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Flavio Gomes (parte 3)

Equipe Ludopédio

Torcedor da Lusa e colecionador de carros antigos, o jornalista Flavio Gomes tem uma longa trajetória dedicada à cobertura do automobilismo e do futebol. Foi repórter e editor da Folha de S. Paulo, editor da Placar e trabalhou no jornal Lance!. Foi apresentador e comentarista de Fórmula 1 da Rádio Jovem Pan AM, fez parte da equipe de jornalismo da Rádio Bandeirantes e das rádios ligadas à ESPN (Eldorado/ESPN, Estadão/ESPN e Capital). Foi comentarista e apresentador dos programas Limite, Bate-Bola e Pontapé Inicial na ESPN Brasil. Atualmente é comentarista e apresentador dos programas Fox Sports Rádio e Fox Nitro da Fox Sports. Criador da agência de notícias Warm Up, dedicada à cobertura do automobilismo, e do site Grande Prêmio, Flavio também atuou como professor de Jornalismo na FAAP.

 

Foto: Max Rocha

Flavio Gomes. Foto: Max Rocha.

 

Terceira parte

Com que o brasileiro está mais frustrado: em assistir a Fórmula 1 ou em ver a seleção brasileira?

Eu acho que o brasileiro não liga para Fórmula 1 mais, não dá a menor importância. E a seleção brasileira frustra um pouco… Brasileiro gosta de ganhar, né!? Não gosta de esportes. Não sei se isso acontece em outros países. Com alguns esportes, não. Por exemplo, a Fórmula 1 sempre teve muito espaço na Itália, e há décadas a Itália não tem um campeão mundial. Na Alemanha, quando não tinha o Schumacher, a Fórmula 1 sempre teve muito espaço. É assim na Inglaterra, na França… A França não tem piloto de ponta hoje, a única equipe francesa é um lixo, mas os caras dão espaço para a Fórmula 1, tem uma mídia forte nisso. No Brasil, quando o Senna morreu, o Rubinho não engatou e a Fórmula 1 foi despencando. Eu ouço muito as pessoas dizerem: “Ah, depois que o Senna morreu, eu parei de ver”. Então, elas não gostavam de Fórmula 1, gostavam do Senna. Peguem uma foto do cara, botem na parede e fiquem olhando para ele, porque ou se gosta de corrida, ou se gosta de brasileiro ganhando corrida.

No tênis, foi a mesma coisa. Quando o Guga começou a ganhar, todo mundo virou tenista no Brasil. O Brasil não aproveitou o período do Guga, tanto que o tênis brasileiro continuou não existindo depois dele. A Fórmula 1 é um pouco assim também: “Ah, mas esse Massa também é uma bosta!”. Dá vontade de perguntar para esse cara: “Quantas corridas você viu nos últimos dois anos?”. Se não viu nenhuma, não pode falar que o Massa, ou o Rubinho, é uma bosta.

Você acha que o Massa é uma bosta?

Não, claro que não! Ele está há dez anos na Fórmula 1. O Rubinho também não era. Ficou 20 anos correndo na Fórmula 1, foi duas vezes vice-campeão, ganhou corridas, voltou para o Brasil e está ganhando corrida de novo e tal. Então, as pessoas não entendem do esporte. “Ah, porque o Senna nas manhãs de domingo…”. Num dia desses, eu fiz uma matéria provando que a maioria das corridas que o Senna ganhou não foi nem nas manhãs de domingo, foi de madrugada, foi de tarde. Sabe essas falas: “Ah, mas as manhãs de domingo eram demais!”. Só que em 70% das manhãs de domingo ele não ganhou. Ele ganhou no Japão, na Austrália, nos Estados Unidos…

Aproveitando esse assunto, como é estar na crônica esportiva e ter de lidar com essa idolatria exagerada em relação ao Senna?

Não é tão dramático. A minha visão do Senna, como do Prost, do Mansell ou do Schumacher, é estritamente técnica. O Senna era um grande piloto? Era. É o melhor piloto de todos os tempos? Não. O Senna era incomparável? Não. O Senna errava? Sim. Ele ganhava na chuva mais do que todo mundo? Não, não é verdade também. O Schumacher ganhou mais na chuva do que ele. Aí tem gente que diz: “Ah, mas o Schumacher correu contra ninguém”. Respondo com uma pergunta: “E o Senna correu contra quem?”. “Ah, contra o Mansell, o Prost e o Piquet.” “Ele correu contra o Prost.”, afirmo. Quando o Senna começou a ganhar corrida, o Mansell estava na Williams fodida. Quando a Williams cresceu, o Mansell ganhou do Senna. E o Piquet já estava em decadência. O último título dele foi em 1987. Os anos de auge do Senna não tinham o Piquet como protagonista. “Ah, mas o Senna ganhou do Prost.” Não, não é verdade. No primeiro ano, ele foi campeão, mas fez menos pontos que o Prost. No segundo ano, ele perdeu do Prost. Então, o Senna não era Deus, entendeu? Longe disso.

Naquela época, não tinha internet. Eu escrevia, falava e comentava essas coisas, mas a reação do público, se havia, não chegava, porque ainda estávamos na época da carta. Hoje, não, a gritaria é geral. Vinte anos depois da morte do Senna, eu escrevo e falo essas coisas, e vem um bando de viúvas, carpideiras: “Ai, porque o nosso Ayrton, o nosso Senna, isso, aquilo… Que o Instituto Ayrton Senna…”. Endeusam o cara de uma forma, porque ele morreu daquele jeito. Foi uma coisa muito triste obviamente, teve a cabeça perfurada, no auge de sua carreira. Naquela época, o Senna ganhou muita notoriedade, idolatria, porque o futebol brasileiro estava numa draga desgraçada, não tinha ídolos, e porque Fórmula 1 é uma coisa bacana de ver, meio heroica, de desafiar o perigo. Mas todo mundo faz a mesma coisa!

Só que ele era muito amigo do Galvão Bueno, amigo pessoal. Então, 90% das pessoas que acompanhavam Fórmula 1 o faziam pela televisão, não liam o Flavio Gomes na “Folha”, viam o Galvão no domingo de manhã. Quando o Senna ganhava, era uma epopeia, um espetáculo. Se perdia: “Mas também o cara bateu nele. Que desgraça!… Ah, esse motor quebra!”, sabe essas coisas? Era o Galvão! Se tinha 100 milhões de pessoas vendo Fórmula 1, 98 milhões realmente iam achar que aquele motor era a causa, ou por que o outro bateu nele, sei lá. Dentre os dois milhões, eu, o Celso Itiberê, o Mário Andrada e Silva falávamos: “Não, ele cagou, ele errou.”. Mas a imagem que fica é a da televisão.

E o Senna era muito bom moço, aquela coisinha: “Ah, foi Deus”. Não tem uma vitória dele que não foi Deus que ganhou. Uma vez eu falei para ele: “Pô, para com esse negócio! É você que ganha a corrida”. “Não, foi Deus, porque Ele me ajuda e não sei o quê…”. Quer coisa mais sedutora para o populacho do que isso? Bonzinho, bonitinho, branco, rico, namorava a Xuxa, falava de Deus o tempo inteiro… As entrevistas do Senna são livros de autoajuda da pior espécie: “Ah, porque tem que se esforçar, tem que se dedicar. Eu me dedico”. Todo mundo se dedica e se esforça! Ele achava que é só ele? Eu tinha vontade de falar isso para ele. Ele não era detentor da exclusividade da virtude. Todo mundo faz alguma coisa, se dedica, se esforça, corre, se fode, treina… Mas ele potencializava isso, e a Globo, mais ainda.

Numa época que o Brasil estava uma bosta, fodido, com inflação, onde tudo dava errado, ficava aquela imagem: “O Senna é o Brasil que dá certo!”. Que Brasil? O cara corria com um carro inglês, motor japonês, pneu americano, nunca disputou uma puta de uma corrida no Brasil, saiu daqui de kart e foi correr na Inglaterra. Que Brasil que dá certo, o caralho! Família rica, dono de fazenda, malufista! Vai pra puta que pariu! “Brasil que dá certo”, que porra é essa! Mas ele era bom piloto, ganhava corrida. Pra corrida, ele funcionava.

O Piquet ganhou tanto quanto ele, só que o Piquet não era amiguinho de ninguém, não ia para televisão dizer que Deus que ganhou por ele… O Piquet é muito mais carismático do que o Senna, só que não desse jeito que o populacho gosta. A última vitória do Piquet fez 25 anos agora. Foi no Canadá, o Mansell estava 1 minuto na frente dele, com carro da Williams, acenando para a torcida. Ele engatou na terceira marcha e foi acenando. Quando chegou numa curva de primeira, ele fez a curva e o carro morreu. Em terceira marcha, não alimentava mais o alternador. Ele parou, e veio o Piquet acelerando e ganhou a corrida. No momento da entrevista, se fosse o Senna, ele teria dito: “Deus me iluminou, tenho certeza que Ele estava olhando para mim naquele momento. Precisava muito dessa vitória. Estou emocionado pelo Brasil…”. Como era o Piquet: “Puta! Eu quase bati uma punheta e gozei quando eu passei do lado e vi o Mansell parado… Você pode colocar isso no jornal, pode escrever que quase bati uma punheta e gozei”. Ele é um escracho, mas se fosse o Senna, ele iria falar de Deus, pegar o troféu, beijar, chorar. Eu sempre achei aquilo uma babaquice e o Senna, um bobo como pessoa. Agora, como piloto, é claro que ele era bom. Imagina, ninguém ganha três campeonatos mundiais sem ser bom. Era bom pra caralho de fazer pole positions! Tudo bem. Ele era bom nisso, o Schumacher naquilo, o Hamilton é bom naquilo outro, o Vettel, mais ainda. É assim, não era Deus. Essa devoção ao Senna é algo que me irrita um pouco até hoje.

“O Schumacher correu contra ninguém!”, muitos dizem. O Schumacher e o Senna disputaram dois campeonatos inteiros um contra o outro. O Schumacher estreou em 1991 no meio do campeonato, correu 92 e 93, e em 94 o Senna morreu. Em um desses dois o Schumacher chegou na frente com uma Benetton, no outro o Senna, com uma McLaren. Então, como podem dizer que o Schumacher correu contra ninguém? Correu contra o Senna, o Prost, o Mansell, ficou cinco anos amassando barro na Ferrari até conseguir campeonato. Correu, claro que correu! Foi lá e ganhou. Quando começou a ganhar, ganhou de todo mundo, uma coisa que o Senna não fez. O Senna nunca foi hegemônico, dominante: “Só ele vai ganhar corrida”. Não.

Foto: Max Rocha

Flavio Gomes. Foto: Max Rocha.

Gostaria de ouvir um pouco sobre os anos de ESPN Brasil. Salvo engano, chegou à emissora em 2005, sob a direção do Trajano. Como foi trabalhar com ele? Entrou para ser o cara da Fórmula 1, para falar sobre futebol? Como foi?

Eu entrei para fazer futebol. Conheci o Trajano e a ESPN por causa da Fórmula 1. Todo ano no Grande Prêmio do Brasil eles me chamavam para participar de algum programa. Em 2005, quando estava em Mônaco, tocou meu telefone. Era a secretária do Trajano: “Flavio, você pode vir aqui?”. “Não, estou em Mônaco”, respondi. “Quando voltar, pode vir aqui falar com o Trajano?”. “Posso, é claro.” Em minha cabeça, já imaginava um programa de automobilismo, comecei a desenhar, rascunhei, fiz um projeto e tal. Eu já estava meio que saindo da Bandeirantes, porque estava meio sem grana. O Odinei Edson, a quem a Bandeirantes terceirizava a Fórmula 1, não queria mais mandar viajar e tal. Quem estava saindo da ESPN era o Paulo César Vasconcelos, que era um dos comentaristas. Ele foi para a SporTV e virou chefe.

Quando cheguei à ESPN, o Trajano me perguntou: “Você fala de futebol?”. “Falo.”, respondi. “Você quer ser comentarista aqui?” “Tudo bem, mas eu tenho um projeto de programinha de automobilismo…”. “Não, não, não!”, me cortou. “Depois a gente vê isso. Tem o ‘Bate-Bola’ agora, você pode entrar?”. “Posso”, e foi exatamente assim que fui contratado para ser comentarista do “Bate-Bola”. Dois anos depois, apresentei meu projetinho e voltou ao ar o “Limite”, que era o programa de automobilismo que a ESPN já tinha tido anos antes. Não tinha nada a ver com o projeto que tinha feito, mas tudo bem. Então, eu fazia o “Limite”, comentava no “Bate-Bola” e às vezes fazia um “SportsCenter”.

Em 2007, começou a rádio. Como eu era um cara que já tinha trabalhado muito em rádio, eles me colocaram nesse projeto e eu era para ser um dos âncoras. Na primeira semana, os âncoras eram: eu, Palomino, João Carlos Albuquerque e mais não sei quem. Na segunda semana, era só eu… O Palomino não quis mais, nem o João, nem o outro. No começo era Eldorado ESPN, depois Estadão ESPN e no último ano Capital ESPN. Foi de 2007 a 2013, ano em que eu saí. Por horas trabalhadas, eu fiz muito mais rádio do que TV. Depois, eu comecei a apresentar programa. Tinha muito comentarista e um dia me colocaram para apresentar o “Bate-Bola”. Apresentei e foi legal. Passei a ser o primeiro reserva do “Bate-Bola”. Nos últimos anos de ESPN, fiquei fazendo o “Pontapé Inicial”, com o Trajano.

Aí acabaram com o “Limite”, porque não vendia, sei lá. O Palomino assumiu a direção da ESPN e conseguiu perder a rádio, a parceria com o “Estadão”. Continuei apresentando e fazia rádio na web. Aí acabou o “Pontapé Inicial”. Por fim, ele me mandou embora.

Gostaria de entender a estratégia nova da ESPN. Sabemos que não fez parte dessa nova grade, mas hoje há vários Bate-Bolas ao longo do dia, inclusive no horário do Pontapé Inicial. Ao que nos parece muitas pessoas gostavam desse programa, especialmente porque tinha você e o Trajano.

Porque era uma coisa diferente, de muita qualidade, algo que ia muito ao encontro da visão que o Trajano tinha como jornalista. Quer dizer, o esporte não é estanque, que não se relaciona com o resto da sociedade, muito pelo contrário. Então, durante os anos em que o Trajano foi diretor, até 2012 se não me engano, a ESPN foi uma emissora de grande relevância, em termos de editorial, de militância, por um esporte mais decente do ponto de vista de sua gestão, de contar histórias… Eu trabalhei com dois grandes jornalistas em minha vida: um é o Trajano e o outro, o Matinas Suzuki Júnior. São os dois caras que eu respeito como chefes. Sei que é um pouco presunçoso isso, mas eu já tive tanto chefe ruim que penso: “Como que pode esse cara chegar onde chegou?”. Só que esses dois, não. São criativos, têm ideias, princípios, visão global das coisas, da profissão, do assunto… Tem colhão, muito, sempre tiveram. O Trajano é um cara único. Eu fui sucessor dele na “Folha”. Ele foi editor de esportes da “Folha”, daí veio um cara, outro e depois eu. Muito engraçado isso.

Os anos que eu trabalhei na ESPN foram muito legais, porque a gente realmente fazia parte de um projeto. Não que fosse um projeto de chegar à liderança da audiência, de conquistar isso ou aquilo. Não, era um projeto de jornalismo. Havia muita camaradagem, cumplicidade entre todo mundo. A gente não tinha grande preocupação estética ou técnica, mas tinha uma preocupação editorial enorme, com a informação, a qualidade, a responsabilidade da opinião. Não queríamos ser mais do mesmo. Mas isso foi dizimado em poucos meses.

Quando o Trajano deixou de ser chefe, as mudanças editoriais foram muito drásticas, rápidas e visíveis. O canal mudou a cara dele muito rapidamente. Era perceptível mesmo para quem não é muito antenado com as coisas. Primeiro, com a saída de muita gente. Isso não tinha a ver com uma questão econômica, mas sim com uma limpeza de área, de tirar todo mundo do Trajano. O Trajano não mandava ninguém embora, não. A não ser que o cara fizesse muita cagada. Ele é um cara muito leal. “Ah, mas isso é contraproducente.” Não, muito pelo contrário. A televisão produzia e funcionava bem com esse espírito de time mesmo. Esses caras que estavam lá tiraram o canal do papel e colocaram no ar, virando uma coisa importante. A ESPN, com recursos restritos, sem direito de quase nada, virou uma referência de jornalismo. É só ver os caras que estavam lá: o PVC, o Mauro Cezar que sobrou, o Salim, tanta gente também por trás das câmeras…

O Lúcio de Castro, por exemplo, foi sacaneado brutalmente. Foi encostado, o colocaram na geladeira, tiraram o cara das escalas. E ele ganhando prêmio, fazendo matéria, documentário e tudo mais. Mesmo assim fizeram uma proposta indecente para ele ficar. Na verdade, queriam que ele se demitisse naturalmente. A ESPN é muito desorganizada… Trabalhei lá oito anos sem contrato. Quando o Palomino me mandou embora, disse que não ia renovar meu contrato. Qual contrato?, perguntei. A impressão que tive foi que ele me sacaneou. Foi uma coisa pessoal. Por que não gostava de mim? Não sei. A gente sempre teve um relacionamento supergentil, cordial. O Palomino era narrador, nunca foi nada além de narrador. Num determinado momento, ele virou o primeiro narrador do canal. Aí na cabeça dos gestores, na ausência do Trajano, quem é o cara mais importante? É o primeiro narrador. Então, esse cara vai ser o diretor da porra toda. Mas é quase covardia compará-lo com o Trajano. Todo mundo que trabalhava lá sabia que ele não tinha a mesma condição até intelectual. Então, como se livrar desse incômodo de ter um monte de subordinados que não te respeitam como chefe? Manda os caras embora. E ele mandou todo mundo embora. Foi mandando, foi mandando, foi mandando… Desmontou o canal, fez essa grade infanto-juvenil, de “Bate-Bola” das 10 da manhã até às 8 da noite, entremeados por dois ou três “SportsCenter”. Tudo o que o Trajano montou com muito critério, seriedade, colocando as pessoas nos lugares certos… O Salim ficava dois meses fazendo matéria com o Marcelo Gomes, no “Histórias do Esporte”! O cara simplesmente desmontou, passou o rastelo. Agora o canal não tem mais cara. O que é a ESPN hoje? O fim da ESPN como a gente conhecia foi quando o PVC saiu e quando perderam a Champions League.

A saída do PVC está ligada a isso ou à oportunidade que ele viu?

Está ligada às duas coisas. A oportunidade era boa. Ele traz muito prestígio à Fox. Eu diria que ele é o principal comentarista de futebol do Brasil hoje. Da TV a cabo, sem dúvida. O cara é uma grife. Então, foi uma coisa deliberada a fim de desmontar e tirar toda a turma do Trajano. Eu saí num outro contexto, mas já tinha gente saindo nesse começo por limpeza, sim. Eu iria sair, acho. Em algum momento, eu iria dançar. Aí apareceu o pretexto e o cara me mandou embora. Foi isso que aconteceu.

Ainda tem vestígio dessa briga de Twitter até hoje?

Tem uns gremistas retardados que eu vou bloqueando. Eu já não falo de futebol no Twitter faz quase um ano. As pessoas não sabem brincar. Povo de futebol, atualmente, é um desastre, uma tragédia. Embora já faça três anos que o fato aconteceu, eu não me sinto seguro em Porto Alegre, por exemplo. Depois disso, eu estive lá de passagem, viajando de carro, uma única vez. E as pessoas sabem, conhecem, me reconhecem e daí a hostilizar é um passo, está muito perto.

Ficou marcado em minha carreira? Ficaria muito marcado se não conseguisse mais trabalhar por causa disso. Quando a Fox me chamou, uma semana depois de sair da ESPN, esse assunto não foi sequer tocado. Porque é um assunto besta, não é algo que justifique a demissão de alguém. Bater boca com torcedor, mandar o cara tomar no cu… Todo mundo faz isso. Arrependeu? Ah, sei lá, me arrependi. Se soubesse que ia ser mandado embora por causa disso, eu não teria feito… Mas a minha vida hoje está muito melhor, trabalho menos, ganho mais. Foi melhor para mim do ponto de vista pessoal. Foi uma coisa legal? Não, não foi legal. Nunca é legal ficar assim xingando os outros, e os caras te xingando e ameaçando sua família: “Eu vou te matar, sei onde seu filho estuda…”.

Foto: Max Rocha

Flavio Gomes. Foto: Max Rocha.

Como você vê a Fox cobrindo esporte hoje no Brasil?

A Fox é um canal de eventos. Eles têm um carro chefe fortíssimo, que é a Libertadores. A gente fez uma boa Copa do Mundo. Não temos um projeto editorial muito claro, mas quem o tem? Ninguém. A ESPN tinha, mas também não tem mais. Então, a Fox é parecida com as outras nesse sentido. A Fox enquanto corporação trata o esporte como entretenimento. Não tem, portanto, grandes preocupações jornalísticas. Tem preocupação com seus eventos, de fazê-los bem, e faz. A Libertadores é um negócio muito forte para o canal. A gente tem um monte de campeonato europeu importante. E a nossa grade é basicamente isto: transmissão de jogo e programas que são diferentes. Isso é uma coisa que também é legal! Não tenho visto muito “Bate-Bola”, mas se um difere do outro é por conta do apresentador. O João faz uma coisa diferente porque é o João. A gente tem programas bem diferentes entre si, eu acho. Também bons ou ruins, depende do gosto. Mas o “Bom Dia Fox” é bem diferente do “Fox Sports Radio” que vem depois, que é muito diferente do “Expediente Futebol” que vem ao final da tarde. Tem o “Central Fox” que é um noticiário correto, bem feito e tudo mais.

A nossa equipe de narradores e comentaristas é muito boa. A gente não tem aquele monte de ex-jogador. Eu não tenho nada contra ex-jogador. Nada! Desde que o ex-jogador se comporte como jornalista e assuma: “Eu sou um ex-jogador que virei jornalista.”. Ok. Se o cara continua sendo um ex-jogador, ele não exerce a função para a qual ele está escalado. É quase um convidado permanente. Tem muito ex-jogador que não acrescenta nada de conteúdo em uma transmissão e em uma mesa de comentaristas. De novo, não tenho nenhum preconceito contra ex-jogador desde que o cara passe a se comportar segundo algumas regras que o jornalismo impõe. Uma delas, por exemplo, é você não ser amigo de ninguém. “Você tem que falar mal dos caras.” “Mas eu acabei de jogar com os caras, como eu vou falar mal do Rogério Ceni?”. Se você não falar mal dele então você não está trabalhando como comentarista, está trabalhando como amigo do Rogério Ceni. Então, eu não sei até que ponto ex-jogadores acrescentam muita coisa ou conseguem exercer a função segundo uma metodologia de trabalho que o jornalismo necessita e impõe a si mesmo. A nossa equipe é boa, o ambiente de trabalho é legal. É um canal que tem muito dinheiro, muito recurso, bons eventos e não é pretensioso.

Você acha que a desconcentração desse monopólio das transmissões de esportes, com os canais ESPN, Fox e Esporte Interativo vai progredir?

Eu acho que não tem mais players para entrar nesse jogo, não tem mais ninguém para entrar nessa brincadeira. O Esporte Interativo está crescendo, está quebrando um pouco esse monopólio da Globo com os times brasileiros. Por conta do poder que a Libertadores tem, a gente consegue outras coisas, a Copa do Brasil, por exemplo. Eu acho que isso é muito positivo, para o nosso mercado é ótimo porque tem muito mais gente trabalhando, e para o público também porque não tem a concentração em um único canal que decide o que você quer ver. Hoje o telespectador pode ver tudo. Eu acho que isso tem sido muito bom para todo mundo, inclusive para a Globo, porque não cabe tudo só na Globo. Como ela tem o SporTV, que também tem a possibilidade de colocar muita coisa no ar, eu acho legal que eles tenham concorrência. É claro que, para quem é hegemônico, é um incômodo, mas é um incômodo previsível. A Fox vai acabar com a Globo? Não, não vai acabar. O Esporte Interativo vai matar a ESPN? Também não. Cada um vai fazer as coisas dentro de suas possibilidades financeiras e técnicas. Tem espaço para todo mundo porque tem cada vez mais esporte, mais eventos para serem transmitidos, mais corrida, Olimpíada, torneio de tênis… Não cabe tudo num canal só. Então, cada um vai encontrar seu caminho, seu espaço.