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Edgard Santos Filho

Equipe Ludopédio

Aos sessenta anos de idade, o ex-jogador Edgard Santos iniciou a faculdade de Direito no Centro Universitário Estácio de São Paulo. A longa trajetória entre o futebol, corpo de bombeiros e diferentes trabalhos, trafegando entre Bauru e São Paulo, entre futebol amador e profissional, conferiu a Edgard uma experiência futebolística única, que ele fez questão de compartilhar com a equipe do Ludopédio.

Foto: Enrico Spaggiari

Foto: Enrico Spaggiari

Qual a sua primeira lembrança sobre futebol?

A primeira coisa é meu pai. Ele era jogador e foi bem melhor que eu. A minha família era grande e tinha uns cinco que jogavam. Meu tio Wilson foi profissional. Meu pai jogou no Noroeste e no BAC (Bauru Atlético Clube), dois clubes da cidade de Bauru. No Noroeste, ele era jogador e funcionário. Mas só jogava. Depois que parou de jogar é que assumiu as funções. Enquanto jogava ele nunca trabalhou. Meu pai era marceneiro. Eu tenho um banco que ele fez quando eu nasci. Meu pai era muito detalhista, como marceneiro era muito bom. Mas futebolisticamente falando, meu pai era daqueles jogadores que não existem mais, um jogador clássico. Era volante, mas com a idade, foi recuando, foi para quarto zagueiro, beque central. Meu pai jogou na década de 1950. Quando nasci ele foi campeão pelo Noroeste em 1954. Ele jogou até no máximo 1959, 1960, sempre em Bauru, nunca saiu de lá.

Se o seu pai jogou até o final da década de 1950 em Bauru, então ele viu o começo da carreira do Pelé?

Tem uma passagem, num campeonato amador, varzeano de Bauru, que convidaram meu pai só para jogar a final. Ele jogou contra o Pelé, marcou o Pelé, e ele contava que conseguiu marcar durante 89 minutos. O jogo estava 0x0, e num momento que o Pelé conseguiu pegar a bola, acabou o campeonato. E o Pelé tinha 14 ou 15 anos na época. E meu pai tinha mais de 30 anos. Ele dizia que o rapaz era danado, mesmo com 14 anos. Era conhecido como o filho do Dondinho, que era amigo do meu pai. O Dondinho jogou no BAC, acho. Minhã mãe é amiga da mãe. O pai do Pelé morava a três ou quatro casas da minha avó.

Você nasceu e cresceu em Bauru?

Eu nasci e me criei em Bauru. A primeira vez que sai eu tinha 14 anos. Saí para vir a São Paulo para trabalhar. Eu fui trabalhar numa loja do Zeca Tuma, pai do Romeu Tuma. Trabalhei um pouco mais de um ano e meu pai me fez voltar. Voltei para Bauru para terminar a escola e foi quando, com 16 anos, comecei a jogar no Noroeste. Eu já jogava num times de vila, do bairro. Lá era assim: quem não jogava em nenhum time, podia jogar domingo a tarde no time da vila. Um amigo de frente de casa que já jogava no Noroeste me levou para fazer um teste lá. Eu tinha 16 ou 17 anos. Eu sempre gostei de jogar bola, mas não tinha aquele negócio de sonhar em virar jogador. Claro que eu queria, mas nunca tive aquele objetivo de só ser jogador. Isso não. Naquela época era diferente, acho que nem o Pelé tinha esse objetivo de ganhar muito dinheiro como jogador. Quando o Pelé começou a jogar não era só por causa do dinheiro. Claro que ajudou muito a família. Mas não envolvia o rio de dinheiro que é hoje. Não me lembro de ter aquele objetivo de ser profissional para ganhar dinheiro. Queria porque achava bonito, era gostoso, jogar num campo cheio, apesar da tremedeira que dava.

Foto: Enrico Spaggiari

Foto: Enrico Spaggiari

E como foi crescer em uma cidade do interior nessa época de um futebol muito diferente do atual?

Tudo era diferente. A bola era diferente, chuteira era couro. Você imagina o peso de uma chuteira de couro quando você joga com chuva? E da bola, que era de couro? O futebol era mais lento, tinha mais tempo para pensar. Hoje não, a bola já pensa bem menos, é sintética. Teve uma época que eu queria chutar mais forte. Eu treinava com uma bola medicinal que era duas vezes mais pesada. Depois do treino eu dava 50 chutes com aquela bola mais pesada. No treino seguinte eu tinha que desacelerar um pouco, pois errava um passe de três ou quatro metros. Batia na bola e a bola ia longe. Teve uma época em que o treinador nos proibiu de treinar com a bola pesada dois ou três dias antes das partidas. Mas eu quando eu pegava na veia, rapaz… Chutar e correr eram minhas principais habilidades. Meu chute era forte, eu era um cavalo para chutar. Amigos falavam que quando pegava e ia para o gol, não tinha jeito. Eu jogava de ponta-direita, mas era mais gostoso jogar de centroavante. Corria menos. Na realidade, apesar de ser destro, jogava na ponta-esquerda. Eu nunca me considerei craque, eu era razoável. Eu tive que me aprimorar: correr mais e chutar forte. Foi o que consegui fazer graças a um preparador físico que eu tive, que era cabo de bombeiro, e ele queria me levar para o atletismo de todo jeito. Foi aí que eu aprendi a correr mais ainda. Claro que correr sem bola é uma coisa, correr com bola é outra. Era uma adaptação que eu tinha que fazer.

Como foi o começo no futebol em Bauru?

Comecei no Noroeste com uns 16 ou 17 anos. Fiquei uns dois anos no Noroeste. Com 18 anos eu vim para a cidade de São Paulo, fui trabalhar com um tio, que tinha uma empresa de pinturas, e ele conhecia o dono da joalheria Monte Cristo. Eles conversaram, meu tio falou que eu jogava bola, e ele entregou um cartão do Poy, Dom José Poy. Meu tio me levou lá no Morumbi, aí o Poy falou que não era ali e me encaminhou para o campo do DAE, no Bom Retiro, onde faziam as peneiras da base do São Paulo. Fui aprovado, passei pela peneira, e depois era enviado para os campos 1, 2, 3. Não tinha Cotia ainda, só um anexo no Morumbi. Quando cheguei fiz três treinos e na outra semana me chamaram para fazer exame médico, para assinar contrato. O exame médico do São Paulo era na Policlínica da Aeronáutica, na Rua Augusta, perto da Av. Paulista. Aí tive minha grande decepção. No exame médico, após tirar raio-x daqui e dali, constataram uma lesão no joelho. Falaram que eu teria que voltar ao Noroeste para ver se eles davam um jeito. Eu voltei para o futebol de Bauru, mas não falei nada, fiquei quieto, porque senão eu também não jogaria por lá. Joguei mais um ano, já estava com uns vinte anos. Saí do trabalho do meu tio, não consegui ficar no São Paulo e voltei para Bauru. Quando voltei, já não fui para o juvenil, fui treinar com o “expressinho”, os reservas da época. Aquele time que disputava Campeonato Paulistinha, tipo uma segunda divisão do Campeonato Paulista. De vez em quando alguém completava o elenco titular, se alguém era expulso ou se machucava. Eu joguei uma vez contra a Ferroviária em Araraquara. Meu Deus, como apanhei do tal de Ferrari, em fim de carreira, lateral-esquerdo que jogou no Palmeiras, que na época tinha uns 36 anos.

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E porque parou de jogar após um ano desse retorno ao Noroeste?

Tinha que resolver. Recebia, era aquele contratinho de gaveta. O joelho dói até hoje, mas não foi por causa dele. Fiquei com medo de operar. Quando voltei a Bauru, meu pai me levou a uns médicos da empresa Noroeste, eles me falaram para operar, mas eu tinha uns três amigos que operaram e ficaram com a perna dura. Era um corte grande, abria o joelho mesmo. Não quis operar. E eu sempre tive essa auto-crítica: para ser profissional, tinha que jogar mais que eu. Tinha que ser melhor. Faltava coisa. Quando resolvi que não iria mais jogar no Noroeste, vim para São Paulo e entrei para o Corpo de Bombeiros. Como jogador, nunca cheguei a ganhar um salário mínimo. Ainda não era casado, namorava e tudo, mas só casei quando vim para São Paulo. Nesse época meu pai chegou a falar comigo três ou quatro vezes. “Filho, se você perceber que não dá, não sou eu que vou falar para você, o sonho tem que ser seu, se você achar que tem que parar, então para”. Minha mãe falava para eu insistir mais um pouco. Minha mãe apoiou mais, muitas vezes dava dinheiro para treinar, mais do que meu pai até. Depois fiquei sabendo que ele ia ver meus jogos e não falava nada. Teve uma passagem que fiquei sabendo depois muito tempo. Teve um técnico no Noroeste que jogou com meu pai. Eu era titular, fazia meus gols e perdia também. Mas era o titular. Não lembro de ter ficado no banco, somente no profissional. Quando chegou esse técnico, ele me chamou, perguntou o nome do meu pai, respondi. Isso era uma quarta-feira. No domingo fui jogar e estava no banco. Nos jogos seguintes continuei no banco. Continuei treinando normal. Um dia vi o meu  pai conversando com o técnico à beira do campo. Conversou e foi embora. No outro jogo já voltei ao time titular. Depois de muito tempo minha mãe me contou que meu pai foi conversar sério com o técnico. Esse treinador tinha rixa com o meu pai, pois ele ficava na reserva do meu pai quando eles jogavam no BAC. Até hoje não  sei qual foi a conversa, mas sei que na semana seguinte já tinha voltado para o time titular. Até perguntei para o meu pai o que eles tinham conversado, mas não me passou pela cabeça que o meu pai peitou o treinador. Eu lembro dos times amadores de Bauru. Eu joguei no time da família, que tinha os tios, primos, que disputava o campeonato amador da cidade. No final do ano nós fizemos um jogo, primos x tios, levamos um sacode, jogando contra velharada de 40 e nós com 20, 18. Eu tenho o orgulho de ter jogado contra meu pai, mas era só matar no peito e eu não achava mais a bola. Resolvi jogar armando lá, era melhor não enfrentar o velho. A família do meu pai e tios tinha uns quatro ou cinco muito bons. A gente costuma falar que tem jogador de várzea melhor que profissional. E tem mesmo. Porque eles jogam só ali, talvez se colocarem em um Morumbi ou Pacaembu eles não joguem.

Em São Paulo você trabalho no Corpo de Bombeiros depois que parou de jogar?

Fiz umas provinhas, passei, entrei e fiquei um ano na Praça Clóvis, dois anos em Marília e dois anos em Bauru. Depois dos Bombeiros retornei para São Paulo, depois que o primeiro casamento acabou. Retornei para São Paulo, trabalhei em uma empresa de segurança, eu era supervisor de turma, cuidava dos guardinhas. Trabalhei bastante tempo nessa empresa, depois fui para outras empresas, depois para uma transportadora na Aclimação, depois na segurança de outra transportadora.

Desde que parou nunca mais se envolveu com futebol?

Continuei mais por brincadeira, na várzea, no time da associações dos despachantes de São Paulo, conseguia ganhar um dinheirinho bom. Ganhava quase um salário jogando só aos sábados todo mês. Mas eu tinha cerca de 25, 27 anos. Depois cada vez menos. Aos 30 anos comecei a jogar futebol de salão e futebol soçaite, mas o joelho começou a doer. Continuei a jogar mais por brincadeira, mais por causa do churrasco depois. Hoje minha relação é mais como torcedor. Sempre fui santista, mas quando jogava Santos x Noroeste, torcia para o Noroeste. Mas hoje o basquete e o vôlei tomam conta lá em Bauru. Eu gosto de futebol, não só do Santos. Gosto de todos os jogos. Gosto muito da Portuguesa.

Foto: Enrico Spaggiari

Foto: Enrico Spaggiari

Do que você tem mais saudade da época quando jogava?

O que eu lembro é de um jogo em Bauru, quando inaugurou o refletor do estádio, um jogo Noroeste x Palmeiras. Entrei faltando 10 minutos. Um campo lotadinho, 15 mil pessoas. Foram meus 10 minutos de glória, com o estádio inesquecível. Mas minha partida inesquecível foi Noroeste x Jacarezinho, no Paraná. Chegamos para jogar, desfilamos com carro de bombeiros na frente, e o time deles com vinte e tantas partidas invicto. Ganhamos por 3×2, fiz dois gols, com meu primeiro bicho: cinco contos. Pensei: “acho que sou bom mesmo”. Quando comecei a jogar, fazia gol, as meninas começam a olhar de forma diferente, na cidade tomo mundo já te olha, já te conhece. Ai você pensa que é bom, não quer treinar de manhã e de tarde, a bola diminui. Olha, tanta besteira que eu fiz eu não faria de novo. Eu me arrependo de muita coisa que fiz errada. Mas também ninguém sabe que eu passei para tomar essa atitude.

Por fim, o que te fez, agora com 63 anos, fazer faculdade de Direito?

Eu sei que será difícil eu exercer, mas eu quero me formar. Não vou ficar pensando em OAB. Eu vou primeiro me formar. Depois eu vou pensar em OAB. Hoje é só um sonho.