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Quero ser Dr. Sócrates Brasileiro

Luciane de Castro

Foi no dia 11 de junho de 2016 que cheguei à Escola Nacional Florestan Fernandes para participar de uma mesa de bate-papo como evento de lançamento da campanha de construção do Campo Dr. Sócrates Brasileiro.

Ainda que as pessoas desconfiem ou não compreendam minha ligação como tricolor com o Doutor, ainda que o fato de não ser corinthiana e me sentir profundamente ligada a ele seja motivo de pouco caso, o dia 11 de junho foi de emoção e alegria por estar ali.

Foi bem complicado segurar as lágrimas diante dos versos proferidos pelos alunos da escola. O som que reverberou pela sala tocou tão profundamente minha alma quanto a presença de Sócrates na minha formação cidadã. Magrão sorria que eu sei.

O tempo avançou, a meta para a reforma do campo da escola foi alcançada e o golpe se consolidou. Entre um #ForaTemer e outro (saliente-se que em intervalos cuja métrica do tempo não conseguiu registrar) a ansiedade para a inauguração do campo se mantinha alta.

Ajustadas as agendas de Lula e Chico Buarque, o dia da inauguração do campo chegou.

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Festa de inauguração do campo Dr. Sócrates. Foto: Cassimano.

O coletivo Futebol, Mídia e Democracia, convidado para ser um dos times a participar dos jogos inaugurais, foi a campo com representantes de vários times e outros coletivos que o integram. E é aí que umas das experiências mais legais do ano de 2017 se revelou.

O divino do Doutor se apossou feito uma entidade de cada corpo que pisou naquele campo, não pelo toque de calcanhar, expediente raro e pouco utilizado, mas pelo caráter futebolístico/político/democrático.

Como uma passagem nada secreta, o gramado se alcançava numa entrada triunfal, digna de final de várzea. O povo junto, sem PM, sem intrusos ordeiros, sem assento numerado. Magrão sorria que eu sei.

Pelada rolando à vera. Festa pura. Há seis anos e dezenove dias do apito final do último jogo do Doutor, uma celebração de fazer inveja aos incrédulos. Nada mais óbvio que a presença de Sócrates por ali, transmutado em mais de mil sujeitos de diferentes cores, raças, crenças, origens, orientações sexuais, gostos musicais, profissões.

Ganhar ou perder, mas sempre com democracia. O jogo principal entre Amigos de Lula e Amigos do MST terminou empatado. Confesso, resiliente, que não tive condição de acompanhar o jogo seguinte. O coletivo, devidamente organizado para participar da peleja, se concentrava ao modo roots e boleiro: festa, confraternização e cachaça. Magrão sorria que eu sei.

Todas as faixas, todas as fardas, todas as bandeiras, todas as pautas. Tudo o que é urgente desceu para o campo. E desceu feliz, completo, sem desfalque. Sem muita técnica, é verdade, mas cheio de alegria e raça. Seria pretensão demais sonhar jogar igual ao Doutor.

O clima, cujo prognóstico era de chuva, se isolou nalgum lugar menos alegre e deixou que o sol brilhasse forte. Música, futebol, cerveja e demais aparatos alcoólicos misturados a uma fissura frenética de entrar em campo e felicidade plena. O mastro do Magrão Eterno se abria e fechava como num portal para outro mundo. Posso apostar que em algum momento todos passaram por ele e foram abençoados com um breve trago o grito antes de entrar em campo “Viva a democracia!”.

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Campo Dr. Sócrates Brasileiro. Foto: Cassimano.

E chegou a hora do coletivo Futebol, Mídia e Democracia jogar. “Ô ô, FMD chegou” embalando a entrada e a fumaça colorida. Nossos pés, descalços ou não, tocaram o imaculado gramado do Doutor. E Magrão sorria que eu sei.

Contra todas as apostas, contra toda a concentração disciplinada do adversário, @s peladeir@s fizeram bonito. Foi um empate digno de vitória para quem incorporou a festança Socrática desde a sexta-feira, ou, para os mais sóbrios, desde as nove da manhã na concentração do bonde.

No dia 23 de dezembro de 2017, seis anos e dezenove dias após o apito final do último jogo do Doutor, todos queriam e foram Sócrates Brasileiro no gramado que o eterniza nas lutas por um mundo justo e sem mazelas, ou, nas palavras de Francisco: “Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos.”

Me atrevo tomar dos olhos e dos punhos de Doutor Sócrates pra completar: “Nenhum futebol sem festa e sem participação popular!”. Magrão sorria que eu sei, através de todos os que queriam e foram Dr. Sócrates Brasileiro por um dia.