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Rodrigo Caio e o relativismo moral

Marcos Teixeira

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”. O trecho do discurso proferido por Rui Barbosa no Senado Federal em 1914, portanto há mais de cem anos, é citado no livro “Ética e Vergonha na Cara”, de Mario Sergio Cortella e Clovis de Barros Filho.

Cortella fala do “se é bom para mim, tudo bem”, que classifica como ética de conveniência ou relativismo moral. Ele argumenta usando o caso do corredor espanhol Iván Fernández Anaya, que não quis vencer uma corrida de crosscountry em 2012 ao perceber que o queniano Abel Mutay, que venceria, parara antes por se confundir com a sinalização e achar que já tinha vencido a prova. “O que teria dito minha mãe?”, pergunta Anaya ao repórter que questionou a atitude. Para Cortella, a mãe é a última pessoa a quem se quer envergonhar.

No dia seguinte após o Corinthians vencer o São Paulo por 2 a 0 no Morumbi, o zagueiro Maicon disse que preferia ver a mãe do adversário chorando à sua (ver a entrevista completa abaixo, em que as primeiras perguntas são sobre o Rodrigo Caio e ao final da entrevista, aos 12 minutos, ele usa o exemplo da mãe). Talvez o xerifão com cara de mau e futebol igualmente assustador não tenha parado para pensar no que sua mãe pensaria se o filho visse algo injusto e calasse por e para ser beneficiado.

A atitude de Rodrigo Caio ao confessar ter pisado no goleiro de seu time ao tentar proteger a bola da investida do atacante Jô, evitando assim um injusto cartão amarelo ao adversário (que o suspenderia do jogo da volta, no qual a sua equipe precisa vencer por boa margem de gols para seguir adiante), nem deveria levantar tanta polêmica. E como toda polêmica em tempos de redes sociais para seu fomento, a discussão é a mais rasteira possível.

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Rodrigo Caio pisa no goleiro Renan ao tentar proteger a bola em jogada com o atacante Jô, do Corinthians. Foto: Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians.

O tema deveria ser consenso, mas apenas é debatido porque nunca se pensou tanto no próprio umbigo. Ou melhor, porque perdeu-se a vergonha faz tempo, mas agora resolveram escancarar, como se fosse feio ser honesto, coisa de otário mesmo. Como cantou Gardel em Cambalache (e Raul Seixas traduziu dois anos antes de partir), “quem não rouba é um imbecil”.

Torcedores revoltados com a atitude do jogador condenam sua honestidade a ponto de atribuir a ela o novo insucesso de sua equipe, mesmo que esta esteja se arrastando em campo, nos chamados jogos grandes. Como se a virtude fosse errada, como se fosse justificável ganhar a todo custo.

Não é.

A competitividade no futebol não pode ser desculpa para que seja instituído uma espécie de território sem lei, onde tudo é permitido, desde uma simulação para obtenção de vantagem imerecida à ofensa racial, buscando o destempero do contrário. O futebol nada mais é que a metáfora da vida e isso explica essa elasticidade moral vista quando a bola rola, quando Fred cava um pênalti na estreia da Copa, quando Rivaldo simula uma bolada no rosto, quando Henry leva a mão à bola para classificar a França. Aplaude-se o esperto pelo resultado obtido. Resultado: é o que diferencia também o esperto do trouxa.

Mas não se enganem. O mesmo relativismo moral cunhado no diálogo entre Cortella e Barros Filho explica os elogios dos jogadores corintianos, que não tomaram atitude semelhante quando tiveram oportunidade. Sem medo de errar, fosse um companheiro de time deles a fazer o que fez Rodrigo Caio, o discurso seria outro.

O excelente Moacyr Franco, na Praça da Alegria, criou o personagem Mendigo, que andava com um jornal amassado sob o braço e repetia o bordão “e quanto é que eu levo nisso?” quando reclamava da vida. A resposta a esta pergunta tem determinado a distância entre o esfregar das mãos e a indignação.

O problema é cultural, é de berço, é de (falta de) retidão de caráter. O cidadão que, ao se vestir de torcedor, aceita qualquer cambalacho que favoreça seu time, despe-se da moral. Mas ao contrário do Mendigo de Moacyr Franco, sua mendicância é vil, é desprezível. Ele mendiga por favores, por benesses, mesmo que seja à margem da lei e em todos os níveis, desde o cafezinho para o guarda à propina do fiscal.