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“A brecha que o sistema queria”: o caso Pacaembu 22 anos depois (Parte I)

Fabio Perina

Tenho como objetivo nesse texto que marca a lembrança da conhecida tragédia do Pacaembu (20/08/1995) listar algumas das principais mudanças que ocorreram no cenário das Torcidas Organizadas nesses últimos 20 anos no Estado de São Paulo. Estado conhecido popularmente por diversos torcedores como o “calvário da festa do futebol”, devido, nessas duas décadas, as proibições terem se revelado mais profundas e mais generalizantes do que em outras regiões do país.

As várias mudanças mais recentes me levam a crer que as bibliografias mais clássicas do tema produzidas nas décadas de 1990 e 2000 necessitam também fazer sua autocrítica e serem atualizadas: não se pode conhecer as Torcidas Organizadas levando apenas sua ação nos estádios durante os 90 minutos dos jogos; pois seu dia a dia (e a violência a qual influenciam e são influenciadas) é bem mais complexo. Se apenas isso bastasse para o diagnóstico do problema a sua solução também seria simples e não é isso que a realidade tem provado.

As condições objetivas que determinam a violência na sociedade em geral e também no futebol tem a ver com condições subjetivas que as fortalecem. Como a hegemonia de uma espécie de “cultura punitiva” como a única forma simplista de lidar com problemas sociais complexos. Convido o leitor à partir das analises nesse texto (em 4 partes) a começar a desconfiar dos instrumentos punitivos tidos como soluções técnicas e verdades absolutas. Uma vez que, mesmo procurando atender o desejo geral da população por “paz nos estádios”, caem com frequência na ineficácia e na arbitrariedade.

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Torcidas Organizadas dos clubes de São Paulo de reúnem na Praça Charles Miller após a tragédia com a equipe da Chapecoense. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

E por fim deixar claro que a criminalização das Torcidas Organizadas e a elitização do público em geral são duas faces de uma mesma moeda. Ou de outra forma, posso dizer que “o público que se quer abolir” sempre encontra sua contrapartida em “o público que se quer selecionar”.

“chega de violência, quero ver é gol de placa / todo mundo se dá mal por meia dúzia de babaca (…)

“Não há paz sem justiça e condições sociais / mas nesse caso a vitima e o culpado são iguais / os motivos da revolta são os mesmos dos dois lados / então se ligue; direcione o seu revide”[1]

Pouca coisa do dia a dia das Torcidas Organizadas se manteve até os dias de hoje.

Nos anos 90 era comum em São Paulo grande festa não somente com estádios sempre cheios cantando e vibrando por inteiro. Mas inclusive com centenas de bandeiras de mastros, fumaça e papel picado. Algo que nunca mais se viu desde então:  uma das muitas formas da mídia incentivar e divulgar as festas das torcidas era promovendo concursos e premiações pelo melhor desempenho.

Em resumo, mesmo durante o aumento da violência nos anos 80 a 90 as Torcidas Organizadas ainda eram minimamente reconhecidas pelo poder público e opinião pública como sujeitos de direitos. As quais deveriam ser ouvidas e consideradas para a resolução dos problemas sociais em seu entorno.

Quando se fala que há (ou havia) algo especial na chamada “cultura torcedora”, isso tem a ver com essa experiência em multidão. Um espaço para a livre expressão de pessoas que em sua maioria tinham poucos recursos para enfrentar as varias dificuldades da vida cotidiana. Mas na arquibancada elas podem ser protagonistas do que fazem. Por isso uma força popular constante. Por isso o torcedor no futebol é completamente diferente do espectador de qualquer outro esporte. Pois ao jogo formal nas quatro linhas se soma uma outra espécie de ‘jogo’ da participação de uma torcida querendo ser melhor que a outra rival em quantos critérios forem possíveis.

Todos daquela época se lembram da “corda” nos clássicos no Morumbi, ou seja, quando uma torcida estava apertada demais pela separação a Policia Militar afastava o cordão de isolamento e permitia simbolicamente uma torcida ganhar território em relação à outra. O que era visto com grande vibração por aquela que ampliou seu espaço.

Esse é um grande exemplo que a violência simbólica encontrava maneiras frequentes de ser experimentada. Para muitas lideranças de Torcidas Organizadas da época, assim como para os pesquisadores, era preciso que o estádio fosse um local permitido para que as manifestações tidas como não tão recomendadas no dia a dia pudessem existir. Era ali, naquele espaço, que o  trabalhador conseguia descarregar nele suas frustrações do cotidiano, em uma espécie de ‘zona de permissão’.

Toda multidão precisa expressar e provar sua força coletiva. Elas argumentam que não é porque nas musicas havia a promessa de se praticar tal ato violento, que de fato, brigariam. Existia, de certa forma, um código entre os torcedores (mais ativo entre os torcedores organizados mas também bastante disfrutado pelo torcedor comum) no qual nos dias de clássicos era permitido experimentar certas formas dessa violência simbólica. E nisso o estádio ocupava um papel central nessa representação ao marcar o local e a hora certos de ocorrerem. Agressivos aos olhos de muitos, era muitas vezes a única voz de quem não tinha nenhuma na sociedade. Uma vez que as disputas das torcidas na arquibancada se assemelham com as disputas dos jogadores dos clubes pela vitória no campo. Tudo que o torcedor espera é se ver representado por 11 guerreiros dentro de campo que defendam os valores que ele acredita possuir. E a maioria achava o maior barato nisso! O futebol dos anos 90 foi muito marcado por paixão e provocação.

“Se [meu time] não ganhar, ole ole ola, o pau vai quebrar!”

“Pode chamar PM, e me mandar embora, que eu vou ficar brigando lá do lado de fora!”

“Soou, sou [nome da torcida] eu sou! Vou dar porrada, eu vou! E ninguém vai me segurar! (nem a PM!)”

Eram gritos que conviviam lado a lado com vários outros de caráter festivo e popular. Como o conhecido samba “Domingo” do Neguinho da Beija Flor, “Chora, não vou ligar (…) você pagou com traição…” da Beth Carvalho, “Ô balance, balance…” dentre outros. Deixando a sugestão que não há distinção entre torcer para apoiar e para provocar quando se envolve paixões extremas. Por isso, quando a mídia crava uma sentença ao mostrar uma briga que “isso não são torcedores…”, a mensagem passada é “não são esses os torcedores que desejamos”. Na verdade, constitui em sua obsessão por purificação e expiação[2] dos ‘desvios’ que parasitam o corpo social. Historicamente a mídia incentiva a torcida somente quando faz festa(e de preferencia uma festa tutelada pelo clube), mas não quando cobra do time ou quando se revolta com as autoridades e os dirigentes.

O caso Pacaembu em 1995 é decisivo num processo muito claro: criminalizar as Torcidas Organizadas como as únicas responsáveis pela violência no futebol. Na virada dos anos 1980 para 1990 a criminalidade urbana ganhava as manchetes do noticiário buscando atrair a audiência com imagens e discursos impressionantes. E com as Torcidas Organizadas não foi diferente. É nesse contexto que a sucessão de distintos incidentes foi fazendo a mídia ir construindo o tema “violência no futebol” como problema social de primeira importância ao mesmo tempo que ela procurava expressar com todo o realismo os comportamentos tidos como violentos dos torcedores. Tendo como efeito criar uma sensação de certeza que tal violência ocorre em qualquer lugar e em qualquer hora e sem limites.

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Cena da briga no campo do estádio do Pacaembu em 1995. Foto: Reprodução.

Também nos anos 1990 os pesquisadores e sobretudo os torcedores foram perdendo espaço como formadores de opinião na construção de discursos sobre a violência no futebol em proveito dos estratos mais conservadores da crônica esportiva e das autoridades. Isso facilita que a construção dos discursos hegemônicos sobre os torcedores esteja cada vez mais distante da sua realidade. E dessa maneira o discurso midiático e do senso comum foi se fechando sobre si mesmo e desprezando o torcedor organizado.

A criminalização de um grupo transforma a violência do ato que qualquer um poderia fazer numa característica ‘natural’ de algum grupo em específico. Em outras palavras é a diferença entre afirmar que “há torcedores que podem agir com violência numa certa ocasião” de “torcedores são violentos”. É assim que se constrói o estigma de um grupo, negando qualquer característica que possa ter de positiva, para impedir que alguém defenda seus direitos. Cada indivíduo já é julgado de antemão não pelo que fez, mas somente por pertencer ao grupo. Rótulos simplificadores apelam para que a opinião pública aceite soluções simplificadoras.

E esse processo foi tão bem sucedido que, dentre tantos exemplos possíveis, é comum em ambientes cotidianos fora do futebol, como a política partidária, debochar que grupos que agem com agressividade e rivalidade o façam “como torcidas organizadas”[3]. Esse é um dos muitos casos da primeira grande má noticia dessa analise: a sociedade em geral dificilmente acredita ser possível uma ação positiva vinda das torcidas organizadas. Vem sendo consenso no senso comum afirmar-se ‘à torta e à direita’ que “eles não são torcedores, vão para o estádio só para brigar”. (O que pode ser facilmente refutável pela realidade uma vez que os incidentes dentro dos estádios tornaram-se praticamente inexistentes. Além de que se existisse apenas o desejo por brigar, cada membro poderia estar indo brigar por 3-4 Torcidas Organizadas, o que todas elas repudiam e expulsam quem o fizesse).

[1] Rap das torcidas (1996) https://www.youtube.com/watch?v=kjfphi_YP2A

[2] DOUGLAS, Mary. “Pureza e perigo: ensaio sobre a noção de poluição e tabu.” Lisboa: Edições 70 (1991).
GIRARD, René. “A Violência e o Sagrado. Tradução de Martha Conceição Gambini; revisão técnica Edgard de Assis Carvalho.” São Paulo: editora Universidade Estadual Paulistana (1990).

[3] https://www.youtube.com/watch?v=Up8_wx2cmwo