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Um palco sem chuteiras e bandeiras

Marco Lourenço

No último domingo, uma multidão estimada de 100 mil pessoas ocupou as ruas em torno do Largo da Batata, São Paulo. O ato #SPDiretasJá faz parte da agenda do Coletivo Diretas Já, que exige a saída de Michel Temer da presidência e a convocação de eleições diretas.

O evento que reuniu artistas, cantores, intelectuais e algumas lideranças da militância civil progressista, como Guilherme Boulos e Carina Vitral, recebeu uma tímida cobertura da grande mídia, como esperado. Mesmo a peculiar e perigosa diretriz do ato, que proibiu a exibição de bandeiras partidárias, não tornou a manifestação matéria interessante para a narrativa política disseminada pelo oligopólio da comunicação.

A grande catarse e comunhão proporcionadas pelos shows de Criolo, Emicida, Tulipa Ruiz, Mano Brown e muitos outros, no entanto, tem poucas semelhanças com a campanha das Diretas de 1984. Em especial, duas características deste emblemático 04 de junho merecem ser destacadas: (1) a motivação histórica e (2) a ausência de atores esportivos.

04/06/2017- São Paulo- SP, Brasil- Show- Ato pelas Diretas Já no Largo da Batata.  Foto: Paulo Pinto/AGPT

04/06/2017- Show- Ato pelas Diretas Já no Largo da Batata em São Paulo. Foto: Paulo Pinto/AGPT.

Palco sem bandeiras

Após 20 de vigência, o regime militar já parecia entrar nos acréscimos. A famosa abertura “lenta, gradual e segura” promovida por Ernesto Geisel (1974-1979) restaurou a pluralidade partidária e a repressão à atuação sindical se enfraquecia. O grito sufocado de liberdade ganhou a força fundamental para se tornar uma voz coletiva com a crescente inflação que arrasta o país para uma grave crise nos anos 1980.

A democracia em perspectiva trazia a grande esperança compartilhada entre aqueles que reivindicavam poder jogar na política, escolher seu candidato ou partido de preferência, e entre aqueles que levantaram tardiamente motivados pela insatisfação com os rumos da economia do país.

O ato convocado neste último domingo, por sua vez, afasta as bandeiras partidárias, em mais um clímax da crise de confiança e legitimidade da classe política, em especial, os próprios partidos. Este é um pressuposto que distancia as narrativas de 1984 e 2017. De um lado, o ato deste domingo possui uma esquizofrenia intrínseca: como exigir eleições diretas amparados dentro de um regime pluripartidário banindo os próprios partidos que apresentariam os possíveis candidatos?

Por outro lado, as lideranças envolvidas com o Coletivo Diretas Já defendem a ideia de que é preciso estabelecer um pacto na sociedade, uma pacificação social urgente, num momento em que a polarização rasteira inflamada pelos meios de comunicação e redes sociais possa ser abrandada por um consenso – as diretas -, ainda que temporário.

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Os jogadores Wladimir e Sócrates dividem o palanque com os jornalistas Juca Kfouri e Osmar Santos.

Palco sem chuteiras

O segundo aspecto que diferencia as diretas de 1984 e 2017 é a ausência de atores do mundo esportivo, em especial o futebol, modalidade mais popular do país. Claro, o processo histórico compreendido nos anos 1980 envolve um fenômeno absolutamente ímpar no Brasil – a democracia corinthiana. (Saiba mais aqui).

Há quem lamente a historicidade tão peculiar de um personagem como Sócrates, cuja presença de um substituto, ainda que com muitos maracanãs de distância, seria inimaginável. No entanto, outras ausências oriundas do universo do esporte são sensíveis e ajudam a traduzir a especificidade deste período. Com exceção de José Trajano e Juca Kfouri, a imprensa esportiva pouco tem se posicionado diante desta matéria. A insegurança dos homens da comunicação passa pela descrença em mudança, mas fundamentalmente está ligada a um pragmatismo profissional: manifestar-se, seja pra qual direção for, é correr o risco de absorver as possíveis críticas e perder seu “capital profissional”.

Além disso, um setor importante da população mobilizada na campanha de 1984 não esteve presente nesta fase das manifestações de 2017. As Torcidas Organizadas ocuparam um papel importante nas arquibancadas e nas ruas em 1984, incrementando em volume, mas também como uma representatividade popular legítima.

Palco sem chuteiras e bandeiras

No palco de 2017, a intolerância e incapacidade de convergência e diálogo produziram uma força social no mínimo confusa. Diante da inegável ilegitimidade de um presidente que ascendeu após um golpe jurídico, estamos diante de um complexo cenário que divide até mesmo aqueles que sempre lutaram lado a lado.

A falta de pragmatismo é sintomático perante a batalha de discursos comumente autoritários que possuem raramente alguma autoridade. Grupos historicamente aliados ao governo petista se sentiram traídos – o que é difícil de contestar – e não combateram o golpe a Temer. Agora, após a pirotecnia midiática e jurídica, aqueles que combateram o assalto à democracia brasileira, invocam uma nova cambalhota legal, exigindo eleições diretas que não estão previstas em constituição.

04/06/2017- São Paulo- SP, Brasil- Show- Ato pelas Diretas Já no Largo da Batata.  Foto: Paulo Pinto/AGPT

04/06/2017- Cartazes #querovotar! Diretas Já apareceram no largo da Batata. Foto: Paulo Pinto/AGPT.

Evidentemente, a questão é demasiado complexa e carece de diversas ponderações que não foram apresentadas aqui. Mas chama atenção o desgoverno que a conspiração jurídica-midiática – e não vamos esquecer dos interesses externo, como sempre – encontra o desgoverno proporcional em sua oposição, nas ruas.

Não por acaso, a fragmentação coexistente à polarização forjada se aflora quando a unanimidade #ForaTemer ganha força. O passo seguinte é ocupar o lugar do mocinho na narrativa romântica que vai salvar o Brasil. E as disputas são surreais: como aceitar um indivíduo como Jair Bolsonaro em um debate público, mesmo ele sendo um declarado apoiador da ditadura, censura e tortura?

Neste debate público, os heróis marcantes de outrora na história brasileira sempre se ligaram ao universo de nossa cultura popular, como o futebol. Diferentemente de 1984, o futebol parece estar alheio à sua vocação de alucinar multidões. Além do modesto e restrito esforço do movimento Bom Senso FC – dedicado às pautas da modalidade -, não há experiência expressiva e organizada de engajamento político progressista advindo de clubes, atletas ou mesmo as organizadas nos últimos anos preocupadas com os rumos da política nacional.

Nas últimas décadas, atletas e dirigentes de clubes passaram a fazer parte da classe política, embora pouco atuantes em seu nicho de origem, o esporte. E claro, não esqueceremos das surreais manifestações pró-impeachment da presidenta eleita Dilma Roussef, orquestradas e promovidas por diferentes grupos opositores, clamavam o combate à corrupção devidamente vestidas com camisas da CBF – um grande exemplo para o Brasil! (1) Me perdoem a ironia; (2) Você certamente também deve estar lembrando de Jadson e Felipe Melo.

No palco das diretas de 2017, não temos chuteiras. Elas não substituem as bandeiras – essas sim, indispensáveis para o jogo democrático. Mas insisto: precisamos de chuteiras? Não se trata de isolar os jogadores, historicamente estigmatizados e desqualificados na esfera política, e tampouco sustentar o discurso da “pátria de chuteiras”. Afinal, o ponto é: a vontade popular só é legítima com a participação de todos.

Nossa democracia tem febre alta e alucina.