101.1

Prioridade

Marcos Teixeira

Foi quando o árbitro apitou o final do jogo que ele se lembrou do emprego que possivelmente havia perdido para poder estar naquela arquibancada. Era o terceiro. Ele nunca foi bom em determinar suas prioridades quando seu time estava em campo, principalmente depois que o valor dos ingressos havia triplicado.

Antes era mais fácil. Quatro ou cinco jogos por mês em casa, o resto pela TV ou pelo rádio. E nem em todos os jogos ele precisava ir. A preferência mesmo era pelos clássicos. “Jogo grande”, como ele gosta de se referir aos prélios com os maiores rivais.

Só que o departamento de marketing do time dele resolveu fazer um sistema de pontuação para priorizar os torcedores que fossem em mais partidas para determinar quem teria o direito de ir aos jogos grandes. Aí não podia deixar de ir àquelas partidinhas safadas de quarta-feira tarde da noite – aquelas em que o transporte para voltar para casa rareia – porque perderia a prioridade.

A mulher dele não entendeu por que faltava grana para as despesas da casa. Colocou até os filhos na discussão. Mas ele não se importava. Ou melhor, até se incomodava sim, mas se não fosse assim, não conseguiria a entrada para a estreia na fase de grupo da Libertadores.

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O torcedor e a bilheteria. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Ele só não se acostumava muito com uma galera que preferia comemorar a renda do que cantar o hino do time, fazer poropopó ou falar palavrão. Outra coisa que não descia na garganta seca de quem não podia tomar cerveja no estádio eram as selfies com o time perdendo. Ele suspeitava até que esse pessoal aí, com cara de quem são sabe o que é o Pacaembu ou o Canindé, fazia ideia do placar do jogo.

Aquelas cadeiras frias eram um lugar estranho para quem deixou de se sentir em casa, mesmo em casa. Desde que o valor do ingresso triplicou, os amigos que iam com ele deixaram de estar nas arquibancadas. A sensação de pertencimento que unia os de paixão em comum havia dado lugar à preocupação com o ônibus, que não vinha.

E na desculpa que daria ao futuro ex-chefe.