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Viver de Corinthians e com títulos

Marco Lourenço

A competição mais importante do futebol brasileiro chegou ao fim: o Sport Club Corinthians Paulista levou o sétimo troféu do Campeonato Brasileiro – e vale o negrito para registro histórico, caso haja algum tipo de revisão da contagem daqui a 50 anos.

A conquista já havia sido concretizada há cerca de um mês, ainda na 35ª rodada, restando três partidas para o fim da competição. Longe de apresentar um espetáculo, a equipe comandada por Fábio Carille foi um exemplo de pragmatismo. Apesar dos modestos 63% de aproveitamento – no título de 2015, o time de Tite alcançou 71%, o segundo maior desde o início dos pontos corridos -, a equipe terminou a disputa com nove pontos à frente do segundo colocado, Sociedade Esportiva Palmeiras, campeão do ano anterior.

Corinthians recebe a taça de Campeão Brasileiro 2017. Foto Lucas Figueiredo/CBF

O técnico Fábio Carille recebe a taça de Campeão Brasileiro 2017. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

Com um aproveitamento quase impecável perante seus maiores rivais ao longo de toda a temporada, o torcedor corinthiano incorporou de vez sua identidade do campo: simplicidade, raça e concentração. Diversas definições foram criadas para o Corinthians da última década: “time de 1 a 0”, “time compacto”, “time retranqueiro” e “joga por resultado”.

A despeito das diferentes visões acerca do que deve ser o futebol, ou mesmo sobre a reducionista discussão sobre o que é o “futebol bonito” – jogo do drible, jogo de posse de bola, jogo do contra-ataque, etc -, é inegável que o torcedor alvinegro de Parque São Jorge nunca gritou tantas vezes campeão em uma mesma década. Ao todo, o Corinthians conquistou três títulos estaduais (2009, 2013 e 2017), uma Copa do Brasil (2009), três brasileiros (2011, 2015 e 2017), uma Recopa (2013), a inédita Libertadores (2012) e, para muitos – em especial, os não corinthianos – o primeiro título mundial (2012).

Nas arquibancadas também houve crescimento. De 1971 a 2007, a média de público no Brasileirão foi de 21 mil pessoas por partida. Na década seguinte, o número sobe para 28 mil pessoas. Pesa nesse quesito duas importantes variáveis: (1) Antes de 2008, o Corinthians mandou muitas partidas no estádio do Morumbi, com capacidade significativa maior que o Pacaembu e da própria Arena Corinthians; (2) A inauguração do novo estádio tornou-se um atrativo especial para o crescimento da média geral de público em toda a temporada.

A ascensão corinthiana parte de uma década de sua maior derrota esportiva: o rebaixamento para a série B do Campeonato Brasileiro de 2007. Aqui é necessário fazer a devida especificação, visto que, fora das quatro linhas, lamentavelmente, a história do segundo clube mais popular do país possui capítulos obscuros como os casos Hicks Muse, MSI  e a Máfia do Apito que reverberam uma antiga narrativa que coloca a arbitragem nacional como um décimo segundo jogador do clube.

Dentro de campo, pelas mãos de Mano Menezes, e principalmente Tite, desde a campanha da série B, 2008, o clube repete – com variações pontuais – um estilo de jogo que é rigorosamente praticado pelos seus jogadores. A aplicação tática que facilmente se confunde com a estética da “raça” em campo tornou-se um questio fundamental no sucesso de alguns atletas considerados inferiores tecnicamente, como Ángel Romero, e o fracasso de grandes contratações, tal como Alexandre Pato.

Corinthians recebe a taça de Campeão Brasileiro 2017. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

Corinthians recebe a taça de Campeão Brasileiro 2017. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

É inegável que tal identidade “raçuda” de Jorge Henrique, Ralf, Elias, Paulinho, Alessandro & Cia não foi inventada em solo estéril. Longe de uma embriaguez essencialista, é preciso considerar que o histórico apelido “time do povo” catalisa a estética da “simplicidade” e “luta” perceptível no estilo de jogo, astutamente aproveitada pelo departamento de marketing do clube em diversas campanhas, como a premiada República Popular do Corinthians.

Aparentemente, a vaidade do torcedor alvinegro se alimenta dos carrinhos, “isoladas” e “gols de bico”. Porém, cada vez mais, torna-se difícil de seguir a narrativa do torcedor “sofredor” em anos tão vitoriosos. Aliás, no cântico “corinthiano, maloqueiro, sofredor… graças a deus!”, restam somente “corinthiano graças a deus”: a “maloqueiragem” da arquibancada, associada à presença do público mais popular, é cada vez mais escassa na Arena de mármore de ingressos a preço de ouro.

Diante dos fatos e do processo que consolidou a Bèlle Époque à la Corinthians, cheio de paradoxos, resta saber: como o torcedor acostumado com esse período singularmente vitorioso que brada “não vivemos de títulos, vivemos de Corinthians” irá se comportar quando um novo jejum – mesmo que pequeno – retornar?

Mesmo um torcedor nascido alguns anos após a quebra jejum de títulos ainda reproduzia a fetichização do sofrimento e da derrota. Agora, fica a pergunta: o gol de Basílio será tão lembrado após o primeiro gol do Fenômeno contra o Palmeiras, a cavadinha de Romarinho, a arrancada de Emerson Sheik ou mesmo a cabeçada de Paolo Guerrero?