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Um retrato em branco e preto do futebol brasileiro

Marcos Alvito

(da série Leituras para pensar o futebol)

Um menino alto e franzino sai de casa definitivamente aos 14 anos para tentar a vida como jogador de futebol. Passa a morar num alojamento onde divide o quarto com mais 12 ou 13 rapazes, vindos de todas as regiões do país. Participa de treinos duros, que em dez dias irão decidir quem fica e quem é mandado embora. É matriculado numa escola noturna de péssimo nível. Banho frio, mesmo em se tratando do São Paulo Futebol Clube. Mais tarde, o atleta, já realizado e bem-sucedido, indaga:

“por que eu e tantos outros tivemos que passar tanto tempo ali dentro, alojados, concentrados? Por que treinar em dois períodos nessa idade, tão jovens? Será que o corpo não pagará caro por isso na idade adulta? Por que se especializar em uma área e deixar todo o resto de lado?”

A conclusão a que chega é impiedosa:

“Na minha cabeça, éramos tratados como cavalos que comem e descansam bem para depois correr.”

jogodaminhavidaQuestionamentos deste tipo são frequentes em O jogo da minha vida: histórias e reflexões de um atleta. Seu autor é Paulo André, ex-zagueiro do Corinthians e neste momento em que escrevo jogador do Atlético Paranaense. Afirmo sem medo que é um dos livros mais importantes já escritos sobre o futebol brasileiro. Já temos boas análises provenientes das ciências sociais, da história e de muitas outras áreas. Mas temos uma carência imensa de relatos de jogadores. Temos biografias exaltando carreiras vitoriosas, mas não uma narrativa como a de Paulo André, que escancara e analisa criticamente todo o processo de formação de um jogador de futebol profissional. Uma história contada com muita sinceridade e coragem.

Lendo o livro, percebemos que nem tudo é fruto de dedicação e talento. Algumas decisões são cruciais. Paulo André conta de forma bem humorada como ele fez para permanecer no juvenil do São Paulo. Ele treinava como meia-direita e o clube iria selecionar 30 jogadores de um total de 64, ou seja: mais da metade seriam dispensados. Haveria uma semana de treinos coletivos antes da escolha. Ele percebe que os melhores jogadores do time eram exatamente os meias, dentre eles um magrelo alto, muito bom fisicamente também, chamado Kaká. Sendo assim, se apresenta ao auxiliar técnico que não o conhecia como zagueiro, posição que ele achava chatíssima. O resto é história.

O livro não foge de assuntos polêmicos. Como o primeiro empresário, aos 16 anos, em quem Paulo André e seu pai depositavam esperanças de progresso na carreira. Impressionados diante do escritório cheio de fotos com grandes jogadores, inclusive de seleção e com a conversa do empresário, acaba saindo de lá com um contrato em que aceitava destinar 20% de tudo que ele ganhasse. O empresário inclusive dizia que logo o garoto iria se transferir para a Europa e que ele era “dinheiro em caixa”. Depois, conversando com outros companheiros de clube, descobriu que o tal agente era famoso por contar lorotas e falsas promessas, sempre mostrando aos garotos uma pasta cheia de dinheiro para impressionar, trazendo um par de chuteiras, levando para jantar no shopping, às vezes acompanhado de uma bela mulher. Tudo para impressionar, mas não fazia nada por eles.

Mais para o final do livro, o autor dá sua opinião de forma clara:

“Na verdade, não gosto de empresário de futebol (…). Essa raça de agentes se tornou vendedora de ilusões e não tem responsabilidade nenhuma com ninguém. Nem com os garotos, nem com os clubes, nem consigo mesma. Ela ‘garimpa’ talentos pelo interior do país, usa sua influência para assinar procurações e contratos com a molecada e só pensa no ganho financeiro em curto prazo. A maioria não é capaz de opinar ou esclarecer dúvidas dos seus representados, nem de dar opções para que o atleta faça sua própria escolha. O que fazem é oferecer, trocar e vender seus ‘produtos’ quando lhes convém.”

Até ser campeão brasileiro pelo Corinthians em 2011, temporada que é narrada em detalhe no livro, a trajetória de Paulo André foi muito acidentada. Dez anos antes, em 2001, com 18 anos, era dispensado do São Paulo. Não deu certo no CSA, nem no Vasco. Voltou para Campinas, cidade natal, para treinar sozinho no clube do bairro, só para manter a forma. Já pensando em abandonar a carreira, recebe um convite para jogar a 6a. divisão do campeonato paulista pelo pequeníssimo Águas de Lindóia. Começa ficando num dormitório com 22 camas, batizado com certo humor de Maracanã. As refeições eram invariavelmente arroz, feijão e salsicha ou carne moída. Nos dias de jogos, filé de frango, mas só para os onze que começariam a partida. Paulo André confessa que aprendeu muito ao enfrentar jogadores rodados e aperfeiçoou seu jogo aéreo, pois essa era uma tática constante na 6a. divisão. Ao fim de uma bela temporada, é convidado para disputar a Copa São Paulo pelo Guarani. Ele já estava prestes a ser dispensado quando chega Joel Santana como técnico e lhe dá a primeira chance no futebol profissional. Depois ele ainda foi para o Atlético Paranaense, de lá para o Le Mans e dali para o Corinthians.

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Paulo André (13), do Corinthians, disputa a bola com Fernando Torres, do Chelsea na final do Mundial Interclubes FIFA de 2012. Foto: Christopher Johnson (CC BY-SA).

As negociações de contratação, vistas de perto, são chocantes. Seu empresário, aquele mesmo, deu-lhe uma “volta” de 200 mil dólares: recebeu esse valor do Atlético Paranaense e disse a Paulo André que valia a pena ele ceder os direitos de graça ao Atlético Paranaense para se transferir para um grande clube. Ele só soube disso porque um sócio do empresário rompeu com o pilantra e avisou ao atleta. Eis a realidade do futebol profissional.

Paulo André demonstra enorme sensibilidade ao tratar dos “amigos que ficaram para trás”:

“a maioria deles nem terminou o ensino médio, a maioria não conseguiu ajudar a família, viveu um mundo de ilusão e hoje trabalha como empacotador no mercado, cobrador de ônibus, segurança de casa noturna. Outros voltaram para o interior de Recife ou Alagoas e se encontraram na miséria, sem esperança de dias melhores. Não quero desmerecer essas profissões, dignas e essenciais para toda a sociedade, mas, sim, mostrar o contraste da realidade atual com o sonho de outrora.”

A principal denúncia que faz é exatamente acerca do processo de formação de jogadores. Eles não são preparados para mais nada. A maioria dos técnicos das divisões de base tem sérias deficiências. E como a imensa maioria acaba não seguindo carreira no futebol, são literalmente largados, abandonados à própria sorte. Muitos, aliás, não têm sucesso por falta de conscientização do que é ser um atleta. Paulo André diferencia boleiro, jogador e atleta.

Boleiros, caso cada vez mais raro:

“continuam agindo como nos tempos da várzea. Não gostam de treinar, não gostam de observar o adversário nem de tomar suplementos nutricionais para aceleram a recuperação ou promover o aumento de massa muscular. (…) Chegam direto da festa ao treinamento, às vezes bêbados. (…) Sua prioridade é a vida fora do trabalho. Está sempre rodeado de ‘amigos’, carrões e mulheres, sendo muito fácil identificá-lo.”

Já os jogadores, que são a imensa maioria:

“chegam no horário, cumprem suas obrigações, se dedicam nos treinos, mas não abrem mão de seus prazeres fora de campo. Entendem um pouco do jogo e da importância do grupo para o sucesso nas competições, mas não se esforçam em minimizar suas vaidades pelo bem coletivo. (…) Os jogadores possuem ideias enraizadas (desde o tempo da formação) (…) segundo a qual o mais malandro é o que tira vantagem de tudo. Seja em um treino físico, seja em um treino tático, que são para o seu próprio bem, o negócio é economizar tempo e energia.”

Por fim, teríamos uma minoria de atletas, bem mais comuns em outros esportes, como o atletismo. Gostam de treinar, estão dispostos a sacrifícios, estudam, buscam aperfeiçoar-se. Lendo a história de Paulo André percebemos o quanto ele teve que lutar: contra limitações físicas (de início era o pior nos treinos físicos), contra contusões, operações e longos processos de recuperação, contra a má fé de empresários e dirigentes e contra os azares da sorte.

O Jogo da minha vida é um retrato em branco e preto do futebol brasileiro. Ele ainda é um gigante adormecido em termos de todo o seu potencial: econômico, educacional e esportivo. Se já fizemos tanto com essa estrutura apodrecida, imaginem o que seríamos capazes com um sistema minimamente decente. Cujo pontapé inicial seria tratar como cidadãos aos jovens que sonham em ser jogadores de futebol.