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Um tarado por futebol

Leandro Marçal

A festa estava boa, os sentidos começavam a se alterar pelos efeitos do álcool e o João Pedro já se despedia. Achamos estranho e insistimos para que ficasse. Tanto tempo não nos víamos, dava saudades das conversas sobre a vida e os tempos antigos.

Foi ele ir embora e todos buscamos na internet as tabelas dos campeonatos internacionais. O jogo do Chinesão na manhã de domingo era o motivo da saída à francesa. Ele não mudou nada.

Desde o Gênesis, dispensava tudo à sua volta se houvesse uma boa partida na TV. Ou nem tão boa assim. Como no dia em que terminou um relacionamento interminável com a Carla. Ela queria um cinema, mas havia a rodada do Brasileirão às 21h de sábado, entre dois times de outro estado e sem relação alguma com o seu na tabela. Era imperdível.

João Pedro é capaz de escalar de 1 a 11 os escretes antigos que ainda se escalavam de 1 a 11. Não se conforma com numeração fixa. Decorou os campeões e vices de todas as edições da Libertadores, Copa do Mundo, Liga dos Campeões (ele se recusa a falar “Champions” com falso sotaque) e toda competição do esporte trazido por Charles Miller. Sua biografia, inclusive, é dos poucos livros que já leu, bem como outros de histórias da bola, empilhados na cabeceira de sua cama.

Ele fica bravo quando ouve a acusação de ser um tarado por futebol. Não, jamais, só aprecia o esporte. Sócio de um time que não vou identificar, já pegou empréstimos em uma financeira para ajudar a agremiação e recusou um produto eletrônico de presente para não fortalecer o rival.

Mas não é fanático, doente, fissurado. Tampouco tarado.

Nunca brigou por futebol em um estádio ou estação de metrô. É coisa de babaca. Dentro de casa, já se desentendeu com mãe, pai, irmãos e quem mais falasse alto no meio de uma partida. Gabriela, a segunda esposa, foi embora depois de perceber que não mudaria o monopólio dos pensamentos em “22 marmanjos correndo atrás de uma bola para jogá-la dentro de uma caixa gigante”. O atraso no aluguel depois de perder uma aposta foi o estopim do divórcio anunciado.

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Arte: Pete Linforth (Domínio Público).

– Coisas da vida, ela era louca. Vocês têm aquele aplicativo novo do canal de TV paga, que atualiza os resultados e manda mensagens na hora dos gols?

Nunca vi o João Pedro tecer palavras sobre política (ele odeia esses assuntos chatos), religião (isso não se discute), filmes (não é capaz de perder duas horas de sua vida sentado em frente a uma televisão vendo uma mentira) ou mesmo de contas a pagar (seus gastos são sempre com a coleção interminável de camisas de clubes, ingressos para os jogos e TV por assinatura, diante da qual passa intermináveis horas assistindo a debates e replays de lances polêmicos, que lhe rendem olheiras às segundas e quintas).

João Pedro brigou com o patrão para tirar férias nos 30 dias de Copa do Mundo. Pretende ficar um mês agarrado à poltrona em frente à TV para suas análises. Não sabe como funcionam essas estranhas regras de direitos do trabalho. E nem quer saber: só se interessa por futebol e nem liga se for mandado embora no dia seguinte ao seu retorno.

Outro dia, liguei para visitarmos uma amiga no hospital.

– Não vai dar.

– Por que, João?

– Tem copinha.

– Tem o quê?

– Copinha. São Paulo, dos “júnior”, pô. Não tá vendo?

– Ah, vi por alto. Mas a Cidinha tá mal, fez uma cirurgia.

– Tempão que não falo com ela.

– Então…

– Não dá, preciso ver o time do…

– Entendi, João. Bom jogo, se é que é possível.

– É chato, hein? Viu o golaço ontem no Campeonato Holandês daquele atacante bom que eu te falei?

– Holandês? Não vi não. Tô saindo, João, depois a gente se fala.

Assisti parte do jogo na TV do hospital. Fui embora quando a Cidinha dormiu e eu também já sentia sono. Num grupo de conversas pelo celular, ele não parava de falar da partida. Foi cortado pelo pedido do link para pagamento do IPVA. Sempre caro, todos concordavam. João Pedro nem opinou a respeito. Ele não mudou nada.