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João Paulo Medina (parte 3)

Equipe Ludopédio

João Paulo Medina é um multiprofissional. Mestre em Educação e doutorando em Educação Física (FEF/Unicamp), foi professor da Unicamp e PUC-Campinas. Foi preparador físico e participou ativamente da estruturação e organização dos departamentos de futebol de diversos clubes brasileiros. No início da década de 90, foi assistente técnico da Seleção Brasileira de futebol e responsável pela preparação física e coordenação de planejamento da seleção da Arábia Saudita. É o idealizador e criador da Universidade do Futebol, um dos principais sites brasileiros dedicados ao universo futebolístico.

Foto: Sérgio Giglio.

João Paulo Medina durante a entrevista. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Terceira parte

Você tem percorrido alguns centros, alguns clubes de referência em termos de futebol no mundo. O que esse intercâmbio tem revelado para você? Ao entrar em contato com outras pessoas que estão pensando a gestão no futebol, que análise você faz diante do cenário que se encontra no Brasil?

É uma distância que vinha crescendo dramaticamente. Mas parece que, finalmente, a comunidade que trabalha e está envolvida com futebol começou a reagir depois do humilhante fracasso da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2014. Eu costumo até brincar: “Bendito 7 a 1!”. A Universidade do Futebol e muita gente que analisa mais criticamente o futebol vêm denunciando esses problemas estruturais do futebol há muito tempo, há dez, quinze anos. O Brasil ter sido pentacampeão, ter participado de todas as Copas, ser ainda um grande exportador de craques, tudo isso ficava encobrindo as nossas deficiências. Precisou um resultado acachapante para as pessoas realmente entenderem que alguma coisa está errada, que o “7 a 1” não foi apenas um acidente de um jogo. Claro que o resultado, visto de forma isolada, pode permitir a conclusão de que o episódio tratou-se de uma acidente. Mas vários outros sinais vinham sendo dados dentro de campo e sempre tínhamos desculpas para justificar os fracassos. O 7 a 1 impactou muito na nossa autossuficiência e autoestima. Aquela prepotência que nós tínhamos em relação ao nosso futebol foi colocada em cheque. Se a gente perdesse só de 2 a 1, talvez, esta cegueira continuasse por muito mais tempo. Neste sentido é que digo que este resultado na Copa do Mundo em nosso próprio país foi providencial para que abríssemos os olhos e entendêssemos que muita coisa tem que ser mudada. Penso que foi uma lição que estávamos precisando. As vezes é na dor que aprendemos.

Falando um pouco mais desse intercâmbio, o que você percebe de grandes diferenças?

A primeira coisa necessária para que haja mudanças é ter a compreensão de que você tem deficiências ou aspectos para melhorar. A própria Alemanha, que ganhou a Copa do Mundo, teve o “7 a 1” deles. Foi em 20 de junho de 2000, quando a seleção alemã foi eliminada precocemente na fase de grupos da Eurocopa ainda na fase de grupos com um empate e duas derrotas. Esta foi a gota d’agua que fez com que os alemães resolvessem mudar o rumo de seu futebol.

Em 2015 a Universidade do Futebol fez uma visita à Bundesliga e na Federação Alemã de Futebol, que são as duas instituições que deram sustentação à transformação que o futebol alemão teve nos últimos quinze anos. Ouvimos dos executivos destas duas instituições muitas coisas que precisaríamos aprender. Primeiro que não se melhora o futebol de alto rendimento se não cuidarmos da base. E quando digo “base”, não me refiro só às categorias de base, mas à massificação do esporte de forma ampla. É preciso estimular a prática do futebol em todas as suas instâncias. O que os alemães fizeram foi uma revolução por meio de esforços e investimentos integrados, dentro de uma visão sistêmica. E depois de certo tempo começaram a colher os frutos. O sucesso do plano alemão não se justifica apenas pela conquista da Copa do Mundo em 2014. Mesmo que tivessem perdido, as mudanças positivas poderiam ser vistas por todos aqueles que não se prendem apenas aos aspectos circunstanciais. Todos sabemos que a Copa, em seu formato tradicional é uma competição onde se faz um número reduzido de jogos (7 jogos) e que se pode ganhar ou perder por fatores fortuitos. E não se pode decretar que um país está bem ou mal, futebolisticamente, apenas pela performance de sua seleção neste importante, porém, rápido evento. Claro que a Copa potencializa esta avaliação. A Alemanha poderia ter perdido na final contra a Argentina, por exemplo. Ou no jogo contra a Argélia, em que eles foram muito mal, ganharam pelas circunstâncias. Foi uma partida dificílima, em que podia ter dado Argélia, veja só! Isso são coisas do futebol que não podem atrapalhar uma análise mais profunda dessa situação.

Mas voltando à visita que fizemos à Bundesliga e Federação de Futebol da Alemanha, eles nos mostraram muito isso. Uma das perguntas que eu fiz aos executivos alemães que nos receberam foi: “Vocês se inspiraram em exemplos de outros países para fazer o planejamento integrado que considerassem todas as dimensões e setores que envolvem o futebol?” A resposta de um deles foi: “Nunca me fizeram essa pergunta; deixa eu pensar um pouco”.  Mas aí, olha que coisa bacana que ele falou e que pode nos servir de uma lição de inteligência e até de humildade. Nós, com a nossa arrogância futebolística, após tantas conquistas memoráveis, muitas vezes deixamos de perceber as experiências de outros países, mesmo que em termos gerais eles não tenham um futebol que nos encante. Após refletir um pouco, o executivo alemão nos disse que em termos de marketing, mídia, audiência, de trazer o público ao estádio, eles se inspiraram nos Estados Unidos. Os americanos são especialistas em realizar eventos fantásticos. No que se refere aos cuidados com os detalhes – e vocês sabem que neste quesito os alemães são bem exigentes – eles se inspiraram nos japoneses. E que eles sabiam que em alguns aspectos os japoneses os superavam. Já na questão da infraestrutura futebolística a França conseguiu fazer um trabalho muito bom e que culminou até com a conquista da Copa do Mundo de 1998. Eles interpretaram então, que existiu muito desse investimento nos campos, nos centros de treinamento, na infraestrutura de formação e treinamento. No tema relativo à tecnologia aplicada ao futebol, para que pudessem interpretar melhor o desempenho dos atletas e saber o que está acontecendo nos jogos, nos treinos, com cada atleta, e mesmo o que se passa fora do campo, como o comportamento da torcida, eles se inspiraram na Bélgica. Inclusive, existem empresas belgas que prestam serviço ao futebol alemão. E, finalmente, até para a nossa surpresa, o executivo nos disse que em termos de prazer, descontração e alegria em jogar futebol, a inspiração vinha evidentemente do Brasil.

Observação: Em um outro momento da apresentação, os executivos alemães já haviam colocado que no que se referia à organização da Liga Nacional de Futebol, os ingleses conquistaram resultados financeiros que ainda estão longe de serem alcançados não só pelos alemães (segundo colocado no ranking de receitas dos clubes da UEFA), como por qualquer outro país, em uma análise econômico-financeira do futebol.

Quero destacar que estas afirmações me calaram profundamente e elas sintetizam um pouco aquilo que penso sobre a nossa atitude diante dos desafios que temos em face ao nosso desenvolvimento. Os países que querem se desenvolver em qualquer coisa, não só no futebol, têm de ter antes que tudo, um diagnóstico, um planejamento, um pacto entre os interesses diversos que existem entre os clubes. Na Alemanha, por exemplo, o Bayern de Munique ajudou financeiramente o Borussia Dortmund em determinado momento. Por quê? Porque eles entendem que não podem ter um campeonato muito saudável com um time só. É sabido que em todos os países, os clubes com mais recursos levam uma grande vantagem por poder ter os melhores jogadores, os melhores treinadores e as melhores estruturas. Mas é preciso se fazer um esforço para estabelecer algumas condições que permitam a competitividade em número razoável de concorrentes. Claro que esta é uma condição que o capitalismo nos impõe. Quem tem mais dinheiro quase sempre consegue fazer mais coisas em determinados aspectos. Os clubes mais modestos no plano econômico e financeiro, no entanto, além de precisarem ser mais criativos e eficazes, necessitam receber incentivos dos órgãos responsáveis pelos negócios no futebol, se é que se pretende manter uma saúde competitiva e gestão de todos os concorrentes.

Enquanto esta movimentação ocorre em vários países, aqui no Brasil ainda não despertamos para esta realidade e este novo cenário. Em outra conversa com o Eduardo Bandeira, presidente do Flamengo, perguntei a ele se só cuidar da gestão do clube seria suficiente para se criar um círculo virtuoso no futebol brasileiro. Não seria preciso cuidar da saúde do sistema como um todo? Em especial, dos clubes?”. E ele respondeu: “Sem dúvida, a gente não pode crescer isolado do crescimento do futebol brasileiro. A gente tem que ter competidores fortes para que o futebol se fortaleça e também para que o Flamengo se fortaleça.”. Claro que ele enfrenta problemas, na prática. Como, por exemplo, abrir mão das cotas superiores de televisão que recebe juntamente com o Corinthians? Mas em tese a sua visão é sensata porém ainda isolada, se comparada com os presidentes da grande maioria dos outros clubes de Série A do Brasil. Talvez um ou outro dirigente já tenha esta compreensão, mas ela não é capaz de mobilizar a todos no sentido de se formar uma Liga Nacional, por exemplo. Não quero dizer com isso que uma Liga Nacional seja a solução, por si só, de todos os problemas do futebol brasileiro, mas pode ser um passo para que se tenha as rédeas da gestão dos clubes propriamente dita, para que se possa negociar melhor, defender os interesses de um campeonato que tenha mais público, que seja melhor, que tenha times que joguem melhor, bonito. Afinal, o jogo bonito é a “marca registrada” do nosso futebol, admirado e respeitado por todo o mundo e que temos que explorar estrategicamente. Evidentemente o desafio é enorme. Não se pode decretar que se jogue bonito. Embora tenhamos este potencial do “jogo bonito”, estamos perdendo pouco a pouco esta característica. Se formos rigorosos com nosso futebol podemos perceber que hoje jogamos mais feio do que alguns países que falávamos que tinham “cintura dura”. O próprio jogador alemão era sinônimo de disciplina, tática, coesão, luta, empenho, mas de “cintura dura” para jogar. Os brasileiros, muitas vezes, sem alguns destes atributos, mas com ginga, drible, astúcia, irreverência, criatividade e um mínimo de disciplina tática conseguiam vencer os adversários. E ganhamos assim muitas e muitas vezes. Mas agora está cada vez mais difícil ganhar desta maneira. Não só por que estamos perdendo a nossa essência, mas também por que insistimos em continuar desorganizados. E o mais grave é que os outros países, com a globalização, novos recursos humanos e tecnológicos, já conseguem formar jogadores que são cada vez menos “cintura dura”. Basta ver qualquer lista ou ranking dos 50 melhores jogadores do mundo dos últimos tempos e verá que a tendência é de ter cada vez mais estrangeiros e menos brasileiros. Neste sentido, a Universidade do Futebol fez esse estudo comparando 1983 com 2013, ou seja, comparando dois rankings com um intervalo de 30 anos. Na lista dos 50 melhores de 1983, nós tínhamos 12 jogadores brasileiros. Na de 2013, nós tínhamos apenas três: Neymar, Thiago Silva e Daniel Alves. E outra coisa: dos 12 de 1983, a lista apresentava sete atacantes brasileiros; na lista de 2013, dos três brasileiros tínhamos um atacante e dois defensores. Evidentemente que podemos discutir ou relativizar esses rankings, mas são indícios de que nós precisamos saber interpretar. A verdade é que não produzimos mais os talentos da mesma forma que fazíamos há 30 ou 40 anos e a admiração por nossos jogadores começa, aos poucos, a diminuir. O processo formativo sustentado pela chamada “pedagogia da rua” (prática espontânea da rua, campinhos improvisados, praia) vem sendo substituído por quadras onde a prática muitas vezes se dá de uma forma pedagogicamente equivocada, onde o espaço para a imaginação, a criatividade e o direito ao erro é cada vez menor. Além, é claro, da concorrência que a prática do futebol sofre com outras atividades influenciadas por uma nova cultura que muda a cada momento o modo como as pessoas se relacionam e os jovens se divertem. Enfim, não formamos mais os nossos futebolistas de forma a preservar a nossa essência criativa e irreverente. Precisamos entender isso. Saber por quê os jogadores estrangeiros, antigamente chamados de “cintura dura”, estão se transformando em “cintura mole”, e nós antes indiscutivelmente “cintura mole” estamos ficando com a “cintura dura”.  Precisamos debater e entender isso se quisermos mudar nossas perspectivas para os próximos 10 ou 15 anos.

É neste ponto que tem que entrar a academia, a universidade, as pesquisas, os estudos, ter dirigentes que se interessem e apoiem estas mudanças ou resgate de nossas origens adaptadas às novas demandas do futebol e da sociedade contemporânea. Os dirigentes e executivos precisam entender de gestão profissional, mas precisam também entender um pouco de futebol de uma maneira que fuja do senso comum. Afinal são eles que contratam e devem dar suporte para treinadores e demais profissionais que trabalham com a formação e desenvolvimento dos atletas. Nada disso é feito no Brasil de forma sistematizada e planejada. Isto que incomoda muito: ter que perder de 7 a 1. Tomara que a gente não tenha ainda que deixar de se classificar para um Copa do Mundo para acelerar esse processo de análise de queda do Brasil, de protagonista a coadjuvante. Nós é que temos que traçar esta curva de reversão de nosso declínio futebolístico. Felizmente este cenário está ficando claro na visão de algumas pessoas que acompanharam essa involução e tentam fazer uma análise aprofundada do futebol brasileiro, propondo mudanças. Essa é o entendimento que a Universidade do Futebol tem hoje e luta para que mais pessoas se juntem a este movimento de mudanças no futebol e na sociedade.

Foto: Sérgio Giglio.

João Paulo Medina. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Além da Alemanha você destacaria outros países que estão se desenvolvendo no futebol?

Veja que até países sem muita tradição no futebol conseguem se desenvolver. Os Estados Unidos, por exemplo, sem muita tradição no futebol (soccer) – pelo menos no futebol masculino – leva mais público aos estádios do que o Brasil. E ainda é comum a gente perceber um desprezo aos Estados Unidos neste aspecto. Ouvimos com frequência frases como “Quem são eles?”,  Os americanos não jogam futebol” e coisas do gênero. Mesmo em número de praticantes, ou seja, dentro de um processo de massificação, eles têm mais gente, em sua maioria crianças e jovens praticando futebol (o soccer) do que nós temos aqui no Brasil. Neste sentido podemos dizer que os Estados Unidos podem ser considerados mais um “país do futebol” do que o Brasil. Isso pode ser chocante mas é verdadeiro, se considerarmos estes dois pilares: público nos estádios e número de praticantes. O que define se um país é ou não o “país do futebol”? Talvez você possa discordar disso, mas se tratam de números objetivos que podem não ser tudo, mas é algo que não podemos desprezar.

Veja que atualmente há mais público nos estádios da 2a Divisão inglesa e alemã do que na Série A do Campeonato Brasileiro. Para quem se considera ainda “o país do futebol” isto é no mínimo frustrante, para não dizer humilhante.  Na Austrália, um país realmente menos envolvido com futebol do que os Estados Unidos, o público da primeira divisão é menor do que no Brasil mas está muito próximo, já tendo sido levemente superior há dois ou três anos. Enquanto isso, aqui no Brasil, vemos dirigentes querendo defender o indefensável ou esperando que caiam do céu as soluções para o futebol brasileiro. A verdade é que temos muito a aprender com diversos países do exterior hoje em termos de futebol. Essa é a lição que precisamos aprender rapidamente e nos inspirarmos em experiências bem sucedidas de outros países.

Um outro bom exemplo é Portugal. Aqui também se ouve muita coisa que visa desprezar o trabalho dos portugueses em termos de futebol. “O que é que eles ganharam até hoje?”. “Treinadores portugueses vêm para o Brasil e não mostram resultados” – entre outras considerações completamente descontextualizadas, sem levar em conta vários aspectos importantes que Portugal vem fazendo. O presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Gomes, também membro de um dos comitês da UEFA, me recebeu em uma audiência em seu gabinete em Lisboa e disse: “Eu só comecei a entender caminhos para o futebol quando percebi que, se não cuidasse da base – e falando de base também como massificação –, jamais iria conseguir evoluir no futebol. Tem que estar sempre investindo na formação renovada de profissionais que atendam as demandas de um mercado cada vez mais competitivo e exigente”. Hoje aqui no Brasil os dirigentes nem dão muita bola para as categorias de base, a não ser para facilitar o ingresso de jovens, às vezes sem muito talento, mas ligados a empresários amigos ou com interesses comuns, algumas vezes até suspeitos.

Hoje a escola de formação de treinadores de Portugal é referência no futebol europeu. Li há mais ou menos 2 anos, no Trivela (site) que entre os clubes campeões dos campeonatos europeus havia sete ou oito treinadores portugueses. Ou seja, portugueses dirigindo times de primeira linha da Europa. A gente sabe e acompanha a escola do Porto, clube que tem uma proximidade muito grande com a Universidade de Porto. Eles têm ali há bom tempo uma escola de formação de profissionais para o futebol. E nós aqui no Brasil estamos no estágio de ainda nem exigir a formação acadêmica de nossos profissionais. Um atraso inadmissível, não só em termos de alto rendimento, como também na formação e programas pedagógicos para a massificação da modalidade. De forma mais rigorosa, não dá nem para falar que nossa escola seja ruim. Nós praticamente não temos escola hoje em dia! Nossa escola da “pedagogia da rua” está se esvaindo. E isto é muito grave; muito, muito grave!

Confira a última parte da entrevista no dia 23 de dezembro!