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São Januário, essa força estranha

Gilmar Mascarenhas

Eu vi um menino correndo.

Eu vi o tempo brincando ao redor do caminho daquele menino.

(“Força Estranha”. Caetano Veloso)

 

Agosto de 2016, uma sexta-feira à noite. Vasco enfrentando o Joinville pela série B do nacional. No legendário estádio São Januário, estávamos eu e Fernando Ferreira (então orientando de doutorado, em formidável estudo sobre as práticas e dinâmicas torcedoras no novo Maracanã), apresentando o precioso monumento a Felipe Lopes (UNISO), logo após uma banca de exame de qualificação na UERJ, também sobre estádios. Observando, como de hábito, comportamentos de torcedores, me chamou atenção a presença de alguns meninos correndo alegremente pelas arquibancadas. Reproduziam brincadeiras de rua, como o tradicional “pique-pega”, ou simplesmente corriam, esbanjando energia e liberdade. Lembrei dos folguedos de minha infância suburbana, em ruas hoje desertificadas pela violência e pela nefasta proliferação de automóveis. Veículos nem são tantos, mas irresponsáveis o suficiente para afastar do asfalto e mesmo das calçadas as sociabilidades de outrora.

Relembrei também meus tempos de adolescente, frequentando a Geral do Maracanã (custando o ingresso apenas o equivalente a um bilhete de ônibus urbano) com colegas do colegial, improvisando uma bola de meia, promovendo animados “rachas” (prática radicalmente informal do futebol) no intervalo do jogo ou mesmo durante a partida, quando pouco interessante. Isso bem antes que Leonel Brizola, governador, elevasse o piso da Geral, aumentando também o gradiente (inclinação), em 1985. Na maior alegria fugaz, também usufruíamos das bolas que eventualmente caíam do campo de jogo, tomando aquele espaço da Geral como se fosse mais um parque da cidade, quiçá as areias da praia, espaço lúdico e de liberdades, porém dotado de um privilegiado “pano de fundo”: o verde sagrado do gramado onde desfilavam nossos ídolos. Eram todos ídolos, pelo simples fato de estarem ali, oficialmente uniformizados e pagos para ter o privilégio absoluto de correr pelo gramado do Maracanã.

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Estádio de São Januário. Foto: Bernardo1989 (CC BY-SA 4.0).

Voltemos a São Januário, pois aquele Maracanã não existe mais. Voltemos aos meninos que corriam, roubando completamente a cena para este observador. Desapareciam mais adiante, na multidão embandeirada, para a seguir voltarem, sorridentes e saudavelmente indiferentes ao sofrimento dos adultos (a vitória vascaína, 2 a 0, foi construída apenas no segundo tempo). Quem já correu numa arquibancada de cimento sabe da emoção de desafiar seus degraus, “voar” na amplitude do espaço e se equilibrar naquela suave curvatura.

Este ano de 2017 demarca os 90 anos de história deste primeiro monumento sul-americano à popularização do futebol. Também um monumento a exibir, com notável pujança, a força da colônia portuguesa na urbe carioca. Não são poucos os que o consideram um monumento a democracia racial, sendo este formidável equipamento uma resposta contundente e definitiva do Clube de Regatas Vasco da Gama às seguidas tentativas de sua exclusão do âmbito seleto da principal liga de futebol da cidade, a recém-fundada AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Atléticos). De fato, o Vasco foi o primeiro clube a sagrar-se campeão carioca com um time formado por negros e mulatos (e brancos pobres), todos remunerados, ainda que informalmente, desafiando o racismo e o ethos amadorista vigente. Mas a propalada Revolução Vascaína, convenhamos, não obstante sua incontestável relevância histórica, tem seus severos limites no fato de estarem aqueles pobres atletas subjugados pelo patronato branco. Sem democracia, portanto, muito menos racial. Mas tudo isto são detalhes diante do significado imenso deste estádio, marco definitivo de uma nova época na história social do futebol brasleiro.

Naquele ano de 1923, a conquista cruzmaltina abalou os alicerces do sistema futebolístico de então. A chave do retumbante sucesso do Vasco da Gama, sabemos, residia precisamente no elevado investimento financeiro da colônia portuguesa, que recrutava os melhores jogadores do subúrbio e os recompensava financeiramente. Desta maneira, o clube desafiava o hipócrita discurso amadorista reinante, segundo o qual o verdadeiro atleta praticava esportes por prazer, sociabilidade e princípio moral, mas nunca por dinheiro. Nas palavras de Arlei Damo (2007:78), “o Vasco da Gama escancarou o mecenato”. Este já existia, mas na forma camuflada, discreta. O desejo de obter vitórias, para inclusive satisfazer um nascente público torcedor pagante, impunha aos clubes a necessidade de exigir mais de seus atletas, em técnica e esforço. “Contratar” jogadores e estimula-los financeiramente ia se tornando a única via para melhorar o desempenho dos times.

Antes do Vasco, outros clubes suburbanos, como o Andaraí e o Vila Isabel, movidos pela mesma proposta (mas sem o grande aporte financeiro da colônia lusitana), já exibiam, na “primeira divisão”, performances preocupantes para os “donos da liga”, os clubes da Zona Sul que até então se revezavam na conquista dos títulos do certame municipal. Havia, fora deste circuito “hegemônico”, diversas Ligas Suburbanas, como a do Engenho de Dentro (com sua massa de trabalhadores ferroviários). O subúrbio emergia como universo futebolístico popular, vasto e vicejante desde a segunda década do século XX. O Vasco penetra este “mundo paralelo”, excluído, e dele recruta seus atletas. Cabe indagar se seria a localização do estádio uma estratégia de ampliação da popularidade do clube, até então sediado na Rua Moraes e Silva, na Tijuca. O tradicional bairro se industrializava e se popularizava, abandonando a fidalguia de outrora.

São Januário representava uma ruptura acentuada com o padrão locacional até então vigente para os estádios brasileiros. Segundo Fernando Ferreira (2004: 73-4), alguns fatores básicos intervieram na escolha do local:

O bairro de São Cristóvão perdera definitivamente qualquer resquício do outrora bairro imperial, aristocrático (…)assumira o papel de bairro industrial e proletário, passando a ser ocupado por uma população predominantemente de origem operária, com as antigas propriedades anteriormente pertencentes aos nobres e aos cidadãos mais abastados, sendo gradativamente substituídas por indústrias e pela população com menos recursos. A combinação entre a disponibilidade de grandes terrenos a preços acessíveis, nos “fundos” do bairro, com a facilidade de acesso proporcionada pelo transporte feito por bondes, somado à sua grande infraestrutura, ao nosso ver, parecem ter sido fatores determinantes para a escolha de São Cristóvão como sede para o imponente estádio do clube”.

Antes do surgimento do Maracanã, apenas dois estádios se destacaram no cenário nacional: São Januário e o Pacaembu. Assim que inaugurado, o estádio do Vasco da Gama assumiu a condição de maior estádio sul-americano, sendo porém, quase que imediatamente, ultrapassado pelo congênere argentino “Avellaneda”. A iniciativa vigorosa da comunidade luso-brasileira foi, senão o ponto de partida, certamente o gesto precursor da política de estádios gigantes no Brasil. O Pacaembu, por sua vez, inaugura a tradição de grandes estádios estatais em nosso país, peculiaridade marcante de uma forma de regulação e de controle das massas (convido a ler sobre a governamentalidade, por Arlei Damo, em sua última coluna aqui).

Inicialmente com capacidade oficial para 40 mil pessoas (cumpre frisar que outrora não havia, nos estádios e em outros espaços de aglomeração, o atual rigor da Defesa Civil, de forma que São Januário já acolheu até 60 mil torcedores), o estádio se tornaria, imediatamente, uma espécie de palco e vitrine para o populismo. Diversos políticos, com destaque para Getúlio Vargas, utilizaram o estádio para grandes manifestações cívicas, incluindo, pasmem, desfile de escolas de samba, no contexto do Estado Novo. Se as atuais arenas são saudadas por empresários e pela grande mídia como dotadas de condição “multiuso”, esta já se manifestava fartamente em São Januário, bem como, acreditamos, nos demais estádios que defino como “socialmente referenciados”, isto é, não geridos exclusivamente para fins mercantis.

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Assentos do estádio São Januário. Foto: Mídia Ninja (CC BY-NC-SA 2.0).

“Território hostil desde 1927”: uma severa advertência aos visitantes se anuncia em letras grandes num muro ao redor do estádio. De fato, “São Janu” sempre inspirou respeito e medo aos adversários. Eu mesmo, fanático por estádios, somente visitei (emocionado) a histórica Colina em 1996 ou 1997, quando já pesquisava academicamente o futebol. Àquela altura, já havia assistido partidas em pelo menos trinta estádios Brasil afora.

São Januário sempre fascinou os amantes do futebol e da cultura popular. Orientei certa vez uma monografia de graduação, de Marcelo de Cunha Matos, concluída em 2004, na UERJ, intitulada “O contexto da produção de um objeto geográfico na cidade e sua centralidade: o Estádio de São Januário”. A mesma virou livro com linda capa, intitulado “São Januário: um caldeirão no centro de um bairro”. E neste ano, a orientanda Krycia Perni concluiu com êxito sua dissertação de mestrado, comparando a velha colina com o novo Maracanã, em suas histórias e dinâmicas de uso. Há muito o que estudar em São Janu, antes que o mesmo seja demolido ou radicalmente reformado, ameaça que paira no ar.

A meninada corria, os gols aconteciam e a angústia cedia vez à vibração geral, com direito a coreografias diversas. Felipe, corintiano habituado à suntuosidade e elevado grau de controle de Itaquera, festejava surpreso a informalidade e espontaneidade reinantes. Foi então que comentei que estávamos diante de um “estádio selvagem” (pela debilidade do aparato normativo). Fernando sugeriu classificar aquele ambiente como uma “antiarena”. Boa ideia a ser desenvolvida. E que essa força (estranha, embora tão familiar) perdure.

Referencias

DAMO, Arlei Sander. Do dom à profissão: a formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Hucitec e ANPOCS, 2007.

FERREIRA, Fernando da Costa. O bairro Vasco da Gama: um novo bairro, uma nova identidade? Dissertação de Mestrado em Geografia. Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ: 2004.