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Na dividida dos rótulos: Raiz x Nutella

Marco Lourenço

Há pouco tempo, um novo meme tomou conta das principais redes sociais usadas no Brasil, como de praxe, extrapolando as fronteiras digitais, e passou a fazer parte do vocabulário informal nos mais variados ambientes, seja na escola, no trabalho, na pelada ou no almoço de domingo.

O meme Raiz x Nutella consiste basicamente na antítese daquilo que é verdadeiro, autêntico e que contém uma essência legítima em oposição à algo trivial, vazio ou o popular “modinha”. Sempre em tom de humor, este tipo de publicação tem origem incerta – supõe-se que os primeiros grandes difusores do meme foram a página do Facebook “Raiz x Nutella”, que já foi transformada em outra página, e o perfil do Twitter @joaquinvoltou.

Como parte da atmosfera anedótica brasileira, o futebol foi um dos temas mais explorados pelo meme desde o início da febre. E os usos e significados da dicotomia Raiz x Nutella revelam uma disputa simbólica e ideológica fronteiriça ao dramático jogo social brasileiro.

Neste primeiro caso, produzido pela página do Facebook Copa Libertadores da Depressão, há uma valorização nostálgica da representação de peladeiros – aqui, em especial para amadores – que superam todas as vicissitudes de jogar futebol sem os recursos e as condições favoráveis que o jogo “gourmetizado” oferece – para utilizar o vocabulário recorrente.

Para além de uma nítida contraposição que recai sobre uma divisão de classe – pelada na várzea x society no condomínio -, o deboche de diversos símbolos adotados pela geração mais jovem é ligado intimamente à imagem de David Luiz, um dos expoentes da seleção do 7 a 1. Aliás, não por acaso, jovens que são alcunhados de “geração 7 a 1”.

Curioso é notar que os expressivos números de engajamento desta – e de muitas outras – publicação são enriquecidos pelos mesmos alvos da piada. “Sem chacota!”, como diria Felipe Melo. Esta é a mensagem que estes jovens querem transmitir. Não é errôneo hipotetizar que o trauma da humilhante derrota tenha se tornado um divisor de águas. E tampouco incomum é a verdadeira caça às bruxas: fãs de David Luiz e todo universo simbólico e material que o circula tornaram-se motivos de constrangimento.

A culpabilização do fracasso – neste caso, parcial – de uma geração ou grupo social também não é novidade no Brasil. Este é um intrigante paradoxo brasileiro: a hospitalidade do povo x a falta de empatia com o diferente. A Copa de 2014 foi um evento bem sucedido em si, poucos irão questionar a magnitude do espetáculo assistido, por outro lado, a queda violenta para a Alemanha somente revelou individualismo raivoso stand by da nossa gente.

Esta “geração 7×1”, portanto, para qualquer atribuição que lhe cabe, recebe o adjetivo Nutella. No segundo exemplo apresentado acima, o torcedor raiz é legítimo e totalmente avesso aos valores, preferências e interesses da nova geração. Em particular, este meme tem um viés político-ideológico que marca uma posição explícita perante a nova ordem do futebol no Brasil.

No caso, o grande vilão são as novas arenas e suas variadas formas de vivenciar o jogo. Aqui, “gourmet”, “shopping”, e claro “nutella” são utilizados pejorativamente para definir os novos estádio – ARENAS – construídas na era dos megaeventos esportivos.

Mais que uma peça que cômica que politicamente ataca a elitização e repressão durante os jogos, o meme engaja aqueles que também são solidários a uma perspectiva quase onipresente nos movimentos populares e de esquerda que militam no futebol: “ódioaofutebolmoderno”. Para não estender em demasiado e desfocar o mérito deste texto, a leitura da entrevista com a pesquisadora Leda Costa (acesse aqui) fornece insumos interessantes para refletir acerca do tema.

Diante de tantas práticas arcaicas e condições precárias de desenvolvimento, o futebol brasileiro passou por uma bela reforma – pelo menos, em sua fachada. E é justamente a superficialidade das transformações movidas ou intentadas pelos gestores estudiosos do futebol que traz a discórdia permanente. A mesma estirpe de cartolas habitam e controlam nosso futebol – até o Eurico voltou! Contudo, se tem casa cheia, patrocínio renovado e vitórias frequentes, a crítica se enfraquece. Enfraquecida, especialmente, pelos meios de comunicação que, com raras exceções, promovem com euforia seu mais valioso produto cultural de entretenimento, agora “modernizado”, o futebol.

Este diagnóstico poderia ter sido extraído da mesma polarização assistida nas redes sociais e nas ruas de grandes capitais brasileiras. Para antagonizar com as grandes primaveras revolucionárias da história, uma espécie de “inverno brasileiro” é protagonizado nas ruas e nos estádios por personagens que historicamente não vivenciaram as importantes manifestações transformadoras do país ou não tiveram “os fundilhos das calças puídas pelas arquibancadas”, como diria o sociólogo Gabriel Cohn.

Portanto, a torcida “nutella”, deslegitimada e avacalhada, foi finalmente apresentada ao espaço público, ou ao menos, às mercadorias que ela oferece. Como efeito desta generalização, certamente muitas pessoas não irão se identificar integralmente com a “torcida gourmet”. Ingressos caros, por sua vez, incomodam, mas até certo ponto – ou público.

O mais relevante nesta dicotomia é a disputa por representações que buscam extremos e simplificam questões delicadas da nova ordem do futebol. Ora, por mais progressista que seja o torcedor raiz ao brandar palavras de ordem para ingressos mais baratos, elogiar gritos ofensivos ao rival como “vai tomar no cu”, indicia uma posição também recheada de paradoxos.

Em especial, a discussão sobre as ofensas proferidas pelas torcidas durante os jogos ganhou relevo recentemente. O grito “bicha” evocado a cada cobrança de tiro de meta do time adversário se difundiu rapidamente e já resultou, inclusive, em cobrança de multas – recentemente, a FIFA multou a CBF pelo mesmo ato praticado durante partida contra a Colômbia pelas eliminatórias.

Neste último exemplo, as caricaturas homofóbicas, por exemplo, ocupam os dois lados das trincheiras de algoritmos. Sem dúvida, a peça foi criada por um torcedor adversário do São Paulo FC, deslocando a discussão anterior às questões do clubismo, rivalidade e intolerância.

Neste caso, em tom irônico, até mesmo a homoafetividade consegue ser adaptada neste feixe binário, exibindo não a polarização primária, mas uma gradação, entre mais ou menos “gays”, e ainda, o repugnante preconceito e a visceral demonstração igualmente nojenta da depreciação de elementos ligados ao universo feminino.

A rigor, o meme em questão é mais um recurso típico da linguagem dos meios digitais, em especial, das redes sociais, com as mesmas características: inteligível, adaptável, flexível, fragmentado e superficial. E à serviço dos objetivos de quem o produz, ele pode tomar a forma que for necessária.

Diante disso, investigar essencialismos ou modismos torna-se absolutamente periférico àquilo que é central nesta matéria. As representações construídas e reconstruídas, por sua vez, merecem a crítica pertinente, à luz dos fenômenos sociais e culturais que as circundam – com seus mais variados significados e apropriações.