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A sexualidade determina o modo de torcer?

Wagner Xavier de Camargo

Logo no início de fevereiro, uma campanha inusitada do Rio Claro Futebol Clube fez muita gente se surpreender: o time, que disputa a Série A2 do Campeonato Paulista e com mais de cem anos de história, postou nas redes sociais (inclusive em sua página oficial no Facebook) uma foto do Estádio Schimidtão sob as cores do arco-íris contendo os dizeres “A Comunidade LGBT é bem-vinda no Estádio do Rio Claro FC”. A partir de agora, gritos homofóbicos e ofensivos da arquibancadas não serão tolerados. A iniciativa da campanha veio a partir de um grupo que é responsável por administrar as redes sociais do clube. Em que pesem argumentos contrários a ela ou mesmo taxando-a de midiática, a grande repercussão entre internautas (torcedores/as do clube ou não) mostra a importância de se discutir assuntos que envolvem o futebol de campo no Brasil e que muitas vezes são deixados de lado ou menosprezados. Independentemente do que motivou a campanha, convidar as pessoas que se consideram não alinhadas a uma heterossexualidade dominante (como lésbicas, gays, bissexuais, pessoas trans, intersexo, assexuais e queers) para comporem as arquibancadas e torcerem pelo futebol é, sim, digno de nota.

Foto Campanha Contra Homofobia Rio Claro FC

Foto Campanha Contra Homofobia Rio Claro FC.

Essa iniciativa se coaduna a um movimento mais amplo e que começou há muito tempo, qual seja, o de luta contra a homofobia institucionalizada no esporte e que encontrou no futebol de campo a sua expressão máxima, principalmente quando sempre se naturalizaram os gritos ofensivos contra jogadores, goleiros, técnicos ou árbitros em virtude de uma jogada ou decisão que, supostamente, desagradava a maioria de quem torcia. Gritos de “bicha”, “veado”, “filho da puta”, “queima rosca”, entre outros, não apenas agrediam quem era responsável pela ação em campo, como rebaixavam o status de humanidade daquelas pessoas, menosprezando ou negando suas existências.

Uma catarse coletiva ganhou popularidade na Copa do Mundo de Futebol Masculino, no Brasil, em 2014: dado atacante recebia a bola, driblava o zagueiro e a chutava para fora; junto com a decepção do não-gol, torcedores/as baixavam a cabeça e antecipavam algo grotesco, ou seja, no momento em que o goleiro adversário pegava a bola na linha de fundo e ia cobrar o tiro de meta, as pessoas nas arquibancadas atrás desse gol iniciavam um coro em uníssono “ôôôôôôôô” e, no exato momento em que o goleiro chutava a bola, vinha o grito de “bichaaaaa!”. Na referida competição apenas aconteceu o óbvio na reprodução de um gesto animalesco de desrespeito, que já vinha sendo repetido em outros momentos nos jogos do calendário futebolístico brasileiro. A que se esclarecer, entretanto, que isso não é característico do Brasil e que mesmo o México se portou dessa forma durante a Copa (os gritos de “puto” tinham a mesma função).

Aliás, mudam-se os tempos, mas não se mudam os hábitos. Mesmo antes da Copa, expressões homofóbicas sempre povoaram as arquibancadas e mesmo apareciam em rodas de conversa sobre futebol. As figuras do “homossexual afeminado”, da “machorra lésbica” torcedora, das “travestis” que se fizeram presentes nas vidas de alguns jogadores célebres serviam, indubitavelmente, como chacotas nas rodas de conversa de “machos torcedores” do esporte bretão. Uma informação que os faria rever seus pontos de vista vem das famigeradas estatísticas: o futebol de campo masculino é o esporte mais praticado no planeta e casos reconhecidos de atletas gays – que assumem ter desejos orientados a outros homens – ainda são raros e quase inexistentes. Mas, levando-se em contas tais estatísticas de presença desses indivíduos em outros esportes bem menos “populosos” por assim dizer, certamente se chega a um suposto número bem expressivo de jogadores que não se adequam a (ou apenas a) heterossexualidade normativa também no futebol. Eles vivem, entretanto, nas sombras e se escondendo – ou como se costuma dizer em termos mais técnicos, habitam o “armário da sexualidade”.

Além disso, só não percebe quem não quer o que acontece nas famosas festinhas privadas dos jogadores de grandes clubes, que possuem mansões, sítios e iates. Nessas ocasiões festivas rola muito mais do que somente o “bom e velho sexo heterossexual” entre homens e mulheres, no estilo papai-mamãe. O sexo compartilhado é a regra, da troca de casais às relações homoeróticas. Porém, o que acontece em tais momentos participa de uma “lógica do segredo”, que aprisiona a sexualidade no lugar “daquilo que não se fala”, mas sobre o qual se gosta de especular a respeito.

Torcedores e torcedoras devem ter em mente que a sexualidade de dado/dada jogador/a interessa sim ao contrário do que afirmam (“se gay ou não, o importante é jogar bem”). Isso porque a presença de outras sexualidades no esporte é política e mostrar que o meio esportivo não é só heteronormativo (edificado sob normas heterossexuais) tem uma função menos opressora. Contudo, isso tudo não deve, de forma alguma, impactar nos modos de torcer. Afinal, não apenas heterossexuais se fazem presentes em quadras, piscinas, tatames, campos e afins.

Àqueles/Àquelas que se sentem irritados com a arranhadura na imagem de ídolos que assumem orientações sexuais distintas, pergunto: desde quando a sexualidade de alguém determina o modo de desempenho no esporte ou desde quando ela estabelece o “modo padrão” de torcer?

Manifestação organizada pelo movimento Copa pra Quem?, na Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília, protesta contra a Copa do Mundo e pede mais direitos às mulheres e à população LGBT em 2014. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil.

Manifestação organizada pelo movimento Copa pra Quem?, na Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília, protesta contra a Copa do Mundo e pede mais direitos às mulheres e à população LGBT em 2014. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil.

Não importa se o público LGBT é pequeno em Rio Claro ou se, segundo o senso comum, eles/elas “não gostam de futebol”. O que é louvável na ação do Rio Claro FC são duas pressuposições essenciais: primeiro, a de que os valores humanos de respeito à diversidade (raças, crenças, classes e, sobretudo, gênero) devem ser assegurados, o que garante nossa humanidade em tempos de barbárie, e segundo, a de que há diversificados outros segmentos sociais que gostariam de ser convidados a num estádio de futebol e que serão bem-quistos nesse espaço.

Apesar de ser simpático ao outro clube da cidade (o Velo Clube Rioclarense), parabenizo ao Rio Claro FC pela iniciativa tanto por eu ser natural de lá, quanto por ser pesquisador da área de gênero e sexualidades nos esportes. São exemplos como esse que nos colocam no caminho de mudar mentalidades e velhas concepções sobre corpos e gêneros no mundo esportivo.

É em homenagem à iniciativa do “Azulão” (como o Rio Claro FC é conhecido), que deixo o fim do seu hino para que nos inspire a ter mais visões ecléticas no futebol de campo e também em outros esportes:

 

(…)

O teu passado te enobrece
O seu presente é uma glória
No futuro resplandece
O esplendor de sua história
Em cada cor que fulgura
No seu nobre pavilhão

É o timbre da bravura

Que te sagra campeão

(…)

Que todas as cores do arco-íris enobreçam ainda mais o Azulão e desejamos longa vida de permanência à comunidade LGBT nas arquibancadas de seu estádio e nas arenas esportivas desse país.