06.9

João Havelange

Grupo de Estudos Olímpicos da USP

No final de janeiro de 2012, o ex-presidente da FIFA João Havelange recebeu em seu escritório no Rio de Janeiro a professora Katia Rubio e Sérgio Settani Giglio.  A entrevista integra o projeto coordenado pela professora Katia, intitulado Memórias Olímpicas por Atletas Olímpicos. Essa pesquisa tem por objetivo entrevistar os atletas que representaram o Brasil em alguma edição dos Jogos Olímpicos. Havelange fez parte desse grupo ao defender o país na natação em 1936 e no pólo-aquático em 1952. Embora o ponto de partida seja a sua trajetória olímpica, nos dois dias de entrevista Havelange contou muito sobre a sua carreira de dirigente, tanto da CBD quanto da FIFA. Com exclusividade, o Ludopédio apresenta as principais partes dessa entrevista com o objetivo de prestar uma homenagem a João Havelange pelo seu 96º aniversário completados em maio e desejar votos de melhoria de seu quadro de saúde.

 

João Havelange foi presidente da FIFA. Foto: Sérgio Settani Giglio.

 

Gostaria que o senhor falasse um pouco da sua trajetória como atleta. O senhor nasceu no Rio de Janeiro?

Nasci no Rio. Com quatro, cinco anos, eu aprendi a nadar, naquela época era diferente de hoje. Hoje já se bota um bebê na água. Fui nadador pelo Fluminense, e depois joguei water-polo também pelo Fluminense, e antes pelo Botafogo de Regatas, pois o Fluminense não tinha piscina funda. E fui campeão juvenil de futebol no Rio em 50, 60. Foi em 1931, eu tinha 16 anos. Eu nasci em 1916. Em 32 veio o profissionalismo e quem ganhou o primeiro campeonato aqui foi o Bangu.

Havelange no juvenil do Fluminense. Foto: Arquivo pessoal.

Havelange no juvenil do Fluminense. Foto: Arquivo pessoal.

 

E o que significava esse profissionalismo, Dr. Havelange?

É uma evolução, como uma cópia do que já se fazia na Europa e principalmente nos Estados Unidos com o rugby e com o beisebol. E papai dizia assim: “Olha você vai ser nadador, acaba com isso”.

Pra tirá-lo do profissionalismo?

Do profissionalismo. Hoje em dia todo mundo joga. Veja o que é o mundo e como a gente deve se preparar ou estar preparado, quando assume uma posição de comando. Quando eu cheguei à FIFA, durante minha campanha para a FIFA, de 178 países, eu fui a 82 naquela época. E dos 178, só não fui ao Afeganistão, que você não chega até hoje. Todos os outros países eu fui. E tem mais, o mínimo que eu fui num país, foi pelo menos três vezes. Fui 20-30 vezes. Você imagina o que andei de avião, o que fiz de contato, o que procurei evoluir com o futebol e o que ele representa hoje. E lhe dizendo isso, eu lhe digo com pureza d’alma, por exemplo, quando eu fiz a primeira Copa como presidente, que foi na Argentina, o resultado bruto da Copa 78 milhões de dólares, quatro anos depois, ela foi na Espanha, 82 milhões de dólares. Modifiquei tudo. Você sabe quanto é hoje? 2 bilhões e 400 milhões. Agora tem um outro lado, hoje a FIFA tem 210 países filiados, e se você puser em cada país não sei quantos clubes, para cada clube se eu tenho o treinador, tenho o massagista, tenho o roupeiro, tem isso, tem aquilo, você sabe quantas pessoas com o futebol comem todos os dias, 200 mil e tem mais, se multiplicar por 5, que é a família, 1 milhão de pessoas comem todos os dias graças ao futebol. Esse foi o presente que eu dei. Em 20 anos, não dá. Então, a importância do futebol e como ele deve ser bem tratado e aqui a força que ele é hoje em dia.

Como foi a sua participação nos Jogos de 1936? Quer dizer, é uma edição histórica dos Jogos, não é?

Exatamente. Era presidente do Comitê o Arnaldo Guinle, a família de descendência francesa, foi educado na França. Eles criaram o Fluminense e ele depois fez o Comitê Olímpico, do qual ele foi presidente, depois foi o Ferreira dos Santos, posteriormente é que veio Prado Junior. Nos Jogos Olímpicos, houve as eliminatórias, e eu ganhei pra ir nos 400 e 1500 e eu tinha naquela época, deixa eu lhe dizer, eu nasci em 16, eu tinha 19-20 anos e fui. Quando nós chegamos em Bremerhaven, fomos de navio. Hoje você vai em 10 horas; fomos em 21 dias. Não tinha piscina, não tinha nada, então você perde a forma. Chegamos 10 dias antes. Eu consegui ir a uma quarta de final e o Padilha, foi o melhor. Ele quando entra na reta final dos 400 metros rasos, ele está em primeiro lugar. Não é verdade? Você volta 70 anos atrás e vê como não foi fácil a gente começar a chegar em alguma coisa.

O embarque para Berlim 1936. Foto: Arquivo pessoal.

Navio Cap Arcona. Foto: Arquivo pessoal.

Havelange no navio. Foto: Arquivo pessoal.

Dr. Havelange, conte-nos sobre esses Jogos de 36.  Pelo que conhecemos dos documentos históricos, foram dois grupos brasileiros aos jogos. Como foi isso?

As federações especializadas, que eram do Comitê Olímpico reconhecido estava o Arnaldo Guinle. Do outro lado era a CBD, com o Luiz Aranha, irmão do ministro Oswaldo Aranha, e que era um homem poderoso naquela época, época da vinda dos gaúchos aqui. E ele também mandou uma delegação. A nossa chegou antes e foi recebida, porque era oficial, a deles ficou não sei quantas horas no aeroporto, no hangar em Berlim. Aí houve um acordo, um embaixador veio, e fez um acordo e a delegação do Brasil absorveu esses e eles puderam competir. Onde tinha Piedade Coutinho e a Maria Lenk. E a Sieglinda que nadava de costas.

Maria Lenk e João Havelange. Foto: Arquivo pessoal.

Nadadores Shozo Makino (Japão) e Jack Medica (EUA) | Jesse Owens. Fotos: Arquivo pessoal.

Nadadores Shozo Makino (Japão) e Jack Medica (EUA) | Jesse Owens. Fotos: Arquivo pessoal.

Campeão olímpico de salto em altura de Berlim 1936. Foto: Arquivo pessoal.

Como foi a sua relação com o Padilha?

Uma vez o Samaranch (ex-presidente do COI) me telefonou e me disse: “João tem uma má notícia pra te dar”, nós estávamos reunidos, “o Padilha teve um mal súbito, foi levado pro hospital, está internado e não está bem”. Eu digo: “estou descendo”. Peguei o meu carro e fui pra Lausanne. Estava em Zurique. Fui direto ao hospital, perguntei ao médico e o médico me disse: “é muito delicado”. Eu aí cheguei fui ao Samaranch e disse a ele, a despesa é nossa, metade é tua, metade é minha. Cheguei em Zurique, telefonei pra Sílvia e pra Sonia [filhas do Major Sylvio de Magalhães Padilha], mandei elas virem pra estar ao lado do pai. E quando o pai ficou bom, foi dado a autorização, eu fiz o Lídio Toledo, que tinha sido médico da seleção e depois foi da comissão médica da FIFA. Eu o chamei a Zurique , desci com ele, eu digo: “o Padilha vai voltar pra São Paulo, você o acompanha”. Quem é que faz isso?

A relação de vocês foi muito estreita, não foi, Dr. João?

Muito. Ele era do Fluminense, era um pouco mais velho do que eu. Depois ele teve um problema no Exército e se reformou como major. Ele ia ser general, fácil. E ele foi morar em São Paulo, e ele aí de coisa, ele abriu uma firma, Magalhães Padilha ou algo assim, de venda de esportes e teve um sucesso. Quando ele foi para o Comitê quiseram dizer que ele era profissional, porque fazia isso, pra não entrar no Comitê. Veja a maldade. Fizeram campanha.

João Havelange durante os jogos Olímpicos. Foto: Arquivo pessoal.

Quem fez campanha contra ele? Quem era esse grupo?

Eu não saberia te dizer. Mas olha daquela época já não têm mais ninguém vivo. Eu vou ver se me lembro. E aí eu disse a ele depois de eleito, um pouco depois, e eu disse: “não façam isso, é o homem mais correto que eu vi na minha vida”. E para ir aos Jogos e tudo, esse homem foi sempre se sacrificando. Ele foi à um Sul-Americano em Lima e das provas todas o Brasil foi campeão. Ele correu, eu acho que 4 por 100, 4 por 400, 400 barreira, 110 barreira e 200 metros rasos e 400 metros rasos. E com os pontos dele o Brasil foi campeão. E atacam às vezes, você veja porque, profissional, ele tinha pago tudo.

Mas é o que o senhor estava falando a respeito da sua própria vida, algumas pessoas que ocupam cargos de poder e se desdobram pra fazer as coisas darem certo, elas acabam também sendo alvo de muita intriga.

Exato. A gente tem que estar preparado pra isso. A intriga vem da inveja, por quem não está lá. Então diz: “ah! Eu podia estar no lugar dele”. Esta que é a verdade. Mas quais são aquelas circunstâncias, Deus botou a mão, não botou, paciência. Para poder sustentar o Comitê Olímpico, chegava o fôlego ao final, sempre difícil e tudo. E funcionou, viajou. Para arranjar verba era uma coisa, parece que, parece que era pra gente. E depois se prestava contas, não é verdade? Nós somos pequeninos, vê dinheiro, acha logo que a gente é ladrão. Você, eu, ele, todo mundo. É verdade.

E ele chegou à vice-presidência do Comitê Olímpico Internacional, para o Brasil foi uma coisa muito importante não é?

Foi. E ele foi da Comissão Executiva, porque o elegi, porque é a Assembleia que elege, não é verdade? E ele ficou pela América do Sul, eu acho que uns 10 ou 15 ou 20 anos, eu não sei. Padilha, eu gostava muito dele. Mas, a vida não.

Qual a sua relação com a candidatura do Rio para 2016?

Eu me comprometi, quando da candidatura do Rio, eu fiz o discurso para assembleia, que eu sou membro. Era membro dela, agora já me retirei. E disse a eles que eu apelava para o voto deles, e que se isso fosse possível em 2016 eu estaria lá para recebê-los e convidá-los para o meu centenário. Então todo mundo bateu palma e tinha uma pessoa ao meu lado e eu digo: “Já ganhei”. Veja bem, ficou na final: Rio, Madrid e Tóquio. Eu tive 66 votos ou 64, Madrid teve 32 e Tóquio teve 4. Agora tem uma outra coisa, que eu queria lhe mostrar, como é difícil, a gente estando no Brasil ou sendo brasileiro e tendo a cabeça de fora da Europa. O Comitê Olímpico, veja bem, ele tem, não sei quantos membros, vamos supor, a FIFA tem 210, ele tem um pouco menos, porque futebol é paixão, é diferente. Então, nós ganhamos e a assembleia do Comitê Olímpico são 108 membros, 54 são europeus, você ganha o que? Nada! Os outros 54 são dos outros continentes. Então, veja como o Brasil tem que trabalhar, como ele se apresenta, e quando volta muitas vezes, quantas críticas ainda tem. É um eurocentrismo. Então, na FIFA quem decide é o Congresso ou então, é o Comitê Executivo, mas no Comitê Executivo, 8 são da Europa, 4 são da Ásia, 4 da África, então já empatou. Depois eu tenho 6 das duas Américas e 2 da Oceania. Então, veja a diferença de votação, são 25 com o presidente e você assiste uma votação que é diferente. Veja a Copa do Mundo no Brasil, tranquilo. Agora foi decidida a Copa do Mundo na Rússia pra 2018 e eu recebo um dia, uma carta do Putin e outra do Medvedev, que é o presidente, duas cartas lindas em russo, já traduzidas em francês, eu as tenho aqui, me pedindo se eu podia fazer alguma coisa. E eu respondi a eles que não tinha condições, porque já não votava, mas não faltaria a eles, pela estima e o respeito, para dar uma palavra ao presidente. Telefonei pro Blatter, eu disse: “olha eu recebi assim, assim e eu gostaria que tu pensasse”. Eu fui e disse a ele: “não esqueço que eu fiquei 24 anos e tu estiveste ao meu lado durante 18 anos”. Eu disse: “é verdade e os mais leais na minha administração foi a União Soviética e todos países satélites, nunca me faltaram!” Então eu acho que é justo, eles têm um futebol bom, é uma organização e pensar nisso é o meu pensamento. E saiu, houve a votação, 14 pra Rússia, 8 pra Espanha-Madrid e 2 pra Inglaterra. A Inglaterra perdeu e começou uma campanha contra mim e contra o Blatter e apresentou um candidato.

João Havelange em seu escritório. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Qual foi o período que o senhor foi presidente da CBD, Dr. Havelange?

Eu estava em São Paulo, foi de 1955 a 74. Em 52, eu fui eleito vice-presidente do Silvio Padilha e depois assumi e fui até ir para FIFA, em 74. Eu tinha 10 anos, e me lembro, Washington Luís, ele era daqui do Estado do Rio, mas vivia em São Paulo, então era um presidente paulista, depois até tiveram presidentes de todos lugares, eu lhe faço uma pergunta: quantas vezes um presidente da República foi a um estádio? Não conhece. Eu quando estava na CBD, todos os anos, quando tinha o futebol e mais 24 modalidades amadoras, eu ia 4 vezes por ano a todos os estádios, a todas as federações. Assim que a gente deveria dirigir o Brasil e na FIFA dos 178 eu só não fui ao Afeganistão e o mínimo que eu fui foi 3 vezes, outros 20, 30, então a ONU o presidente faz isso. A ONU era de Gana hoje é da Coreia, quem manda neles são os Estados Unidos.

E a FIFA…

Perdão, eu aprendi aonde, aqui, você tem que conhecer todo mundo. O meu país é deste tamanho, se eu pego os 17 países da Unidade Europeia, eu ponho num canto do Brasil. Já há alguns anos eu era o presidente da FIFA e nós tínhamos três bancos: Societe de Banque Suisse, União de Banco Suíço e Credit Suisse. O União de Banco Suiço depois absorveu o Societe de Banque Suisse e ficou o Credit Suisse e os dois. O Credit Suisse o presidente era muito meu amigo, eu um dia houve uma decisão de votação na Suíça se eles deveriam entrar na Unidade Europeia ou não. O hotel que eu fico até hoje é o Savoy, estou lá há 30 anos. Então eu o convidei pra almoçar, o hotel é do banco dele. Almoçamos e eu digo “eu te convidei aqui para te fazer uma pergunta”, me disse “qual?” Ele é mais moço que eu. “Você vai ter que votar, “Você vai votar em quem?” Ele disse. “Ainda não me decidi”, então eu digo: “queria te dizer uma coisa, o principal produto da Suíça chama-se dinheiro, o banco é quem toma conta, não é verdade” Ele disse: “sim”. Para você entrar na Unidade você entra e vai ter que desbloquear tantos milhões de francos suíços para o euro, não é verdade. A Unidade parece que naquela época, hoje não, mas hoje são 17 países. O dia em que ela se dissolveu, que esse papel, esse papel que é o dinheiro o que vale? Não vale nada, joga fora. Então, eu te pediria “presta atenção que o poder da Suíça é o dinheiro”. Veja o que é que tá acontecendo, você não é gênio e nem eu gênio, mas nasceu aqui, nós temos uma visão, mesma porcaria, tudo que você quiser, mas em cada lugar você tem uma visão de forma diferente e aqui tem atitude. O mundo é isso. O cearense é um, o paulista outro, o gaúcho é diferente do outro.

João Havelange presidiu a FIFA. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Como foi a sua chegada à FIFA, Dr. Havelange, como o senhor foi eleito presidente da FIFA?

Um dia estava aqui, fiz um congresso da Sul-Americana aqui no Rio, depois dei a todos um churrasco em uma churrascaria na Tijuca. Levantou-se o presidente da Sul-Americana e fez um discurso e disse: “nós vamos lhe apresentar para candidato à FIFA pra 74”. Isso era em 71.

Foi logo depois do tricampeonato.

Tricampeonato. E eu fiz uma carta de agradecimento, depois fiz uma carta ao presidente, para que de que ele me liberasse dessa eleição. Ele me dise que aquilo era a decisão do congresso e que estava acertado. Foi em outubro de 70. Durante o ano de 71 e princípio de 72, ninguém se manifestou, fiquei no ar. Aí, como eu tinha uns determinados pontos no mundo, pus em contatos. E em um ano, eu visitei naquela época, antes da eleição, 82 países. Eu fui a muitos na África, porque com a relação do Brasil, na Ásia, porque eles eram muito sofredores, toda a Oceania, enfim, e aqui na América Central foi total.

Quem era o seu concorrente?

Stanley Rous. Que eu vou lhe dizer o que ele me fez padecer. Quando houve a Copa do Mundo de 66 na Inglaterra, se eu ganho seria tricampeão do mundo. A Inglaterra que se dizia dona da criação do futebol nunca havia ganho nenhuma Copa do Mundo. Então ele botou a Copa de 66 no país dele. E eu fui, acabei tendo que ir como chefe da delegação; Paulo Machado não pôde ir, o Sílvio não pôde ir, não sei mais quem que eu tinha convidado, enfim, eu fui. Comuniquei a Federação Inglesa da chegada da delegação, à FIFA da chegada da delegação. Cheguei com a delegação, umas 40 pessoas, me deixaram esperando no aeroporto duas horas. Primeira gentileza. Fui para o hotel, que tinha sido alugado pela CBD. Depois que cheguei, mandei saber onde é que nós íamos treinar. Aí veio um senhor e diz assim “eu lhe acompanho, eu o levo ao campo” e eu fui. Quando ele abriu, eu entrei, o capim estava desse tamanho [enorme]. Veja a gentileza. Eu não disse nada, o time treinou no fundo da coisa e eu mandei preparar o campo. Mas treinou 10 dias lá. Bom, primeiros três jogos, Portugal, Hungria, Bulgária, para três jogos, são nove árbitros, três árbitros, seis linesman, seis bandeirinhas, sete eram ingleses e dois alemães. E acabaram com o time, tá bom. Esse foi o presente do Stanley Rous. E foi assim. Eu não disse nada, fiquei calado e naquela época o sistema da FIFA, os times que voltavam eram recebidos na Prefeitura. E eu fui com o time, estava na porta o Stanley Rous. Ele me estendeu a mão e eu como estava eu fiquei. Ele me disse: “o que é que tem?” Eu digo: “faz uma análise da tua consciência e você tem a resposta”, e entrei. E acabou, fiquei lá uma meia hora e viemos embora. E à noite pegamos o avião pro Rio. E assim eu voltei. E veja uma coisa, até hoje o gol da Alemanha que entrou e eles não deram. Então veja o que eles querem, é ter a presidência e fazer tudo. E se é um outro é ladrão, é isso, é não sei o quê. E tem mais uma coisa. Na FIFA, é isso que às vezes me dói nesses países, quando eu cheguei a língua principal era o francês, porque foi fundada por um francês, o Jules Rimet. Inglês, alemão e espanhol, ponto final. Eu aí o que é que eu fiz?. Passou o tempo, hoje são sete línguas. Português, botei o árabe, fiquei com todos os países árabes e eu botei a Rússia. Têm mais essas três línguas. É o único lugar do mundo. Quem fez? Um imbecil que veio do Brasil, tá bom!

Dr. Havelange como é para o senhor, sendo brasileiro, ter ocupado a posição que o senhor ocupou numa entidade de poder que tem mais filiados que as Nações Unidas? Como foi chegar neste lugar e exercer seu poder?

Bom, eu estava na CBD e recebi críticas muitos fortes do meu país quando eu assumi porque eles diziam que eu era nadador e não entendia nada de futebol e eu disse a eles que amanhã eu posso ser presidente de um banco, não entender nada, mas ter um diretor pra cada coisa. No futebol tem o técnico, tem o supervisor, tem o massagista, tem isso, tem aquilo, pronto. O principal é saber escolher isso aqui e com isso eu fui tricampeão: 58, 62 e, e 70. Em 66 eu tive uma maldade do Stanley Rous que eu tinha ganho dele. Os ingleses é que mandavam. Foi o presente, não disse nada. Quando voltei, eu vim pela Varig. Era a Varig já, o comandante era o Bungner, Guilherme Bungner, filho de alemães, nadou comigo no Fluminense, ele era do Flamengo e eu era do Fluminense. Nós éramos amigos e tudo e ele era o comandante do avião. E o time entrou, ele correu a pista, chegou no final, comunicou que havia um defeito e voltou com o avião e me chamou. ?Não iremos decolar porque chegarem às seis horas da manhã e tem gente a beça pra te fazer uma maldade, nós vamos sair daqui e vamos chegar à meia-noite e não vai ter ninguém lá?. Então eu disse um motivo e ficamos. Então veja como é delicado e o que é a paixão, não é verdade? Você por uma namorada é capaz de fazer uma loucura, matar ou vice-versa, não é verdade? Então a paixão se não for controlada, ela pira.

João Havelange e Katia Rubio. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Diante de todas essas dificuldades de ser um brasileiro,  um estranho no ninho, o senhor teve em algum momento a intenção ou pensou em desistir e fazer outra coisa?

Não, não. Eu acho que quando você é eleito, você tem que ter o respeito consigo mesmo e com as pessoas que elegeram, que o elegeram e ir até o final. Só se me matasse, senão eu não sairia. Eu acho, é uma forma de ser.

E o senhor buscava forças onde pra ficar?

Para você ter uma ideia, eu fui eleito uma vez, as outras cinco vezes, que eu fiz seis mandatos, eu fui aclamado, não tinha candidato. Então, isso nunca aconteceu com ninguém.

E quem foram os seus grandes aliados, Dr. Havelange?

Todo o Caribe, toda a América do Sul, a África, toda ela, e a Ásia também, Japão, Coreia do Sul, Coreia do Norte. Você sabe como é que eu ia à Coreia do Norte? Existem duas entradas pra ir à Coreia do Norte, ou pela China ou por Moscou, por questão de regime, daquela época. Todas as vezes que eu fui, fui pela China. Eu ia à China, pegava o avião e entrava na Coreia. E fui recebido pelos presidentes, por tudo mundo, com um carinho, uma atenção, uma delicadeza, e como eles tinham problemas, sofriam muito, eu botei gente na FIFA, como é internacional, o sujeito podia sair. Então, ninguém esquece isso. Eu vou lhe dizer, a primeira vez que eu fui à China quando meu neto faria um ano, o Rico. Eu, ao invés, de vir pra casa para estar com ele, eu fui à um encontro na China. E eu tinha o endereço de uma moça, de uma senhora, que era chinesa, foragida do regime do Chang Kai-Chek, da China, não é?

Mao Tsé-Tung.

Mao Tsé-Tung. Exatamente. E morava em Hong Kong e quanto eu toquei a campainha, ninguém atendeu. Eu voltei, eu perguntei, “não tem gente?” Eu toquei, até que ela abriu uma fresta da porta, eu disse quem era, eu entrei. Essa senhora falava português, tinha estado aqui, o pai dela tinha sido embaixador da China aqui no Brasil, falava francês divinamente bem, inglês, e então, eu disse a ela: “eu estou chegando” e fiz ela minha representante naquela área toda. E eu estou preocupado, porque eu telefonei e fiz carta e não respondeu, ela mora em Paris hoje. Toda a vez que nós vamos, Ana Maria vai buscá-la e nós almoçamos juntos. E a trouxemos aqui ao Brasil, tudo. E essa moça é que me orientava de tudo. Eu na Inglaterra tinha o Peter Cullen, dentro da zona inglesa, me orientava de tudo. Eu tinha o Pischie, na Alemanha, pela língua, me orientava de tudo. Em Portugal, eu tinha o, o meu Deus, aliás muito meu amigo, já morreu, e tudo, também, então, eu quando chegava, eu quando de abrir a boca, eu estava com eles, eles me diziam, não diz isso, não diz isso, não diz isso. Então a gente é sempre simpático. E com isso eu fui ganhando o terreno. Mas lhe digo que é uma caminhada. É, é duro. Mas pelo meu país eu acho que eu tenho um sentimento pelo Brasil por que eu conheci o mundo, como sou filho de estrangeiros, a gente parece que gosta mais, porque minha mãe contava as dificuldades. Meu pai, por exemplo, se formou engenheiro de minas que antigamente no final do século XIX, quem comandava era o carvão, Alemanha tinha um carvão e a Bélgica também, em Liège. E meu pai se formou em engenharia industrial. Quando veio aí não tinha emprego. Aí meu pai aceitou ser ir para o Peru, como engenheiro e foi professor na universidade e quando ele foi pro Peru, ele marcou a viagem dele no Titanic e o Titanic ia sair eu acho de Southampton e meu pai chegou atrasado. O navio foi embora. No meio do caminho o iceberg acabou com ele. Então, veja que Deus botou a mão. E meu pai ficou no Peru em 1901. E ficou lá, eu acho que 12 anos. Quando voltou, casou com a minha mãe e veio pro Brasil.

Na busca por patrocínios para a Copa do Mundo o senhor procurou a Pepsi-Cola antes da Coca-Cola, não foi isso?

A Pepsi-Cola não, eu primeiro quando quis fazer, eu quis botar a Suíça, com aquele produto básico deles, de cacau, de chocolate. Falei com o diretor dessa empresa de chocolate, fiz uma exposição e ele disse: “nós não temos condições” e não quis. Eu aí me lembrei da Pepsi-Cola e fui aos Estados Unidos, e quem era presidente da Pepsi-Cola era uma artista de cinema, e me recebeu um presidente, falei com ele, dei todos os elementos. Ele me disse: “dentro de uma semana, lhe dou a resposta”. Estou esperando até hoje. Fui à Coca-Cola, fiz a apresentação, a apresentação era ao Killeen, presidente da Coca. Um dia ele me telefona: “eu estou indo pra Zurique, quero falar com o senhor”. Ele disse poderíamos assinar esse contrato na Inglaterra, em Londres, e fomos. Em 75, ele me disse “vamos assinar o contrato”, “vamos”, respondi. Onde eles estão até hoje?. Veja bem, sabe quanto paga pra estar na Copa do Mundo? Quer saber? 150 milhões de dólares, são 15, 1 bilhão 750 milhões já vem daqui, foi um dos presentes que eu dei à FIFA, são 15. Fechamos o patrocínio e o presidente da Coca-Cola fez uma exposição e depois voltou a palavra aos que estavam presentes, e aí um jornalista inglês, o mesmo que voltou a me atacar agora, me fez a seguinte pergunta, veja bem a maldade, “qual é o seu interesse na assinatura deste contrato?” Ele deveria ter dito o que representará para a FIFA a assinatura desse contrato. Eu deixei passar uma fração de segundos, porque eu sou imbecil, mas vim daqui do Brasil [risos] e aí ficou todo mundo na expectativa, eu disse: “interessante a sua pergunta, e estou feliz por ela, quem é de dizer que uma vez por ano, precisamente no mês de outubro e na segunda quinzena, eu tomo um copo de Coca-Cola”. Foi uma gargalhada e acabou tudo. Esse homem me odeia até hoje, tá bom. Porque nós nascemos no Brasil, temos resposta gratuita, nós raciocinamos mais rápido que eles, me perdoe. Na nossa formação. Pode ser ruim, mas em certos momentos, é muito bom. Você veja o ex-Presidente da República, ele pode não ter tudo, mas ele é malicioso, é esperto.

Lula?

Exatamente. Você tem dois cachorros, um bonito, policial e um vira-lata, me perdoe, amanhã eu morro, ficam os dois na rua, esse morre e o vira-lata dá volta e tá vivo [risos]. O Lula dava volta e dava tudo, tá certo? Olha o Fernando Henrique, uma cultura, um valor, um professor universitário, meu amigo, tratamos juntos, e veja a diferença, um administrando com uma cultura, o outro um homem popular. Interessante, não é verdade, quando a gente analisa e veja, que tá faltando ao Brasil, um bom Fernando Henrique, me perdoa. Eu não sei se você é PT, mas Fernando Henrique deixou cultura, deixou valor.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva condecora o ex-presidente da Fifa João Havelange, durante assinatura da carta compromisso com as garantias do goverrno para a realização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Ao fundo, o ministro do Esporte, Orlando Silva – Brasília, 2007. Foto: Roosewelt Pinheiro – ABr.

Porém o ex-presidente Lula teve o mérito de colocar o Brasil na vitrine.

Exatamente. Isso é verdade. Isso ele é nota 10. Eu me lembro quando houve a eleição para o Brasil sediar a Olimpíada. Então os membros do Comitê, da Assembleia, tinham o direito de fazer perguntas. 35 se inscreveram pra falar com ele. Ele aí me chamou e disse: “posso pedir um favor Dr. Havelange?” Me chamava de Dr. Havelange, e digo “pode pedir”, “É que eu vou receber essas pessoas e gostaria que o senhor ficasse ao meu lado para qualquer coisa”. Então, eu fiquei não sei quantas horas, tá certo.

Essa parceria entre a FIFA e a Adidas começou há muito tempo?

Quando eu cheguei à FIFA em 74, a Adidas já estava lá e ela fez naquela ocasião uma campanha a favor do Stanley Rous contra mim. E olha, eu sei o que padeci. Eleito, o Dassler veio me ver e foi de uma correção total. Conosco até hoje, a Adidas já saiu da família, já compraram, já teve isso e tudo. Então vou lhe dar um aspecto, que você tem o direito de não acreditar, já que estamos falando de Adidas. Hoje em dia, o vice-presidente do Comitê Olímpico Internacional é o Thomas Bach, da Alemanha, que é presidente do Comitê Olímpico Alemão, que é um grande advogado, fala alemão, inglês e francês. Eu me dou muito com ele, sabe como quando eu o conheci, ele tinha 17 anos, começou a trabalhar na Adidas, pra aprender. Então veja, já naquela época o que isso representava. Você vai a Paris, uma das principais lojas é a Adidas. Então, veja dentro de novo eu digo da pergunta que me fez, no espírito que quer conhecer, o que representa hoje o futebol, sobre o aspecto de emprego, sobre o aspecto quantitativo que se jogam dentro dele, sobre o aspecto político, sobre o aspecto financeiro.

É possível dizer que o maior legado da Copa da África do Sul foi a autoestima?

Exatamente. O futebol desperta isso. O basquetebol são 20, dois mil numa quadra. O rugby é não sei o quê, futebol é futebol, é uma doença. Principalmente nesses países, não é verdade? E, eu acho que o governo, por exemplo, o Fluminense está em dificuldades, faz anos, o Botafogo, o Vasco, e em São Paulo, é a mesma coisa. O prefeito se tivesse um pouco de cabeça assumia determinados impostos, mandava jogar pro alto. Em contra-partida, o clube tinha que receber todo dia tantas crianças para fazer esportes, e eles não precisavam pagar isso o ano inteiro. Porque o futebol é que une, é o futebol é que dá vida e dá uma esperança. E um dia essa criança vai fazer uma viagem, é o que todo jovem quer, pode ver, está no pensamento, esteve no seu, esteve no meu, porque que os outros não têm, não é mesmo?

João Havelange durante a entrevista. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Por que no Brasil é tão difícil do futebol feminino ter o reconhecimento e o apoio que as meninas merecem, Dr. Havelange?

Me dói muito o que você está dizendo, este sentimento eu também o tenho. É mais um peso financeiro no clube e eles não têm condições. Aí é que eu digo que o homem público devia enxergar isso e facilitar. Quer dizer, eu tinha obrigação de receber tantas crianças do bairro, podem ser preto, branco, azul, amarelo, o que fossem, não é verdade? Em contra-partida, a municipalidade me daria uma coisa e sobre isso eu vou lhe dar um exemplo, que você tem o direito de não acreditar. Carlos Lacerda, você nem era nascido quando o Carlos Lacerda foi governador. E, então, Carlos Lacerda um dia me chama no Palácio: “vai ter um movimento contra mim, e eu estou preocupado, e é tal dia”, eu digo, “bom, pode deixar, você me permite fazer alguma coisa?” “Fica à vontade”, respondeu. Peguei o avião e fui ao Paraguai, o presidente era meu amigo, pode ir ao Rio, digo, venhas. Maracanã, 186 mil pessoas pagaram. Houve o jogo, o Brasil ganhou, o time foi embora, o povo saiu, não houve nada. Então, veja a força do futebol. O sujeito não tem coragem ,está entendendo? E o Carlos ficou tranquilo. É isso que estes imbecis não se deram conta, por isso eu fiquei 24 anos na FIFA e saí porque fiz uma carta, eu já tinha 80 anos, dizendo que não me reapresentaria pra 82, porque 80 anos, a gente começa a descer a escada da vida. Então, tudo o que você fez antes vai ser esquecido e vão dizer, “coitado” [risos]. É verdade. Eu estou de muleta, que eu estou com o tornozelo, que eu torci, e com isso, andando com dificuldade, me afetou o joelho. Então, veja como é delicado e eu já vou fazer 96, então veja que não é fácil. E tem mais, eu estou lhe dando essas informações, não tem um documento e lhe dou todas as datas, nomes e tudo, você vê que a cabeça funciona.

Como foram suas relações com os países árabes?

Em 1974, assim que fui eleito presidente da FIFA teve uma situação interessante. 1975 tem a final da Copa da Ásia, no Irã, era o chefe do Irã, o Xá da Pérsia, Reza Pahlevi. E houve a final entre Israel e Irã em Teerã. E eu fui pra final. E ele não pôde ver, o Xá da Pérsia, veio o filho dele, que tinha 12 ou 14 anos, e eu digo sempre que Deus tem a mão no meu ombro, parece uma coisa, e eu torci pra que Israel perdesse, se não, não íamos sair de lá. Palavra de honra. Então, isso foi em 1975, e eu tinha os jogos de 1976 em Montreal, e eu tinha que decidir os campos das cidades, e quando terminou o jogo, Israel perdeu de 2 a 1, e o menino, o rapaz disse: “Dr. Havelange, vamos entregar os prêmios”. Quando eu me levantei, se levantaram uns armários, que eram os seguranças, mas uns quadriláteros. Eu desci dois ou três degraus e digo ainda não me conhece, voltei e sentei bonitinho, ele foi, entregou os prêmios e depois quando ele voltou, ele me disse, “o senhor não pôde vir?” “Não, eu queria que todas as homenagens fossem para você”. E de noite, peguei o avião e vim a Montreal, decidi, e dois dias depois estava no Rio. Telefonei pra Israel e falei com o presidente da Federação, “pergunta se o teu primeiro ministro e o presidente da República podem me receber?” E um dia, ou dois depois, me telefonou e disse que poderia. “Então, diga que eu estou indo”. E aí eu fui ver todos os países árabes, o primeiro foi o de Saddam Houssein, que era o Iraque, eu fui a Israel e disse a ele, “eu tive receio do que acontecesse, eu gostaria que o senhor me permitisse retirar Israel e colocar na Oceania”. Ele disse: “em princípio, estamos de acordo Dr. Havelange”, porque era delicado. Eu voltei para o Brasil, porque passaporte com visto de Israel você não entra em nenhum país árabe. Peguei meu outro passaporte e cheguei. Falei com ele, e digo, “olha tem isso”, precisa ver como ele ficou. Ele aí me recebeu, foi de uma violência, mas eu contornei, acabou concordando que Israel saísse, eu fui a todos os países árabes, todos de acordo. Aí que Israel jogou lá um ano e um dia o presidente veio à mim, à FIFA e me disse,” Dr. Havelange, nós não poderíamos ir para a Europa? Eu digo: “eu falo com o presidente”, que era alemão, falei com ele e ele me fez a coisa, e Israel tá até hoje. E não se encontram. É isso que o mundo não sabe fazer.

Confira a segunda parte da entrevista no dia 23 de maio.