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Elcio Loureiro Cornelsen (parte 4)

Equipe Ludopédio

Elcio Loureiro Cornelsen fez mestrado em Letras (Língua e Literatura Alemã) na Universidade de São Paulo (1995), doutorado em Germanística na Freie Universität Berlin (1999) e pós-doutorado em Teoria Literária pelo Instituto de Estudos da Linguagem na Unicamp (2010). Professor da Faculdade de Letras da UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais, do Programa de Pós Graduação em Estudos Literários e do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer, da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional (EEFFTO/UFMG). Elcio vem desenvolvendo pesquisas que relacionam futebol, linguagem, artes e cultura, principalmente dentro do FULIA – Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes (FALE/UFMG), fundado em 2010.

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Elcio Cornelsen é coordenador do FULIA/UFMG. Foto: Victor Figols.

A relação entre futebol e identidade nacional, ou nacionalismo e futebol, foi bastante explorado pela literatura acadêmica brasileira. Trata-se de uma relação temática ainda a ser mais desbravada?

Essa relação é muito dinâmica e passa pelo sentido que o futebol possa assumir em determinado momento. O Brasil já teve o futebol como um dos balizadores da construção dessa ideia de identidade nacional. Eu penso que, atualmente, isso não mais ocorre com tanta força como no passado. Isso se deve a um desgaste da imagem da própria seleção brasileira, anterior mesmo à Copa de 2014, de modo que a associação de um caráter nacional com um modo brasileiro de jogar ficou para trás e teve um último momento na década de 80. O futebol globalizado impôs outros parâmetros ao futebol brasileiro, o próprio fato de a maioria dos jogadores atuar fora, sob certas exigências organizacionais de seus clubes, diferentes das da seleção, faz com que parte dos torcedores não se identifiquem mais com a seleção da mesma forma que ocorria no passado. Eu vejo, por exemplo, que a identificação do torcedor paraense com a seleção é muito maior do que a dos estados do Sudeste. O desgaste em relação à seleção praticamente inexiste no Pará. Em geral vários jogadores dos clubes do Sudeste saem para o Exterior, o que gera uma exigência maior por parte dos torcedores em relação à seleção, culminando com uma falta de identificação com jogadores “legionários”. Em outras regiões não há esse desgaste, pois, por exemplo, não há jogadores de clubes do Pará que atuem na seleção, embora possam ser paraenses de origem, como o caso recente do Paulo Henrique Ganso, nascido em Ananindeua, nas proximidades de Belém. Não faz diferença para o torcedor paraense que jogadores da seleção atuem no Exterior. Ainda sobre esse tema, até comentei em um artigo que aqueles cartazes de campanha governamental que foram afixados em 2013, por ocasião da Copa das Confederações, exibindo o lema da “Pátria em Chuteiras” – a la Nelson Rodrigues, aquilo é um anacronismo, não funciona mais como outrora, o discurso não cola hoje. Servia para as décadas de 60 e 70, em que o mito do futebol-arte parecia encontrar seu correspondente efetivo no desempenho da seleção brasileira, mas para hoje não tem cabimento ser empregado. Foi um discurso inapropriado, uma má escolha do pessoal de marketing governamental lançar essa máxima. Mas eu comparo esse quadro com o do contexto alemão: lá, chamam de patriotismo futebolístico (Fuβballpatriotismus) as manifestações de torcedores a partir da Copa de 2006. Os alemães precisaram reaprender a lidar com seus símbolos nacionais, por causa do desgaste produzido pelo nazismo em todos os níveis da sociedade e cultura alemãs. Um divisor foi, justamente, a Copa de 2006, quando os alemães voltaram a pintar seus rostos com as cores do país, exibir bandeiras de uma Alemanha unificada, mas com suas diferenças. É uma espécie de patriotismo pelo futebol representado pela seleção, que se renova de quatro em quatro anos. É diferente de outros momentos da história alemã, não é um momento de ufanismo.

No que diz respeito aos estudos sobre futebol, quais caminhos você pretende seguir e vê como promissor para os estudos dentro da Letras?

Desde 2011 passei a oferecer periodicamente disciplinas à graduação, que contemplam o tema do futebol nos campos da literatura, da linguagem e das artes em geral. Em alguns temas que eu trabalhei em disciplinas eu vejo muito potencial de pesquisa. No campo literário, futebol e literatura de cordel rende bastante, pois ambos são populares e, muitas vezes, recebem pouca atenção da academia na área de Letras. Representação do corpo na literatura é um tema que me interessa bastante. A forma mais eficaz me parece ser a poética, a poesia transgride a linguagem, tem o poder de estabelecer outras temporalidades que melhor se adequam à apresentação do corpo em movimento do que a mera descrição, que requer uma distensão temporal maior. O tempo da narrativa não acompanha a dinâmica de um lance, como de um lance de gol, por exemplo, mas a poesia já tem a capacidade de fazer isso. Letra de música também faz isso. Outro tema interessante no campo da Letras é fazer um panorama da produção literária, teatral e cinematográfica sobre futebol. No campo da Linguagem, que reúne estudos discursivos e literários, sempre há muitos trabalhos. Estudos de crônicas são mais clássicos. Trabalhar com romance já é mais complicado. A produção romanesca sobre futebol tem crescido no Brasil, nos últimos anos, mas ainda falta um grande romance sobre futebol. O drible (2013), do Sérgio Rodrigues, chegou perto. O livro do José Lins do Rêgo, ÁguaMãe (1942), é uma boa obra, mas o futebol não é o tema central desse romance. Pela potencialidade e significado cultural que tem o futebol no Brasil, falta ainda uma obra ficcional que lide com o tema de modo central e que seja estética e literariamente de alto nível.

E como tem sido a receptividade para os seus trabalhos sobre futebol na Letras, Literatura e Linguagem?

Um dos argumentos que coloquei em um dos primeiros projetos financiados pelo CNPq foi exatamente de que havia somente um núcleo na área, aquele que eu havia co-fundado com alguns colegas da UFMG em maio de 2010. Deveríamos sim ter mais grupos de pesquisa sobre futebol ou mesmo esporte em geral, mas no caso do campo de Letras não é tão óbvio assim a inserção do futebol ou do esporte como um tema. São especificidades do campo: formação e recorte. No início o estudo sobre futebol não era bem visto. Ainda tinha muito daquele discurso crítico do futebol como “ópio do povo”. O nosso núcleo ainda precisa se consolidar. Já são sete anos de estrada, mas precisa de mais pesquisadores, de uma maior regularidade de produção. Acaba sendo mais um trabalho solitário de cada um. Precisamos integrar mais essa produção. Em nossa Faculdade, na UFMG, temos cerca de 15 a 20 núcleos de pesquisa. O único que reúne pesquisadores dos dois programas de pós-graduação é o nosso. Os outros núcleos atuam ou no campo da Linguística ou da Literatura. Nós temos pesquisadores das duas áreas. O futebol é um fenômeno que abre possibilidades para diferentes pesquisas, e diálogos com a História, a Sociologia, a Educação Física, a Comunicação, entre outras áreas. O futebol, enquanto fenômeno de estudos, exige que se lance mão de conceitos de outras áreas.

Quais são os desafios colocados com o lançamento do periódico do FULIA?

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Elcio trabalha estuda Esporte e Literatura. Foto: Victor Figols.

A revista foi recém-lançada em 2015. Co-organizamos dois eventos internacionais. Temos a oferta regular de disciplinas. O intuito é cada vez mais produzir pesquisa. Temos vários pesquisadores de graduação, alguns seguem pesquisando em nível de pós-graduação. Atuo também no programa de pós-graduação interdisciplinar em Estudos do Lazer, na Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG. Então, para mim, é bom estar em diálogo com essas áreas. Fiquei surpreso em constatar que nem na Educação Física o futebol é um tema com o qual se lide “naturalmente”, pois em geral ele é trabalhado em âmbitos como o dos Estudos do Lazer. Ele até pode despertar interesses de estudos de táticas, de alto rendimento, mas não se compara com estudos que se dediquem a modalidades esportivas “nobres”, em geral, oriundas do Olimpismo. No campo de Letras existe a impressão de que o futebol seria um objeto indigno, embora haja uma preocupação com os Estudos Culturais, no qual ele “naturalmente” estaria inserido. Quem estuda futebol no campo de Letras precisa estar sempre justificando porque está trabalhando com esse tema.

Qual é o seu jogo ou partida inesquecível?

Incrível é que não foi do Corinthians. Foi um São Paulo x Palmeiras, fui com meu tio são-paulino e um primo corintiano, filho dele. Foi a semifinal do Campeonato Paulista de 1978, gol do Serginho, último minuto da prorrogação. Acho que foi isso. Depois o São Paulo viria a fazer as partidas finais contra o Santos e perderia. Acho que foi o jogo mais emocionante que já presenciei em estádios. No último lance, em um cruzamento da esquerda, Serginho ganhou no alto e fez um gol bonito. Lembro do jogo em que o Corinthians ganhou do São Paulo com gol de Sócrates na final do Campeonato Paulista de 1982. Mas acho que essa partida de 1978 foi a mais emocionante, o estádio do Morumbi estava lotado e dividido igualmente entre as torcidas.

Por fim, o que é futebol?

Essa é a pergunta mais difícil. Futebol talvez seja a minha infância, jogar futebol de botão. Até pendurei minha palheta recentemente. Vinha disputando os campeonatos amadores promovidos pela FMFM – Federação de Futebol de Mesa de Minas Gerais. Fui campeão em 2014, vice em 2015, quarto colocado em 2016, então, em franca decadência, decidi não disputar em 2017 (risos). Futebol para mim era esse ambiente lúdico que o meu pai frequentava como jogador amador, ligada ao campo, que sempre me lembra a infância. Por um bom tempo achei que não haveria espaço, pela minha formação acadêmica, de integrar o futebol. Até que comecei a perceber que dava para trabalhar com futebol também. Não é o meu único tema. Trabalho muito com questão da violência, de forma geral, das relações entre literatura, discurso e política, além de incursões também no âmbito do Cinema. Mas talvez hoje seja minha produtividade que tenha mais visibilidade. “Para o bem ou para o mal”, como diria Roberto DaMatta, o futebol faz parte da vida do brasileiro. No meu caso, ele se faz presente, sobretudo, enquanto objeto de estudo, mas também há espaço para o torcer.