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Cronologia das torcidas organizadas (V): TUP – Torcida Uniformizada da Sociedade Esportiva Palmeiras

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, Raphael Piva Favelli Favero

Nota explicativa. Esta série é parte integrante do projeto “Territórios do Torcer – uma análise quantitativa e qualitativa das associações de torcedores de futebol na cidade de São Paulo”, desenvolvida entre os anos de 2014 e 2015, com o apoio da FAPESP. A pesquisa foi realizada em parceria pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), equipamento público vinculado ao Museu do Futebol/Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Nesta seção, será apresentado um total de 12 torcidas organizadas da cidade de São Paulo. O propósito informativo desta série é compartilhar breves apontamentos cronológicos sobre a história e a memória das associações de torcedores paulistanos. Os dados aqui fornecidos foram de início a base para a montagem de um roteiro de perguntas que serviu à gravação dos depoimentos de fundadores e lideranças das respectivas agremiações torcedoras, tal como ilustram as fotos que acompanham os textos.

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A Societá Sportiva Palestra Italia foi fundada a 26 de agosto de 1914. Sob inspiração da excursão realizada pelas equipes italianas Torino e Pro-Vercelli, um grupo de jovens divulgou, através do jornal Fanfulla, órgão de imprensa voltado aos imigrantes italianos, um convite aos interessados em fundar uma agremiação esportiva que representasse a colônia na cidade de São Paulo. Após algumas reuniões, o Palestra Itália foi oficialmente fundado, no hoje extinto Salão Alhambra, na região da Praça da Sé, em presença de 46 testemunhas, em sua maioria funcionários das Indústrias Matarazzo.

Junto à cronologia do clube, a memória de seus aficionados mais emblemáticos remonta a 1920, precisamente ao dia 26 de agosto, data da fundação do Palestra Itália, quando nasce o italiano Giovani Capalbo, vulgo “João Gaveta”, que se tornaria torcedor-símbolo da agremiação.

Após o processo de popularização, em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, um decreto do governo Vargas proíbe a qualquer entidade o uso de nomes relacionados aos países do Eixo. A Societá Sportiva Palestra Itália passa então a se chamar simplesmente Sociedade Esportiva Palmeiras. Ademais, segundo registros históricos, a final do Campeonato Paulista de 1942 teria sido a primeira partida nos estádios de Giovanni Capalbo, o “João Gaveta”, célebre torcedor da agremiação nas décadas seguintes.

Em 1951, o Palmeiras vence a Juventus da Itália no Maracanã, diante de um público de mais de 100 mil pessoas e conquista o Torneio Internacional de Clubes Campeões – Copa Rio – uma das primeiras competições de clubes de abrangência intercontinental, organizada pela CBD, com aval da FIFA e patrocínio da Prefeitura do Rio, após o encerramento da Copa do Mundo de 1950. À época, a escalação do Palmeiras na final foi assim composta por: Fábio; Salvador, Juvenal; Túlio, Luís Villa, Dema; Lima, Ponce de León (Canhotinho), Liminha, Jair da Rosa Pinto e Rodrigues; Treinador: Ventura Cambon (Uruguaio). Naquele mesmo ano de 1951, nasce Wanderley Matheus Rodak, filho de um libanês e uma italiana, que viria a ser presidente da TUP nos anos 1980.

Nos anos 1960, assiste-se à formação da “Academia”, apelido dado pela imprensa e pelos torcedores nas décadas de 1960 e 1970 ao Palmeiras. A justificativa era a excelência de suas equipes, talentosas e com notável desempenho esportivo. Nesse período, o clube conquistou mais de 10 títulos, entre torneios regionais e nacionais, a exemplo do Campeonato Paulista (1959, 1963, 1966, 1972 e 1974), da Taça Rio-São Paulo (1965), da Taça Brasil (1960 e 1967), do Robertão (1967 e 1969) e do Campeonato Brasileiro (1972 e 1973).

Dentre os treinadores vencedores do período da Academia, mencionem-se 4 deles: 1. Osvaldo Brandão – campeão do Campeonato Paulista (1959), campeão da Taça Brasil (1960), campeão do Campeonato Paulista e do Campeonato Brasileiro (1972),  campeão do Campeonato Brasileiro (1973),  campeão do Campeonato Paulista e do Troféu Ramón de Carranza (1974); 2. Mário Travaglini – campeão do Campeonato Paulista (1966), campeão da Taça Brasil (1967); 3. Rubens Minelli – campeão do Torneio Roberto Gomes Pedrosa (1969); e 4. O argentino Filpo Nuñez – campeão do Torneio Rio-São Paulo (1965).

Em 1968, segundo Luiz Pereira Pinho, presidente da TUP no final da década de 1970, em depoimento ao Centro de Referência do Futebol Brasileiro/Museu do Futebol, já existia o embrião do que viria a ser a TUP, isto é, um grupo de fundadores da torcida, frequentadores assíduos dos estádios.

A fundação se concretizaria em 29 de novembro de 1970, data oficial de criação da TUP. Tratava-se então de pessoas ligadas ao clube, muitos deles ainda estudantes, além de outros moradores do bairro da Pompéia, em sua maioria italianos ou descendentes. Dentre os fundadores estavam figuras conhecidas no universo do futebol, como o técnico Mário Travaglini, o repórter Roberto Silva e Mário Genovese, diretor do Palmeiras. Nas palavras de Wanderley Matheus Rodak, presidente da torcida na década de 1980, era possível identificar três grandes grupos presentes na fundação e nos primeiros anos da torcida: a “italianada da Pompéia”, a “italianada do Brás” e os alunos do colégio Dante Alighieri.

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Torcida Uniformizada do Palmeiras. Foto: Acervo CRFB/Museu do Futebol.

Em 1974, já com a TUP em atividade, o Palmeiras conquistou o título do Campeonato Paulista, após vencer na final o rival Corinthians, que com a perda do título completava 20 anos de jejum. Por seu turno, o título do Campeonato Paulista de 1976 é o último conquistado pelo Palmeiras antes de uma longa fase sem conquistas, que durará até 1993.

Na década de 1980, a torcida do Palmeiras, em resposta às ofensas dos adversários, resolve adotar o apelido de “porco”. Entre os palmeirenses, o animal substituiria com o tempo o tradicional mascote do clube, o periquito, símbolo criado nos anos 1940 e estilizado como personagem de histórias em quadrinhos.

No decênio de 1980, a TUP conquista, por três anos consecutivos, o troféu “Gandula”, concurso criado pelo jornalista e comentarista esportivo Wilson Brasil. A agremiação é assim condecorada como a “torcida mais vibrante”. Tal designação passaria a ser dada pelos palmeirenses à torcida alviverde como um todo e é mantida até hoje.

Os anos 1980 assistem à mudança no perfil de comportamento da torcida do Palmeiras: “Antes pacíficos, os palmeirenses se reúnem em falanges, brigadas, comandos. E superam em agressividade todas as torcidas adversárias” (Revista Placar – 15/03/1985). Ainda segundo o periódico da editora Abril: “A torcida do Palmeiras cansou de ser boazinha”, testemunha à revista José Bernardo Cambler Nava, de 22 anos, estudante de Geografia da PUC, presidente da torcida Brigada Verde, fundada em 21/05/1983.

José Bernardo explica o nome da torcida de que é presidente. Trata-se de um lema de guerra. Em contrapartida, diferentemente de seu grupo, lembra que a TUP pregava o amor nos estádios, mas só se “prejudicava” com isso. “A gente saía sempre machucado. Resolvemos dar um basta nisso”. Entre as outras torcidas do Palmeiras surgidas à época, pode-se listar: os Boinas Verdes, a Mancha Verde, a Falange Verde, o Comando Alviverde, a Brigada Verde (inspiração na Brigate Azzurri, da Sampdoria-ITA). Mudança visível de referências e comportamentos expressa nos nomes das torcidas.

Desses agrupamentos, destacar-se-ia a Mancha Verde, fundada em 11 de janeiro de 1983, que se tornaria a maior torcida organizada do Palmeiras, fruto da fusão das torcidas Império Verde, Inferno Verde e Grêmio Alviverde.

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Bandeirão da TUP. Foto: Acervo CRFB/Museu do Futebol.

Em visita da equipe de pesquisadores do Museu do Futebol à sede da TUP, em 2012, o ex-presidente Luiz Pereira Pinho contou sobre suas lembranças a respeito dessas ações violentas nas torcidas organizadas. Para o entrevistado, as brigas se iniciaram em meados dos anos 1980, quando a liderança na administração das torcidas mudou e líderes mais jovens passaram a comandá-las. Isso fez com que brigas marcadas, valendo-se de paus e bombas caseiras, passassem a fazer parte do universo e do cotidiano das torcidas organizadas. Bem diferente do que Pinho detectava como compromisso da TUP e da geração de torcidas de times adversários do Palmeiras. Em seu discurso, torcer pelo time era até então o principal compromisso destes torcedores. Hoje, muitos deles integram a Velha Guarda destas torcidas.

Entre os anos de 1980 e 1985, Wanderley Matheus Rodak torna-se presidente da TUP. A torcida era então a maior agremiação de torcedores palmeirenses e contava com 4 mil componentes. Neste período, Rodak participa do Congresso Mundial de Torcidas, evento inédito, realizado em Roma. Para a Revista Placar, o líder da TUP declarou: “ – Todo mundo contou que as brigas existem por todo canto. Contaram de um jogo entre Roma e Lazio, em que destruíram estátuas que existiam nas proximidades do estádio. Olha: não adianta nada dizer que torcedor europeu é mais civilizado. Torcedor é torcedor”.

Ainda à Revista, o tranquilo e veterano torcedor relata: “– Sabe o que acontece? Hoje, uma torcida precisa de nome de guerra. Não fica bem você criar um grupo e botar o nome de Passarinho Verde ou Flor Verde”, ironiza. “Os tempos mudaram. Nós, quando criamos a TUP, tínhamos todo um procedimento: todos tinham de usar calças e sapatos brancos, e a camisa verde. Hoje não dá mais para se pedir isso”. Se perdeu em organização e beleza, a torcida palmeirense ganhou em violência. É a mais “feroz” de São Paulo: “Durante muito tempo, ela foi educada e bem-comportada. Mas as outras torcidas achavam que era covardia. Então, mudamos – tivemos de acompanhá-las. São sinais dos tempos”, comenta Mateus.

Em 1984, no dia 30 de novembro, falece João Gaveta, torcedor-símbolo do clube, enterrado em um túmulo pertencente ao próprio Palmeiras, no cemitério do Araçá. No futebol, em 1986, mais precisamente no dia 3 de setembro, o Palmeiras perde a final do Campeonato Paulista para a Internacional de Limeira e completa uma década sem conquistar títulos. Na escalação do time, encontravam-se: Martorelli; Diogo (Ditinho), Márcio, Amarildo e Denys; Lino (Mendonça), Gérson Caçapa e Jorginho; Edmar, Mirandinha e Éder. Técnico: Carbone.

Desde 1989, a TUP passa a participar dos desfiles oficiais do carnaval de São Paulo, organizando-se de início como um bloco carnavalesco. A agremiação foi campeã em 1992 e, mais recentemente, em 2003. O vice-campeonato foi obtido em outras oportunidades, como em 1994 e 1997.

No contexto futebolístico, em 1993, o Palmeiras quebra o jejum de 17 anos sem títulos. Para tanto, vence o campeonato paulista contra o arquirrival Corinthians, dando início a uma década vitoriosa nos gramados, a exemplo dos seguintes títulos regionais, nacionais e internacionais: Copa Libertadores da América: 1999; Copa Mercosul: 1998; Campeonato Brasileiro: 1993 e 1994; Copa do Brasil: 1998; Torneio Rio-São Paulo: 1993; Campeonato Paulista: 1993, 1994 e 1996.

Nesse período, entre os técnicos vitoriosos do clube, estavam: Vanderlei Luxemburgo: 1993, campeão do Campeonato Paulista, do Torneio Rio-São Paulo e do Campeonato Brasileiro; 1994, campeão do Campeonato Paulista e do Campeonato Brasileiro; 1996, campeão da Copa Euro-América e do Campeonato Paulista. Já sob o comando de Luiz Felipe Scolari, consta o seguinte retrospecto vitorioso: 1997, campeão da Taça Maria Quitéria e do Troféu Naranja; 1998, campeão da Copa do Brasil e da Copa Mercosul; 1999, campeão da Copa Libertadores da América.

Em 1999, a Sociedade Esportiva Palmeiras é intitulada a “Campeã do Século XX”, de acordo com rankings de diferentes instituições e veículos da mídia, tornando-se a equipe brasileira “mais vitoriosa do século”.

Mas tal entusiasmo reflui na primeira década do século XX. Em 2002, o Palmeiras é rebaixado pela primeira vez para a segunda divisão do campeonato brasileiro. Dos títulos conquistados na década, salientem-se três: a Copa dos Campeões de 2000, o Torneio Rio-São Paulo de 2000 e o Campeonato Paulista de 2008. Dos técnicos vitoriosos do clube no período, vale apontar: Luiz Felipe Scolari, em 2000, com o Torneio Rio-São Paulo; Murtosa, também em 2000, com a Copa dos Campeões; Jair Picerni, em 2003, com o Campeonato Brasileiro Série B; e Vanderlei Luxemburgo, em 2008, com o Campeonato Paulista.

Em 2009, vinte anos após a sua criação, o bloco carnavalesco da TUP transformou-se em escola de samba. Sua estreia se deu no grupo de acesso da UESP – União das Escolas de Samba de São Paulo –, equivalente à 6ª divisão do carnaval paulistano. Em seu primeiro desfile como escola de samba, sagrou-se campeã. No ano seguinte, garante o acesso ao grupo 2 e consegue o vice-campeonato. Em 2011, consegue a terceira colocação e adquire o direito de participar do Grupo 1 em 2012. Neste ano, fica apenas com o nono lugar, mas consegue a permanência no grupo. Já em 2013, a TUP tem mau desempenho e acaba sendo rebaixada.

Em 2010, Wanderley Matheus Rodak, ex-presidente da TUP, é citado em reportagens da mídia, por ocasião da Copa do Mundo da África do Sul. Trata-se de matérias sobre os torcedores palmeirenses, reunidos na sede da associação da tradicional festa de San Vito, no bairro do Brás, da qual Rodak é organizador, para apoiar a seleção italiana de futebol.

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O ex-presidente Luiz Pereira Pinho durante em entrevista no Museu do Futebol em 2012. Foto: Acervo CRFB/Museu do Futebol.

Desde 2010, o estádio Palestra Itália (Parque Antártica) não recebe mais jogos. Na esteira dos megaeventos esportivos, passa por uma profunda modernização arquitetônica e se transforma no Arena Allianz Parque. A obra vem a ser concluída no ano de 2014 como espaço multiuso privado, destinado não apenas à prática do futebol, mas a um calendário de shows internacionais. Ao mesmo tempo, o ano de 2014 é simbólico, pois o Palmeiras comemora o seu centenário de fundação. Durante esse período sem jogar em seu estádio o Palmeiras conquista a Copa do Brasil jogando no Pacaembu, mas volta a ser rebaixado para a série B do Campeonato Brasileiro em 2012.

No relato de campo da visita do CRFB à sede da TUP, em 2012, observa-se que várias festas de aniversário da torcida eram realizadas no Circolo Italiano, das quais integrantes do clube e da torcida participavam. Nessas festas, além de uma homenagem ao artilheiro do Palmeiras na temporada, uma eleição entre os membros da TUP homenageava também um jogador de um time adversário, que não raro comparecia à festa e era homenageado junto com o atleta do Palmeiras.

Segundo o relato de campo da visita do Centro de Referência do Futebol Brasileiro/Museu do Futebol à TUP, em 2012, para se associar à torcida é necessário ir à sede do grupo e pagar uma taxa de inscrição de R$ 15,00 (quinze reais). A carteirinha de sócio é emitida no ato, em processo similar ao sistema de emissão do Bilhete Único de transportes na cidade de São Paulo. A venda de produtos associados ao time e à torcida geralmente garante o combustível do “Navio Pirata”, apelido do ônibus que leva a torcida aonde for necessário. Quando falta dinheiro para o deslocamento, em geral o valor é rateado entre os torcedores. As estimativas são de que a TUP atualmente tenha cerca de 2.000 (dois mil) torcedores afiliados. Capitais como Cuiabá, Aracaju e Recife foram lembradas por terem subsedes do agrupamento.

A primeira sede da TUP era uma sala alugada na Rua 24 de Maio. Esta, rapidamente, se tornou ponto de encontro de muitos palestrinos. Apesar de seus fundadores serem em sua maioria da colônia italiana, a TUP foi aberta a todos, o que proporcionou o crescimento da torcida. Com o tempo, porém, houve a necessidade de um maior espaço. A sede da TUP foi transferida para a Rua Barão de Paranapiacaba. Dali, mudou de sede novamente, dessa vez para Rua Padre Antônio Tomás. De lá, transferiu-se para a atual sede, na Praça Luiz Carlos Mesquita.