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O que aconteceu naquele dia

Cristiane Nestor de Almeida

Passados quase três anos da Copa do Mundo de 2014 e as vésperas da Copa de 2018 na Rússia, após ver e rever as explicações sobre o “7 a 1” no Mineirão, chegou a hora de revelar a verdade sobre o fatídico dia 8 de julho de 2014.

Nelson Rodrigues, tinha acesso a um ser, o Sobrenatural de Almeida, figura que misturava os “mistérios naturais” do jogo e do torcedor; era pobre, amargo e rancoroso. Sobrenatural manipulava os jogos e, segundo Rodrigues, era de carne e osso, mas também uma forma de assombração, material e imaterial, e que explicava tudo de ruim que acontecia ao seu time do coração, o Fluminense Football Club. E eis que aqui em Belo Horizonte, tínhamos o Sr.V., sempre de carne e osso e até onde se sabe, nunca foi assombração, nunca teve histórico de acompanhar a seleção brasileira em estádios, nem internacionalmente muito menos nacionalmente. Mas como torcedor mineiro, o Mineirão sempre foi sua casa. E diante de uma oportunidade de “ver de perto” o time do Brasil, o Sr.V. se preparou sem qualquer ritual. Naquela terça feira tudo transcorreu naturalmente, apenas substituiu a camisa de seu time pela camisa amarela e verde da seleção.

Tudo começou quando o Sr. V., ganhou um ingresso para um jogo da seleção brasileira no Mineirão, estádio de Belo Horizonte. Um ingresso específico apenas para um possível jogo do time do Brasil em solo mineiro.  Após fazer as contas e com as possibilidades reais do Brasil chegar às semifinais, o Sr.V.  optou por resgatar seu ingresso para a tão esperada partida entre Brasil e Alemanha. Diversas pessoas aconselharam o Sr.V. a ir ao primeiro jogo da seleção brasileira em terras mineiras, uma vez que após as cobranças de pênaltis o Brasil se classificou para a próxima etapa da competição, eliminando o Chile por 3 x 2.

Ramires durante jogo do Brasil contra a Alemanha semifinal da copa do mundo, 08 de Julho 2014. Bruno Domingos / Mowa Press

Ramires durante jogo do Brasil contra a Alemanha semifinal da copa do mundo, 08 de Julho 2014. Foto: Bruno Domingos/Mowa Press.

Mas o Sr.V. seguiu firme nas suas convicções e resgatou seu ingresso para o dia 8 de julho de 2014. Naquela terça feira, um misto de esperança e aflição estava no ar! Esperança em apagar aquelas velhas feridas deixadas pela Copa de 1950, e expurgar de uma vez por todas o velho fantasma da final da Copa do Mundo no Maracanã; aflição por receio do Brasil não passar pela Alemanha, e ser eliminado da Copa em casa, tensão por um jogo único de mata-mata, e que não se pode nem pensar em errar.

Lembrando que os inúmeros problemas sociais foram questionados pelo povo brasileiro, expressando o descontentamento em relação aos gastos com a Copa do Mundo nas manifestações de 2013 e 2014. Os arredores do Mineirão e a praça Sete de Setembro, localizada no centro da capital mineira, foram transformadas em praças de “guerra” uma vez que houveram uma quantidade significativa de confrontos entre a PM e os manifestantes.

Mesmo com todos esses fatos que marcaram o dia 8 de julho de 2014 em Belo Horizonte, o Sr.V. se encheu de expectativa com possibilidade do Brasil vencer a Alemanha e se aproximar da final para “curar feridas expostas” causadas pela dura derrota para o Uruguai na Copa do Mundo de 1950.

Mas, um espectador especial ocupava um dos assentos da arquibancada no Mineirão. O Sr.V., com a blusa da seleção, não pode escolher o setor, determinado no ingresso que ganhou e, em pouco tempo, viu a Alemanha golear o Brasil por 7 x 1. Além da dor da derrota em si, tinha a vergonha do placar elástico e da eliminação na segunda edição da Copa em casa após 64 anos.

Relembrando que a maior derrota da seleção brasileira foi registrada em 1934, um amistoso, em que o Brasil perdeu por 8 a 4 em Belgrado, na Sérvia. Mas o placar de 7 a 1 é a maior goleada sofrida por uma seleção campeã mundial, embora esse amistoso na década de 30, seja lembrado apenas pelo largo placar e seja mais “próximo” dos 7 a 1, vale ressaltar que, nessa época, os meios de comunicação como a televisão e a rádio ainda não se encontravam estruturados e a seleção brasileira não tinha a representatividade que possui hoje como pentacampeã.

Diante de todo esse histórico, só mesmo uma presença sobrenatural justificaria a derrota do Brasil, só mesmo a presença do Sr. V. para encontrarmos explicação para o fatídico dia no Mineirão. No outro dia pela manhã, o Sr.V. foi responsabilizado pela derrota brasileira, uma vez que ele estava lá. Porém humildemente, o Sr.V. expressava que a sua ilustre presença na tribuna do Mineirão, garantiu pelo menos o gol do Oscar, o gol de honra da equipe brasileira.

Logicamente, ele não acredita que a culpa da derrota seja sua, mas não existe outra explicação para aquele dia. E a prova disso é que recentemente após o Brasil passar por um período turbulento nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018 na Rússia, o time canarinho jogou novamente no Mineirão e estava se recuperando sob o comando do novo técnico e eis que nosso personagem real desistiu de ir a partida do dia 10 de novembro de 2016. Com a decisão do Sr.V. a vitória brasileira por 3 x 0 foi garantida, coincidência ou não, depois daquela partida e do Sr. V. desistir de acompanhar a seleção brasileira no Mineirão, a mesma assumiu a ponta da tabela e  até o momento é líder com 33 pontos em 14 jogos; sendo 10 vitórias, 3 empates e 1 derrota.

durante jogo da Selecao Brasileira contra a Argentina pela decima primeira rodada das eliminatorias sul-americanas para a Copa da Russia de 2018 no Mineirao em Belo Horizonte

Paulinho comemora gol durante jogo da Seleção Brasileira contra a Argentina pela decima primeira rodada das eliminatórias sul-americanas para a Copa da Russia de 2018 no Mineirão em Belo Horizonte. Foto: Thomás Santos/Mowa Press.

Logo, não é só futebol, o mesmo é uma linguagem ritual que engloba questões mais profundas da sociedade. E, segundo Daolio (2005), o brasileiro traz em sua dinâmica cultural características mágicas, religiosas, supersticiosas, crendices e outras. E o futebol também apresenta essas características e mesmo com todo o desenvolvimento científico, a superstição é inerente à tradição do futebol.

Assim, não foi coincidência a presença do Sr.V. no Mineirão, por isso é normal buscarmos em esferas sobrenaturais, segundo Daolio, num local onde tanta coisa depende do acaso e da sorte, e em um jogo jogado com os pés, é comum buscarmos uma explicação para os mesmos, para aquele jogo e aquele placar, em nossa casa e nosso solo, um lugar tão significativo para o futebol mineiro. Uma dor ficou instaurada em nós, pelos 7 a 1, e por isso só mesmo algo sobrenatural para explicar e entendermos aquele dia.

Uma pena! Nelson Rodrigues, não está mais entre nós para compararmos os personagens: Sobrenatural de Almeida e o Sr. V., o cronista esportivo era pernambucano e segundo a lenda era quase cego, e escrevia o que ouvia dos jogos e não do que assistia propriamente, Nelson Falcão Rodrigues nasceu em 23 de agosto de 1912 e faleceu no dia 21 de dezembro de 1980 no Rio de Janeiro, e por muitos anos em sua coluna encontrou explicação para o azar do Fluminense.

Então foi isso que aconteceu naquele dia. “Isso talvez explique o fato de os comportamentos supersticiosos persistirem no futebol brasileiro ao longo dos anos, mesmo com todo o avanço científico das ciências do esporte.” (Daolio, 2005).

DAOLIO, Jocimar. A superstição no futebol brasileiro. Futebol, cultura e sociedade. Autores Associados, 2005.

TAVARES, Neila. Geleia Geral. Blog, acesso em 07/07/2017.