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São Paulo, uma instituição que adoeceu por quem se considera maior que o clube

Caio Possati

A entrada na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro, após perder para o Flamengo no domingo (02/07/17), foi o fator determinante que levou a diretoria do São Paulo demitir Rogério Ceni do comando técnico da equipe tricolor. Além da já citada amarga 17ª posição no campeonato nacional, atingida por uma sequência de seis jogos sem vitória e dois pontos somados em 18 disputados, Rogério sai do São Paulo com um rendimento médio de 50% de aproveitamento, três eliminações no primeiro semestre e um acúmulo de mais erros do que acertos.

Entre análises e piadas que foram surgindo logo após o anúncio da demissão (por uma fria nota à imprensa), a única certeza que se pode alcançar, até agora, é que o São Paulo adoeceu. Na indecisão entre ficar ao lado de Leco ou de Rogério nesta história – onde não há vilão e nem mocinho – talvez seja melhor optar por nenhum deles. O clube e os torcedores, as verdadeiras vítimas, são gigantes que foram feridos pelos egos de um ídolo e de um ganancioso diretor.

Os dois erraram. E muito. Ceni se equivocou ao acreditar que estava pronto para assumir o time principal, sem sequer cogitar – pelo menos publicamente – a intenção de ficar à frente de times da base para adquirir experiência. Leco errou ainda mais ao recontratar o ex-capitão para o comando da equipe profissional, quando, na verdade, Rogério foi, nada mais nada menos, o trunfo do Presidente para vencer as eleições em abril.

Mas é preciso destrinchar as responsabilidades de cada uma das partes com mais detalhes. Começaremos com Rogério…

No início do ano, Ceni diluiu as desconfianças com entrevistas fundamentadas, treinos diferentes, investimento em jogadores da base e auxílio de europeus na comissão técnica, a ponto de fazer os torcedores tricolores acreditar que 2017 poderia ser um ano mais próspero em relação às irrelevantes temporadas anteriores. Seis meses depois, o maior ídolo da história do São Paulo deixa o Morumbi com o status de despreparado e às sombras de um trabalho decepcionante.

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A equipe vive a sua pior fase na temporada. A empolgação inicial de um esquema ofensivo, aliado a um time aplicado, veloz, com volume de jogo e goleador, deu lugar a uma equipe sem criatividade individual, lenta, previsível, pouco inspiradora e taticamente falha. O brilho do time que venceu o Santos na Vila, de virada por 3 a 1, foi se apagando a cada tropeço, e um inflado Rogério Ceni, nas versões de fevereiro e março, foi murchando a ponto de coletivas de imprensa pós-derrotas, marcadas pelas justificativas ilusórias para os reveses, concederem mais material de análise do que as próprias decepções do São Paulo em campo.

No entanto, se a paciência deve ser uma aliada aos projetos que aspiram um sucesso futuro, o desempenho do time de Rogério era inversamente proporcional ao tempo de trabalho. À medida que as semanas se passavam, menos poder de reação, criação e entrosamento apresentava o Tricolor durante as partidas. Foi neste mesmo período que o nível dos adversários foi crescendo e sinalizando que o futebol praticado pelo São Paulo estava, na realidade, mais próximo de ameaçar equipes regionais do interior paulista, do que superar os reais adversários da elite do futebol nacional.

Mas é fato também que, tratando-se de tempo, Rogério não conseguiu controlar tudo à sua volta nestes seis meses. Lesões de jogadores, desfalques por convocações para Seleções, supostas brigas internas, declarações infelizes à imprensa de atletas do elenco e, principalmente, uma série de vendas de titulares e peças fundamentais à equipe prejudicaram, e muito, o trabalho de Ceni.

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Leco, presidente do São Paulo Futebol Clube, é um dos principais motivos pela crise tricolor.

E é neste último ponto, inclusive, que expõe outro grande responsável pela degradante situação do clube: a diretoria. Na tentativa de sanar dívidas e aliviar as contas, os cartolas desintegraram a identidade do São Paulo – fortalecida pela imagem de uma instituição moderna, exemplar e vanguardista na área de gestão – e confundiram o clube com um varejo, onde vender e acumular tornaram-se princípios mais importantes do que a manutenção de uma equipe competitiva e com a possibilidade de conquistar títulos. Só neste ano, 21 atletas saíram e outros 15 chegaram ao clube, sendo muitos, tecnicamente bastante questionáveis.

Nesta rede de culpados, institucionalmente o São Paulo adoeceu. Entre a pressa de Rogério em assumir o clube que ama, e a gana de dirigentes de se manter no poder (que também tanto amam), o São Paulo se descolou de uma realidade necessária. Um afastamento do plano real que se manifestou na crença de Ceni em achar que estava preparado para ser técnico, e na entrevista coletiva do oportunista presidente Leco, na tarde de terça-feira (04/07/17), quando afirmou que a diretoria não deve ser responsabilizada pelos infinitos problemas que povoam o São Paulo e que jamais usou a contratação de Rogério como feito de campanha para a reeleição.

Apoiar a demissão de Rogério não é sinônimo de simpatizar-se com a diretoria, mas expressa a ideia de que ninguém, seja embaixo das traves usando luvas, à beira do gramado de roupa social, ou de paletó e gravata em salas de diretoria, é maior que o São Paulo Futebol Clube quanto instituição, história e representatividade.

Nesta fantasia de Titanic, onde se toca violino enquanto o navio afunda, Rogério Ceni já foi ao mar. Os dirigentes, por sua vez, seguem tocando a gestão na ilusão de que fazem um belo trabalho e isentos de culpa das fragilidades que o clube apresenta. Enquanto sobra soberba, falta hombridade e sobriedade a um São Paulo que, há anos, não consegue admitir que já não é mais o mesmo. As saudades das últimas décadas aumentam a cada ano.

A terceirização pelos fracassos já se tornou recorrente para esta diretoria e nem mesmo o maior ídolo da história do clube escapou deste vício. Os vexames não começaram com o Rogério Ceni e tampouco seria ele o antídoto para um mal que cresce a cada temporada. Enquanto esta diretoria persistir se portar de forma alheia à realidade, um futuro de insucessos continua sendo pavimentado pelos lados do Morumbi. E pela forma como a situação é conduzida, não sabe-se ainda se este caminho será o da primeira ou o da segunda divisão.