar às marcações de um gramado de futebol em dias de jogo do NYCFC. O Yankee Stadium atual não é o original, uma versão mais moderna começou a ser construída em 2006 e foi inaugurada em 2009.

[ii] O New York City Football Club é pertence ao City Football Group, empresa com sede em Dubai, nos que também detém o Manchester City Football Club (na Inglaterra), o Melbourne City Football Club (na Austrália) e tem participação no capital do Yokohama F. Marinos, no Japão.

[iii] Os números do Soccer Stadium Digest foram vistos em dia 7 de outubro de 2016, quando o NYFC tinha 15 jogos realizados durante o campeonato: http://soccerstadiumdigest.com/2016-mls-attendance/

Referências bibliográficas:

BROMBERGER, Christian. Footbal, la bagatelle la plus sérieeuse du monde. Paris, Bayar, 1998.

_____________________. Le match de football : Ethnologie d’une passion partisane à Marseille, Naples et Turin. Maison des scienses de l’homme, 1995.

GEERTZ, Clifford. Um jogo absorvente: notas sobre a briga de galos balinesa IN: A interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1989.

DAMO, Arlei. O Espetáculo das Identidades e Alteridades – As lutas pelo reconhecimento no espectro do clubismo brasileiro. IN Futebol Objeto das Ciências Humanas. Organização Flavio de Campos e Daniela Alfonsi – 1ª edição – São Paulo; Leya, 2014.

MASCARENHAS, Gilmar. Entradas e bandeiras: a conquista do Brasil pelo Futebol. Rio de Janeiro: EdUerj, 2014.