17.10

Elcio Loureiro Cornelsen (parte 3)

Equipe Ludopédio

Elcio Loureiro Cornelsen fez mestrado em Letras (Língua e Literatura Alemã) na Universidade de São Paulo (1995), doutorado em Germanística na Freie Universität Berlin (1999) e pós-doutorado em Teoria Literária pelo Instituto de Estudos da Linguagem na Unicamp (2010). Professor da Faculdade de Letras da UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais, do Programa de Pós Graduação em Estudos Literários e do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer, da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional (EEFFTO/UFMG). Elcio vem desenvolvendo pesquisas que relacionam futebol, linguagem, artes e cultura, principalmente dentro do FULIA – Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes (FALE/UFMG), fundado em 2010.

IMG_2872

O professor Elcio Cornelsen coordena o FULIA – Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes (FALE/UFMG). Foto: Victor Figols.

Terceira parte

Qual é a leitura racial que você faz da Copa de 1950?

O Antonio Jorge Soares chama à atenção para o fato de que havia outros jogadores negros naquela seleção, e que eles não apareceram como vilões. Creio que tenha sido algo mais construído. O Brasil demorou a ter goleiro negro novamente. Neneca, Jairo, Dida, Jefferson. Até coloco isso em um dos meus textos, que o gol saiu pelo setor deles, do Bigode e do Juvenal. E a conclusão foi no setor do Barbosa. O discurso do racismo também se consolidou via crônica, via Mario Filho. Mas é difícil categorizar. Seria mais simples se houvesse uma imputação de culpa. Então não sei de fato se esse discurso do racismo está ligado à própria construção do mito da derrota.

E em 1954, fala-se muito sobre uma recomendação da CBD para não convocar jogadores negros para a Copa na Suíça. Isso faz parte dessa construção?

Eu não cheguei a estudar profundamente 1954. Mas o Canhoteiro diz isso em 1958, sobre o fato de não ter ido à Copa. Ele desiste por sentir que o fato de ser negro seria um peso, abdica de atuar pela Seleção na Suíça, e vai o Pepe em seu lugar. Sobre 1954 nunca vi documentos, mas já li algo relacionado a isso, bem como a história sobre terem barrado o Barbosa do treino da seleção brasileira que se preparava para a Copa de 1994, com a alegação de que seria “pé frio”.

Outro tema de pesquisa será sobre os hinos de clubes. Como foi o projeto?

Foi minha primeira pesquisa de maior fôlego sobre a relação entre futebol, linguagem e artes, desenvolvida de 2011 a 2013. Depois fiz a pesquisa sobre a Copa de 1950. Agora estou desenvolvendo uma pesquisa sobre os Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim e a cobertura da imprensa brasileira, e outra sobre a memória de ex-jogadores da Seleção Brasileira em obras biográficas e autobiográficas. A pesquisa sobre os hinos foi muito gratificante, pude trabalhar com a própria questão do futebol brasileiro, desde os primórdios até os dias de hoje, e perceber as variações nessa construção simbólica. É muito conhecido o fato de o Lamartine Babo ter sido essa figura que idealizou a maioria dos hinos no Rio de Janeiro, 11 foram compostos por ele em meados dos anos 1940. São hinos cantados até hoje. Mas algumas agremiações tinham hinos anteriores, muito mais marciais, distantes de um ritmo genuinamente brasileiro. As marchas-rancho do Lamartine já integram outro ritmo, por isso são muito mais populares que as primeiras. Foi um estudo mais amplo, para além do Rio de Janeiro, pegando os clubes paulistas, mineiros, paranaenses, gaúchos, paraenses, entre outros. Ao todo foram 28 hinos estudados. Depois, numa pesquisa paralela, pesquisei hinos de clubes de Portugal, e cheguei a estudar alguns hinos de clubes na Alemanha. Foi interessante, trabalhei com algumas categorias específicas, estudei elementos de identificação, elementos de louvor, de emoção etc., a partir dos componentes líricos, épicos e dramáticos. Foram elementos que fui procurando nas letras. A identidade do clube também passa pelo hino. Hoje os clubes apresentam outras dinâmicas de hino, como o do RedBull, que reflete o momento atual de criação lítero-musical. Mas essa união do ambiente do samba com o futebol, presente nos hinos populares, foi importante para a história dos clubes. Em Minas Gerais, os hinos do Atlético Mineiro, Cruzeiro e América são compostos por autores como Lamartine, que fizeram nome em concursos de marchinha de carnaval.

É possível fazer algum tipo de conexão entre as estruturas dos hinos e os cânticos das torcidas?

Não. Os hinos populares não apresentam um discurso de enfrentamento, tendência dos cânticos, que se concentram mais no incentivo a partir das arquibancadas. Em geral, são cânticos que desmerecem o adversário, com um discurso de enfrentamento. Um enfrentamento não só contra a torcida adversária, mas também contra o Estado. Isso acontece em vários estados brasileiros.

Será que podemos ligar esses cânticos de enfrentamento à escalada da violência a partir da década de 1980?

IMG_2878

Elcio Cornelsen durante a entrevista realizada na Universidade de Brasília (UnB). Foto: Sérgio Settani Giglio.

Eu creio que haja uma relação. É difícil mensurar se esses cânticos incentivam os atos. Mas são índices de intolerância. O outro não é visto como adversário, mas sim como inimigo. Adversário você respeita, inimigo você quer agredir. Trata-se de um discurso de agressão. Creio que seja um reflexo do aumento da violência e de uma criminalidade que passou a ser organizada. Não estou falando das torcidas, mas estou falando do crime organizado, um fenômeno da década de 1970 e 80. Isso vai criar uma simbologia, com lemas como “tá tudo dominado”, braços cruzados em posição como se exibissem armas. Toda uma simbologia criada pelo crime organizado. Alguns clubes mantinham rituais de iniciação, com atos de violência. Então, a violência passou a fazer parte, de modo evidente, do universo do futebol brasileiro. Alguns estudos recentes têm investigado onde está o fascínio na violência, e quais os motivos que fazem com que ela se efetive, se estabeleça não somente dentro dos estádios. Na Alemanha, nos anos 1990, eu não vivenciava depredações em grande escala, ou mesmo conflitos de rua provocados por torcedores de futebol. A escala é diferente. Aparentemente, havia pouca hostilidade, talvez inibida pelo rigor no cumprimento de medidas punitivas contra atos de vandalismo e depredação do patrimônio, quanto contra agressões físicas.

Sua pesquisa atual é sobre a cobertura da imprensa brasileira nos Jogos Olímpicos de 1936?

Sim, esse é meu terceiro pós-doutorado. Meu primeiro pós-doc versou sobre a cobertura dos Jogos Olímpicos de Berlim feita pela imprensa alemã. Agora estou mais preocupado com a recepção da imprensa brasileira. Estou tendo certa dificuldade. Tenho percebido que certas matérias publicadas aqui no Brasil têm um intertexto com as matérias da Agência Alemã de Notícias. A agência de notícias distribuía notas em quatro línguas: alemão, inglês, francês e espanhol. Acho que alguns jornalistas que cobriram os Jogos usaram esse material. Fica um pouco difícil distinguir o que é próprio da cobertura brasileira daquilo que era parte das estratégias de propaganda, praticamente estão traduzindo o que vinha de lá, estavam vendendo a imagem que os então detentores do poder na Alemanha queriam que construíssem deles e do país. Na pesquisa, eu saio um pouco da discussão sobre a disputa entre CBD e COB, um dos temas mais abordados pela imprensa brasileira. Não abordo muito esse tema, pois não diz respeito à imagem da Alemanha. Eu tenho um espectro amplo de matérias de três jornais brasileiros, publicadas de 18 de julho a 20 de agosto, para verificar também a fase que antecede o início dos Jogos, em 01 de agosto, e a repercussão após seu encerramento, em 16 de agosto de 1936. Nesse período, eclodiu a Guerra Civil Espanhola, e a imprensa alemã explorou muito o binômio paz e guerra. A paz olímpica e a guerra que abrangia os países comunistas que boicotavam a Olimpíada, sem deixar transparecer nas matérias que a Alemanha apoiou Franco já nas primeiras semanas após o levante militar de 17 de julho, levado a cabo contra o governo da Frente Popular, legitimamente eleito. Eu adotei o mesmo recorte do primeiro pós-doc para a pesquisa sobre os jornais brasileiros. É interessante ver algumas matérias sobre a abertura dos Jogos. Há quase uma reprodução daquilo o que a Alemanha queria vender, não há muito questionamento, que, aparentemente, passa tanto pelo desconhecimento da própria história e do contexto da Alemanha na época, quanto por essa “vitrine” que os alemães tentaram construir ao explorarem aos Jogos Olímpicos como um autêntico megaevento esportivo. Era uma Alemanha que nos bastidores estava se militarizando desde 1933. Para muitos a Primeira Guerra não havia acabado, faltava ao país a autarquia de guerra, que seria atingida em 1938. E os Jogos de 1936 serviriam para legitimar o governo nazista perante o mundo. Para isso, mandaram retirar da cidade de Berlim qualquer referência ao antissemitismo, os bancos de praças exclusivos para arianos, placas que proibiam a entrada de judeus em determinados locais, ou seja, todo uma manipulação para encobrir o que, de fato, se passava. Ciganos foram confinados numa espécie de pré-campo, foram retirados das ruas e levados para um bairro mais afastado. Então, na pesquisa atual, enfoco essa diferença entre a suposta intenção alemã em termos de propaganda política e a recepção dos Jogos e, especialmente, da imagem da Alemanha nazista veiculada pela imprensa brasileira.

Confira a última parte da entrevista no dia 24 de novembro!