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Elcio Loureiro Cornelsen

Equipe Ludopédio

Elcio Loureiro Cornelsen fez mestrado em Letras (Língua e Literatura Alemã) na Universidade de São Paulo (1995), doutorado em Germanística na Freie Universität Berlin (1999) e pós-doutorado em Teoria Literária pelo Instituto de Estudos da Linguagem na Unicamp (2010). Professor da Faculdade de Letras da UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais, do Programa de Pós Graduação em Estudos Literários e do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer, da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional (EEFFTO/UFMG). Elcio vem desenvolvendo pesquisas que relacionam futebol, linguagem, artes e cultura, principalmente dentro do FULIA – Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes (FALE/UFMG), fundado em 2010.

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Elcio Cornelsen é professor da Universidade Federal de Minas Gerais. Foto: Sérgio Settani Giglio.

 

Primeira parte

Por que estudar futebol? Como chegou a este tema de pesquisa?

Comecei a investigar futebol mais sistematicamente a partir de 2010. Mas minha primeira pesquisa sobre esporte teve início em 1996, com coleta de material sobre Jogos Olímpicos. Foi uma pesquisa que eu desenvolvi e produzi materiais até 2005. Em 2006 publiquei o primeiro artigo sobre futebol e 2010 sistematizei a pesquisa. Percebi que havia campo para trabalhar dentro da área de Letras, muita coisa para fazer. Foi nesse ano que, junto com colegas da UFMG, fundamos o Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes (FULIA). Mas eu sempre tive uma relação com o futebol. Não como eu gostaria, pois eu sempre quis jogar bem futebol. Meu pai foi campeão paulista amador em 1966. Eu cresci em ambiente de futebol amador, que era várzea de fato, na Freguesia do Ó, antes de os campos desaparecerem com a construção da Avenida Edgar Facó. Era uma região de várzea, de um dos afluentes do Rio Verde. Naquela várzea existiam uns três campos. Eu cresci nesse universo do futebol amador. Mas até 2010 nunca tinha pensado em desenvolver algo academicamente.

Como foi essa experiência varzeana?

Meu pai jogava no meio de campo, de armador, aquela figura de ligação entre defesa e ataque. Ele jogou por times varzeanos, clubes como o Paulistano, times de empresas. Eu convivi nas sedes, uma delas a da Portuguesa do Moinho Velho, que ficava na Vila Bonilha, na Zona Oeste de São Paulo. Tinha um espaço de convivência, com material esportivo e troféus, reservado para os jogadores. Meu pai me levava junto com ele. De vez em quando me levava de carro para jogos fora de São Paulo. Lembro que em alguns jogos fora de casa eles levavam pedras, pedaços de pau, pois saía muita briga. Às vezes eu ficava trancado dentro do carro (risos). O lema do Comercial, um time do bairro, era: “Não ganha na bola, mas ganha no pau”. A fama era essa. Vinha adversário jogar, saía briga. Quando você ia como visitante corria o risco de passar por esse tipo de conflito. Mas foi interessante poder vivenciar essa dinâmica do futebol amador em meados da década de 60 até a década de 70.  Meu pai sempre praticou, faleceu jovem, com 69 anos. Para quem não fumava e não bebia, e sempre praticava esporte, morreu relativamente jovem.

O circuito do futebol profissional fazia parte dessa relação familiar durante a infância e juventude?

Eu fui pouco com meu pai a estádios. Passei a ir mais com amigos e colegas na adolescência. Já me identificava como corintiano, embora meu pai fosse são-paulino. Até seis anos de idade utilizava uniforme do São Paulo. Quando comecei a entender melhor, mudei (risos). Eu tinha dois tios corintianos, também já falecidos. E tinha aquela coisa do Corinthians do jejum. Acho que ajudei a engrossar um pouco a torcida naquele momento. Eu sempre fui muito eclético. Ia a jogos com amigos são-paulinos, palmeirenses, mesmo quando não tinha o Corinthians em campo. Porém, eu larguei cedo de ir a estádio. Assisti um ou outro jogo, de forma esporádica, recentemente. Agora tenho um olhar diferente, de pesquisador. Mas como torcedor deixei de ir ao estádio em meados da década de 80. Foi até um jogo especial. Palmeiras x Inter de Limeira, 1986, final do Campeonato Paulista. Teve muito tumulto na saída, a polícia estava tensa, logo na saída um torcedor xingou um policial cavalariano e eles fizeram uma espécie de corredor polonês, retiraram as pessoas do ônibus, identificaram quem xingou, os rapazes foram muito agredidos. Sei que muito torcedor gosta dessa adrenalina, mas não é meu caso. Achei que houve uma desproporção total no ocorrido, perdi o gosto de ir ao estádio. Ainda fui algumas vezes, mas não sou um frequentador assíduo. Gosto de ir a estádios quando viajo dentro ou fora do Brasil, sempre visito os museus, mas perdi esse laço com ir ao estádio. Mas continuo acompanhando meu time, embora às vezes eu tire férias dele (risos). E isso não é um problema só do Corinthians. Os clubes estão perdendo uma continuidade, sempre se desfazem. O Corinthians preparou uma boa equipe em 2015, mas o projeto não tem continuidade. Quando um bom time é montado e começa a desfrutar disso, os jogadores são negociados. Por isso me distanciei um pouco. Quando nós passamos a estudar o futebol, já não temos aquele olhar de torcedor. Óbvio, comemoro, inegavelmente, mas o olhar tem que ser mais amplo e a uma certa distância.

Quais são as diferenças entre esses momentos que definem sua relação com os estádios?  A frequência regular no início com os amigos; a desilusão na década de 80; e as suas idas aos estádios nos últimos anos. O que mudou?

No início tinha muito a questão da curiosidade. Engraçado que o primeiro jogo que fui assistir não foi do Corinthians, foi Palmeiras x Guarani, no Parque Antártica, junto com um amigo palmeirense. Foi minha primeira experiência de arquibancada, não lembro se em 1976 ou 1977. O jogo terminou 0x0, mas só o fato de ter visto jogadores como Dudu, Ademir da Guia e outros, valeu a pena. Depois tive presente em vários jogos, inclusive finais, numa fase de curiosidade, adolescência, de passagem para a vida adulta. Já na fase seguinte, quando passei a desgostar, foi mais a questão de ter que me defrontar com outro momento do futebol. No início era diferente, as Torcidas Organizadas em geral tinham outra dinâmica. O torcedor comum, que não é filiado, podia frequentar normalmente o estádio. Não estava tão exposto a rivalidades. A partir da década 80 já começa um crescimento da violência, e da violência da própria cidade. O futebol e o ambiente de torcida refletem as mudanças em São Paulo. A partir dali teve um período de afastamento, morei fora do Brasil, fiz doutorado na Alemanha, tive contato com uma dinâmica diferente do futebol alemão, onde os estádios estão sempre cheios. Pode ocorrer violência? Pode, mas o cumprimento da legislação em geral inibe bastante os casos. Lembro-me de ter ficado espantado ao ver cadeiras de madeira no bar dentro do Estádio Olímpico de Berlim. Foi bom ter esse contato com a Alemanha, pois é possível ter esse contato com outra referência de campeonato, de legislação. Tenho ido a outros jogos em Belo Horizonte, mas como não torço pelos clubes de lá acaba sendo tranquilo. Quando cheguei à cidade perguntavam se eu era Cruzeiro ou Atlético, e minha saída era responder “América”, para assim não arrumar briga com ninguém (risos).

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Professor Elcio durante a entrevista realizada em Brasília. Foto: Victor Figols.

Você morou na Alemanha no início dos anos 90. A recente queda do Muro de Berlim e o processo de unificação reverberavam também no universo do futebol alemão?

Fui em 1993, para ficar um semestre, fazer uma espécie de especialização entre a graduação e o mestrado. Voltei em 1995 para o doutorado e permaneci até 2000. Em 1993 ainda se percebia cicatrizes topográficas em Berlim. Tudo que era muito próximo do Muro e central estava sendo revitalizado. Quando retornei em 1995 o processo de franca revitalização já estava em andamento. Em relação ao campeonato alemão, antes mesmo de ir eu já tinha um pouco dessa noção de que tinha se modificado algo pelas transmissões da TV Cultura. Quando a TV Cultura começou a passar o Campeonato Alemão percebia que alguns jogadores que eram da Alemanha Oriental atuavam por equipes ocidentais. Então a separação ainda era muito presente na mentalidade das pessoas. Cada vez menos, pois é uma questão geracional. Quem nasceu depois da reunificação tem uma visão muito diferente de quem nasceu no período anterior. Mas é um debate muito presente na Alemanha: como integrar uma história reunificada? Em geral, a história dos vencedores. O discurso seletivo sempre tende a incorporar de acordo com uma leitura. Isso é possível observar no Museu do Futebol da Federação Alemã. Há um setor para a história do futebol da Alemanha Oriental. Mas a ênfase é na corrupção e manipulação do Estado, e não necessariamente na própria dinâmica do que era o campeonato, ou do que era o futebol operário dentro do princípio do Estado Socialista. Mas sobre a integração dos jogadores, antes da Reunificação já havia ocorrido algumas fugas ou deserções de jogadores da Alemanha Oriental para a Ocidental. Mas o futebol foi uma chave de integração. Lembro que o primeiro torneio unificado contou com a participação de 16 clubes ocidentais e 2 orientais. Um dos clubes tradicionais, o Dínamo Berlim, que sempre esteve envolvido em supostos esquemas de corrupção e manipulação de resultados, e que contava com a influência do então chefe da polícia secreta, quase que já deixou de existir, não disputa mais a liga regional, que dá projeção para a segunda divisão e depois para a primeira divisão (Bundesliga). Então o futebol foi uma chave de integração para jogadores que passaram a figurar em grandes equipes alemãs, Bayern de Munique e Borussia Dortmund.

Atualmente, o Bayern é o clube das grandes contratações e o Borussia da torcida fiel e apaixonada. Até que ponto essas representações não são apenas fragmentos que chegam para nós de um contexto futebolístico muito mais complexo para quem acompanha de perto?

O Bayern de Munique é conhecido como FC Hollywood, o time das estrelas. No período em que morei na Alemanha, notava muito a questão do poder financeiro do Bayern para a formação da equipe e desempenho para além das fronteiras alemãs. Mas tinha um problema, pois esse capital conseguia facilmente comprometer os adversários. Com tanta força financeira, o clube conseguia comprar os jogadores de outros clubes. Um jogador mediano para bom que fazia um bom torneio era adquirido para sentar no banco do Bayern. E os outros clubes não conseguiam repor rapidamente o jogador que havia se destacado. Isso gerou consequências para o próprio campeonato. O Bayern não enfrentava grandes adversários. Alguns clubes tiveram boas fases nos últimos anos, com bons times. Outros clubes, que eram consolidados, começaram a cair para a segunda divisão e demorar em voltar ou nem retornar. Um deles, que perdeu muita força, e que é um clube histórico, é o Kaiserslautern. O Dortmund, em outra perspectiva, é de uma região industrializada e com grandes áreas de mineração já desativadas. Mas a raiz do futebol alemão é operário, diferente do elitismo inglês. E o futebol se desenvolveu muito nessa região da Alemanha. E o Dortmund atualmente é a equipe que consegue fazer certa frente ao Bayern. Mas essa questão do fenômeno de desmontar clubes continua, com exemplos recentes. Mas isso enfraquece um pouco o nível do campeonato, torna desigual. O Dortmund talvez ainda consiga fazer frente, pois tem feito bons trabalhos nas categorias de base, revelado jogadores, algumas boas aquisições. Outros clubes tiveram bons momentos, mas sem dúvida o Bayern é o mais estável.

Continua…