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Leda Costa

Equipe Ludopédio

Leda Costa é doutora em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Defendeu a tese “A trajetória da queda. As narrativas da derrota e os principais vilões da seleção em Copas do Mundo“. É pesquisadora vinculada ao NEPESS (Núcleo de Estudos e Pesquisas Sobre Esporte e Sociedade – UFF, Universidade Federal Fluminense) e Editora-chefe da Revista Esporte e Sociedade (www.esportesociedade.com). Organizou o livro “Enquanto a Copa não vem. Memórias e narrativas sobre futebol“, publicado pela EdUFF, em 2013, que reúne a produção de importantes pesquisadores, visando lançar sobre o fenômeno futebol uma perspectiva que abarque diferentes áreas do conhecimento. Possui o Blog Caravana de Boleiros (www.caravanadeboleiros.com.br) em que narra suas visitas a diversos jogos, sobretudo, aqueles fora do circuito mainstream do futebol.

Foto: Sérgio Giglio

Leda Costa. Foto: Sérgio Settani Giglio.

 

 

Parte 1

Em sua infância, quais são suas lembranças de futebol?

Lembranças de futebol que tenho é meu pai ouvindo No Mundo da Bola, um programa esportivo da rádio nacional aqui no Rio de Janeiro, que era bem famoso. Meu pai fumava demais e dormia muito tarde, e eu o acompanhava ouvindo rádio. Esse foi meu primeiro contato com futebol, ainda distante do jogo. Meu primeiro contato, de fato, seria na Copa do Mundo de 1982, em que eu torci e fiquei bastante triste com a eliminação do Brasil. Em 1986, também foi um momento marcante, mas foram contatos ainda periféricos e mediados pela seleção brasileira. Só quando eu fiz 15 anos é que comecei a ficar bastante obcecada pelo Vasco e consequentemente por futebol. Eu já era vascaína, mas não era obcecada.

Essa é uma história um pouco trágica… Meu irmão faleceu quando tinha 15 anos. Era mais velho do que eu e meu único irmão. Ficou um clima difícil lá em casa, minha mãe e meu pai ficaram fora de si, e eu, sozinha. Precisava de algum modo parar de pensar naquele momento e ressignificar a vida, dar sentido à existência, porque minha vida ficou muito abalada. Meu irmão morreu em 89, e aquele foi um ano muito bom para o Vasco. Foi nesse ano que o Bebeto foi contratado. Então, eu juntei duas paixões: ouvir programa de rádio de futebol e acompanhar notícias e jogos do Vasco. “Será que o Bebeto vem mesmo para o Vasco? Vem, vem, vem!”. E veio. Comecei a ver jogos do Vasco seguidamente pela televisão, num momento em que ela passou a dar mais atenção ao futebol. Aquilo, para mim, virou uma distração, e passei a esquecer um pouco aquele problema familiar que me assombrava.

Nesse mesmo ano de 1989, o Vasco foi campeão brasileiro. Lembro-me que vi a final numa TV pequenininha, em preto e branco, do Sorato fazendo gol contra o São Paulo… A vitória é um elemento importante para o torcedor, e eu fiquei mais apaixonada ainda do que já era… Em 2008, dediquei minha tese de doutorado ao Vasco, colocando que ele era meu melhor amigo. Sou uma pessoa que teve uma criação… não rígida, mas que não me possibilitou estar na rua ou ter uma vivência de rua. Então, demorei a fazer amigos, a me sociabilizar. Isso juntou com minha tendência a timidez. E o Vasco foi, de fato, meu único e melhor amigo durante muito tempo.

Nessa relação com o clube, você ia aos jogos?

Isso é fascinante, porque eu demorei demais para ir aos jogos. Eu só comecei a frequentar estádios nos anos 2000, quando já tinha trinta e tantos anos. O que significa que perdi os melhores momentos do Vasco, perdi a final da Copa João Havelange no Maracanã, perdi a queda do alambrado em São Januário. E minha frequência nos estádios começou pelo Maracanã. Demorei mais ainda para frequentar São Januário. Se hoje eu frequento bastante, sou fascinada e enlouquecida por estádios, acho que em grande medida é para compensar os anos que não fui. Escrevi recentemente um texto sobre a relação das mulheres com a arquibancada e eu me lembrei de um poema de uma portuguesa que disse que quando morresse ela voltaria para resgatar todo o tempo que ela viveu longe do mar. Ela tem um caderno de poesias sobre o mar. E eu vivo assim: para resgatar todo o tempo que vivi longe das arquibancadas.

Enquanto eu assistia os jogos pela TV, pensava: “Eu quero estar ali!”. Só que uma série de conjunções de minha vida pessoal não permitiu, e isso só foi permitido nos anos 2000, que coincide com o fato de eu estudar na UERJ, de eu ser monitora e de minha sala de monitoria ser em frente ao Maracanã. Aí ficou uma coisa irreversível. Aquele imaginário de medo que existe um pouco ainda: “Não, você é mulher. Não vai ao Maracanã, porque é perigoso. O Rio é muito perigoso!”. Eu nasci no subúrbio mesmo, no subúrbio de Rocha Miranda, distante, perto de Madureira. Então, não era muito simples chegar ao Maracanã como é hoje, né?! Hoje é simples, tem metrô em diversos cantos do subúrbio do Rio. Em minha época, tinha de pegar o ônibus 711 e passar por dentro de perigosos bairros do Rio de Janeiro para chegar ao Maracanã. Ir não era o problema, a volta, sim. “Como eu vou voltar de lá? Como vou voltar às 21 horas? E quem vai comigo?”, eu me perguntava.

Não fui criada num ambiente de amigos ou familiares que frequentassem estádios. Meu pai não frequentava… Ele gostava, mas não era fanático igual a mim, não! Ele levava numa boa. Tem algumas derrotas do Vasco… Imagine você passar a década de 80 com o Flamengo tendo um timaço e o Vasco… Eu teria tido mil crises. Ele, não, levava numa boa, brincava. Não é dele que vem esse meu fanatismo, é de minha tendência a ser… apegada a várias coisas que deem sentido à minha vida. Meu fanatismo vem como uma espécie de agradecimento pelo Vasco ter me salvado da tristeza.

No momento em que ainda estava distante dos estádios, você já estava na universidade. Como o futebol passa a fazer parte também desse outro ambiente que você frequentava, a academia? A pergunta se dá pelo fato de seu mestrado não ser sobre futebol. Havia já um interesse na graduação por estudar o futebol nessa perspectiva ou era ainda só um consumo dele como torcedora?

Era um consumo dele enquanto torcedora. Eu entrei na faculdade de Letras, que foi onde fiz minha graduação, meu mestrado e meu doutorado. Entrei com o objetivo de me tornar uma intelectual das Letras, uma crítica literária. Então, durante muito tempo fiquei consumindo, no sentido diverso, tanto no de comprar quanto no de frequentar biblioteca e saber todos os autores e críticos de arte e literatura. Eu queria ser crítica de literatura, queria seguir carreira acadêmica dentro das Letras. Para isso, percorri o caminho: fui monitora de literatura brasileira, fui aluna bastante dedicada, não tanto em frequência de aula, mas em leitura buscando uma formação apurada para seguir carreira.

Em meu mestrado, fiz uma dissertação sobre a representação da morte em algumas obras de Machado de Assis e do Lúcio Cardoso. Só que nesse período do mestrado eu comecei a frequentar os estádios. Aí que as coisas ficaram um pouco mais íntimas entre mim e o futebol. O professor Guillermo Giucci Schmidt, que me orientaria no doutorado, foi jogador de futebol. Jogou no Uruguai, na seleção sub-20 do Uruguai, e foi treinador de futebol feminino dos Estados Unidos, sendo que toda a formação foi por conta da bolsa como jogador, em Stanford e Princeton. Deu-se, assim, uma configuração de paixão, que foi aumentando devido à frequência em estádios de futebol. Conversei com ele, dizendo: “Olha, eu quero unir as duas coisas: a paixão pelo futebol e falar do futebol.”. Disse isso por que ele tinha me dado como proposta para o doutorado falar sobre a Carta de Caminha. Disse para ele: “Não vou conseguir por quatro anos falar da carta de Pero Vaz de Caminha. Me desculpa. É interessante, é bacana, é legal, mas não dá.”. Ele topou e propôs que falasse sobre o futebol feminino, que era uma coisa diferente, algo que ele achava que estava demandando alguém falar sobre o assunto. Aceitei e entrei com um projeto em que discutia como o futebol brasileiro, em termos de representação, era predominantemente masculino, privilegiava formas de experiências e corporalidades masculinas.

Não foi fácil entrar. Tive uma dificuldade de aceitação muito grande em Letras, muito grande mesmo. Eu tenho a impressão de que só passei porque eu era dali. Os professores que estavam na banca me conheciam e resolveram apostar, mas eu percebi que houve grande resistência. No meio do doutorado, conversei com um amigo meu sobre Vasco e Flamengo, um dos únicos que torcia de maneira descente para o Flamengo, e a gente ficou pensando quais jogadores nós mesmos considerávamos culpados por uma derrota e por que fazíamos isso. Daí nasceu minha tese que são os vilões do futebol brasileiro, os jogadores que são culpabilizados. Trabalhei com a seleção brasileira porque é um lugar neutro, haja vista que desde 1986 eu não tenho apego à seleção. Com time seria mais difícil, tenho dificuldade de trabalhar com times da Série A, porque tenho problemas com ficar ouvindo gracinha, blá-blá-blá… É meu limite como pesquisadora de ficar ouvindo esse negócio de “vice” e tudo mais. Se eu tiver que pesquisar isso, pesquisarei outra coisa. E escolhi a seleção brasileira também porque, em termos de representatividade, essa ideia do vilão, de narrativa midiática é muito importante em Copa do Mundo.

Fiz a tese de doutorado sobre isso e comecei a investir em estudos sobre a relação imprensa, mídia e futebol, que é o nicho principal que eu gosto agora. Ao mesmo tempo, continuei tratando muito sobre futebol feminino, não necessariamente na ideia de gênero pensada antropologicamente, mas no viés histórico, da experiência de ir a jogos, de questionar esse domínio do futebol masculino. Além disso, essa dimensão torcedora me interessa bastante, pensar quais espaços ocupados pela mulher na arquibancada.

Por que você tem uma desilusão com a seleção brasileira a partir de 1986?

Gente, eu comprei corneta pra ver o jogo! Eu estava muito entusiasmada, adorava aquela seleção, adorava a seleção brasileira. Comprei corneta, vi o jogo, torci pra caramba e, quando a seleção foi eliminada pela França, fiquei muito triste, muito triste mesmo… Eu tinha uma relação de apego à seleção que depois dessa época não consegui ter mais. Só em 1994 chegou perto, quando acompanhei, mas depois tem sido uma coisa que não me causa mais… não sei, algo foi quebrado ali. Depois, também, a seleção ficou cheia de jogadores celebridades, a imprensa começou a ficar muito celebratória em relação à seleção brasileira. Jogadores como Ronaldinho Gaúcho e Neymar às vezes me irritam um pouco, eu não sei explicar exatamente por quê. Mas houve uma quebra em 1986, é como se houvesse ali uma relação de proximidade que não consegui manter mais. Portanto, é sempre mais fácil para mim falar sobre a seleção brasileira.

Em relação aos vilões, você vai percorrer qual caminho em termos de Copas do Mundo?

Eu começo com a Copa do Mundo de 1938 e vou até 2006. Começo em 1938 porque é o momento fundamental de configuração de um imaginário em torno da seleção, que é a ideia do futebol arte, futebol malandro, toda essa identidade futebolística brasileira que permanece e é muito cara até hoje. Há um detalhe que me chamou muito a atenção: a seleção brasileira de 1938 ficou em terceiro lugar. Ficou em terceiro lugar, mas foi recebida no Rio de Janeiro por um milhão de pessoas. Hoje isso dificilmente aconteceria, a seleção tem que ser campeã. Então, isso me instigou a pensar o que aconteceu para haver uma mudança tão grande de representação da derrota, como havia uma certa convivência razoável com a derrota e em 1950 a seleção ficou em segundo lugar e foi o fim do mundo, ou pelo menos esta é a memória que ficou dessa época. Comecei em 1938 para poder contextualizar esse momento que se forma o imaginário positivo em relação à seleção brasileira e, no caso, o Gilberto Freyre e o modernismo vão ser bastante importantes para pensar uma certa mudança de representação em relação ao futebol e, sobretudo, ao futebol brasileiro.

Houve em 1938 uma expectativa muito grande lançada em relação a 1950. Em grande medida, toda aquela decepção da derrota de 1950 tem 1938 por trás. Tem toda uma mudança de concepção de futebol brasileiro, de seleção brasileira que faz com que aquela derrota fique tão agigantada. A Copa do Mundo de 1950 é um momento fundamental, e eu fiquei absolutamente apaixonada por 1950. Apaixonada porque, de fato, eu considero o jogo Brasil e Uruguai mítico, e ele gera todas as possibilidades de narrativas míticas, de muitas histórias, muitas memórias, em que a verdade não é o que importa. Em minha tese, é importante dizer que eu não estou em busca da verdade. Há diversas posições questionáveis, inclusive essa ideia de tragédia, que não aparece muito nos jornais da época. Eu estou em busca de toda mitologia, toda narrativa grandiosa que foi construída com o tempo.

Há pouco tempo, uns dois anos atrás, eu fui ao Museu do Futebol, em São Paulo, e a sala Rito de Passagem é sobre 1950. Então, a gente carrega ainda essa narrativa de 1950 como um divisor de águas. Se o Brasil tivesse continuado a perder, virasse o que o Uruguai virou – o Uruguai nunca mais ganhou Copa do Mundo depois de 1950 –, eu acho que a gente se acostumaria com a derrota. Mas o Brasil ganha em 1958. Aí temos a possibilidade de narrar o futebol de maneira diferente a partir daquela “tragédia” de 1950. Penso os vilões numa longa narrativa. Não tem como narrar uma Copa pensando nela só, ela sempre está em relação à que passou. A Copa de 1950 está em relação à de 1938, a de 1954 é uma clara referência à de 1950 e a de 2014 é uma claríssima referência à de 1950 também, com todos os equívocos que houve. Então, foi essa a minha proposta.

Mesmo nas vitórias da seleção brasileira você tentava encontrar os vilões ou não?

Não, meu enfoque foi as narrativas da derrota. Por quê? Porque só se discute a derrota. A vitória, ela é celebrada. Eu penso que se o Ghiggia tivesse feito aquele gol e um pouco antes do final do jogo o Friaça ou o Zizinho tivesse empatado o jogo, ninguém iria pensar ou questionar se o Barbosa falhou ou não. Isso não iria ser questionado. Aí uma hipótese importante também em minha tese é a de que as narrativas da imprensa, que são o meu enfoque, são movidas pelo resultado do jogo. Isso é notável. É só você pegar o Brasil quando ganha e quando perde. São coisas assim absurdas. Em 1982, a Folha de S.Paulo, salvo engano, deu praticamente como ganho o jogo Brasil e Itália: “Que venha a Itália!”. E quando o Brasil perde há uma série de questionamentos: “Esse negócio de futebol arte, não sei… não ganha.”. Então, a derrota gera uma série de questionamentos, de problematizações, mas que estão ligadas também à necessidade do jornalismo ter sobre o que falar. A derrota é mais dramatizável. A vitória, não. Ela é celebrada: “Vamos lá! Vencemos! Somos os melhores do mundo!”. E ponto final. Não tem problema se é questionável. Ela tem um teor de dramatização muito menor. Por isso que os vilões são personagens da derrota, são aqueles jogadores que culpabilizados por perderem algum jogo, quando o Brasil é eliminado principalmente. E não é qualquer jogador, não! Vai ser um zagueiro, um goleiro. Zico, por exemplo, tinha tudo para ser o vilão de 1986. Não foi. A imprensa o salvou de todas as formas. Óbvio que ele não foi o culpado. Porém, falando em termos de construção narrativa, ele perdeu um pênalti! Quem perde um pênalti é narrativamente o personagem perfeito para ser vilão. E ele não foi. A melhor partida do Dunga em 1990 é contra a Argentina, e Dunga foi o vilão.

Aliás, foi a melhor partida da seleção brasileira na Copa de 1990.

É a melhor partida da seleção brasileira na Copa de 1990, e a enxurrada de criticas que foram feitas em relação ao Dunga e ao Lazaroni então… Ambos tiveram uma carreira bastante marcada por aquela época. É um fenômeno, portanto, muito relacionado à derrota. Brasileiro gosta de derrota, gosta de falar sobre derrota. Acho impressionante! Que dia o Brasil perdeu a Copa de 1950? Você sabe. Que dia ganhou a Copa de 1958?… Então, tentei trabalhar um pouco essa relação.