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Streapco viu além da bola

Plínio Labriola Negreiros

Desde quando comecei a pesquisar sobre a história do futebol, tento, minimamente, me manter atualizado sobre o que se escreve e se publica, entre dissertações, teses e livros, sobre o tema. Não sei precisar o momento em que esse cuidado se tornou uma tarefa bem difícil, entre outras razões, por uma relativamente simples: multiplicou-se, e muito, os trabalhos acadêmicos sobre futebol e os livros não necessariamente derivados de trabalhos pós-graduados. Corrobora com essa dificuldade a minha condição de não trabalhar organicamente na universidade. A isso se soma o pouco tempo que me resta para leituras que não estejam diretamente relacionadas com o meu oficio de professor de História no Ensino Médio.

Mas como a história do futebol é apaixonante, em especial a que envolve o Corinthians Paulista (objeto da minha dissertação de mestrado, defendida em 1992), há trabalho que a leitura se torna obrigatória. No início de 2017 consegui um exemplar da obra Cego é Aquele que só Vê a Bola: O Futebol Paulistano e a Formação de Corinthians, Palmeiras e São Paulo, do historiador (e corinthiano!) João Paulo França Streapco. Esse trabalho nasceu como uma dissertação de mestrado, defendida em 2011, na FFLCH-USP. Neste ano de 2017, no qual se celebrou o centenário das disputas entre Corinthians e Palmeiras, a leitura do livro do Streapco caiu como uma luva.

O recorte é bem inusitado porque pensa a história do futebol em São Paulo a partir da formação do chamado Trio de Ferro: Corinthians, Palmeiras e São Paulo. De fato, a rivalidade não permite que um clube possa se ver sem a referência do outro. Existem as rivalidades perenes e as ocasionais, como a que em São Paulo, nos anos 1950 e 1960, será posta com a forte presença do Santos de Pelé e companhia. De qualquer forma, a obra vê, com muita acuidade, entre esses três clubes do Trio de Ferro, mais aproximações do que distâncias. Na parte II, “Formou-se o eixo do futebol paulistano”, a trajetória de cada uma dessas agremiações é bem apresentada e alguns mitos são desmontados. Os títulos dos capítulos sobre cada um dos clubes em análise constituem-se em perguntas retóricas com o claro objetivo de desmontar “tradições inventadas” sobre os times paulistanos. Ou seja, “Sport Club Corinthians Paulista: O único time das massas?”; “Sociedade Esportiva Palmeiras: O time unificador da colônia italiana em São Paulo?” e São Paulo Futebol Clube: O time herdeiro do futebol elitista do início do século XX?”.

Por mais que eu não concorde com todas as conclusões acerca da comparação sobre as origens e os caminhos do Trio de Ferro – ainda penso o Corinthians Paulista como a agremiação mais próxima dos anseios populares e daqueles de alguma forma excluídos, dentro de uma cidade organizada para excluir – não foi o que mais me chamou a atenção. Gostei muito dos corpos bibliográfico e documental. Em outro artigo, “Procura-se a memória do futebol paulista” publicado neste mesmo espaço, trato das dificuldades em ter acesso a documentos sobre as origens do Corinthians e o futebol em geral. Hoje, por parte dos clubes e das entidades do futebol, há um pouco mais de cuidados com a história e a memória. No início dos anos 1990, a realidade era outra. Por isso, a partir das minhas dificuldades, olhei com muita acuidade para as soluções encontradas pelo Streapco.

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Imagem da capa do livro de Streapco.

A bibliografia é bem ampla. Há um diálogo crítico com as produções, recentes ou não, sobre o futebol e os esportes em geral, assim como sobre a cidade de São Paulo. Em relação ao amplo corpo documental pesquisado, destaco o uso bem interessante dos periódicos. Nesse material, Streapco recolheu-se as histórias que foram contadas pelos e sobre os clubes. A Gazeta, e o seu suplemento A Gazeta Esportiva, que depois ganhou autonomia, foram muito bem exploradas. Esse jornal, por causa de alguns articulistas, caso de Thomaz Mazzoni, tinha um interesse especial na história dos clubes de São Paulo. Esse interesse gerou uma série de obras sobre a história do futebol, como o clássico a História do Futebol no Brasil (1894-1950), publicado em 1950. Dessa forma, garimpou-se inúmeras informações e olhares sobre o Trio de Ferro e o futebol na cidade de São Paulo a partir de um olhar retrospectivo. Ou seja, além de encontrar textos jornalísticos sobre um acontecimento de época, há relatos memorialísticos que criam e consolidam fatos históricos. Parte considerável do que se conhece sobre futebol tem base nessa quase mitologia criado pelos cronistas esportivos, o que foi bem lembrado e analisado por Streapco. Há um verdadeiro mergulho nessa fonte tão preciosa, que é o periódico.

Nesse sentido, peço licença para uma digressão pertinente. Há um autor que merece a atenção dos pesquisadores: Wilson Gambetta, como autor nos oferece A bola rolou – o velódromo paulista e os espetáculos de futebol (1895/1916), publicado em 2015, que, entre tantas qualidades, mostra outra forma de se pensar as origens no futebol em São Paulo, ressaltando o papel da família Prado nesse processo, além da forte presença de uma tradição francesa e católica nesse mesmo processo. Gambetta também faz a organização de Primeiros passes: Documentos para a história do futebol em São Paulo (1897-1918), publicado em 2014, pela Biblioteca Mário de Andrade e pelo Ludens, com textos fac-símiles de Hans Nobiling, Luiz Fonseca, Antônio Figueiredo e Mario Cardim, as primeiras obras sobre futebol em São Paulo e no Brasil. É muito rica a contextualização e análise que o organizador faz de cada um desses pioneiros das letras do futebol.

Enfim, a escolha e a navegação por um recorte inédito para se pensar a construção do futebol na cidade de São Paulo e a boa utilização de uma documentação dispersa tornam a obra Cego é Aquele que só Vê a Bola uma leitura necessária para quem pesquisa e para quem gosta da história do futebol. Streapco já é uma referência para quem quer entender o futebol em São Paulo.