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Mauro Cezar Pereira (parte 2)

Equipe Ludopédio

O niteroiense Mauro Cezar Pereira iniciou a carreira de jornalista em 1983. Atualmente comentarista da ESPN Brasil, Mauro Cezar passou por diversos veículos, como O Dia, Placar, Jornal do Brasil, O Globo, entre outros. Foi professor dos cursos de Comunicação Social da UNISA e na Pós-Graduação de Jornalismo Esportivo da FMU. Conhecido pela postura sincera e opiniões incisivas, Mauro Cezar participou da cobertura de edições da Copas do Mundo e Liga dos Campeões da UEFA, e comenta diariamente campeonatos nacionais e internacionais.

Foto: Max Rocha

Foto: Max Rocha

Segunda parte

Trabalhando com jornalismo, o que é mais difícil de lidar hoje em dia: a diferença com um colega que é flamenguista ou vascaíno, ou com um colega que é tucano ou petista, por exemplo?

No dia a dia aqui discutindo futebol, até muitas vezes rola uma confusão muito grande. Eu sou um cara muito enfático nas minhas posições e eu faço programas de debate. É mesma coisa que um jogo de futebol quando um comentarista fala assim: “Mas essa falta foi desnecessária”. Isso vale para um jogo de videogame. No jogo de futebol, tem porrada, o pé chega mais alto, o cotovelo funciona…. Até na pelada é assim. O cara que joga regularmente com os amigos e que fala que nunca deu uma entrada mais dura ou nunca deu uma porrada, ele é um mentiroso. Ou, então, que jogo é esse? É jogo de quê? De bonecas? Espera aí! Futebol tem pancada, é um jogo duro, até entre mulheres. Pode parecer machismo da minha parte, mas se você coloca mulheres para jogar futebol, elas vão também chegar junto, vão dar carrinho, tem chegadas mais bruscas. A gente acabou de mostrar Chelsea e Tottenham, e a porrada comeu o tempo todo. Por quê? Tem rivalidade, um time quer ser campeão e o outro é rival, não fez nada a temporada inteira, é a chance de fazer alguma coisa, fazer um brilhareco.

E um programa de debate vai ter confronto de ideias. Quando esse confronto é fabricado, fake, é ridículo, né?! É perceptível. Se não perceber de primeira, vai perceber com o passar do tempo. O choque de ideias, quando é natural, tem que existir. Quando concorda, paciência, vamos concordar. Agora, quando discorda, as pessoas têm de debater. Quando eu estou num debate, eu vou até o final com a minha ideia, tentando passar o meu ponto de vista. Não significa que eu quero enfiar isso na cabeça do cara que está discutindo comigo. Às vezes parece discussão, mas eu prefiro chamar de debate, pois a gente está lá para debater. Já a questão da ênfase vai de cada um. Eu sou um cara muito enfático e defendo os meus pontos de vista com uma certa energia. É minha maneira de ser. Outros são diferentes, aí vai da natureza de cada um.

O futebol é um assunto secundário, discutimos um tema que não vai mudar as nossas vidas. Agora, o debate político é muito mais complicado. Eu não tenho participado de debates assim, porque hoje em dia isso me incomoda muito, me faz até mal. Pela ignorância das pessoas, pelo desconhecimento da história recente do Brasil. A gente vive um momento em que os jovens de vinte e poucos anos e adolescentes defendem elementos como Jair Bolsonaro, o que é uma ignorância. Um cara que exalta um torturador no congresso. Se fosse na Argentina ou no Chile, um cara exaltando o Videla ou o Galtieri ou o Pinochet, esse cara, acho, não conseguiria continuar exercendo o mandato, tamanha a repulsa popular que haveria por um comportamento cretino como esse. Aqui no Brasil tem gente que aplaude. Então, não dá para debater com essa gente. Porque eles são ignorantes na acepção da palavra. E isso independe de você ser pró-Dilma, PT, Aécio, PMDB, Temer, Cunha…. É uma outra questão. É uma questão, acho, muito maior. É a história recente do Brasil. Existe muita documentação, registros, livros, documentários. Quando eu era moleque, eu teria que procurar um livro para saber essa história. Aliás, naquela época nem tinha esses livros porque havia ditadura, ainda estava rolando, mas depois, sim. Hoje em dia, se um cara procurar, vai achar bons textos na internet, vídeos, documentários, muita informação. Então, em dez minutos de leituras, vídeos, ele vai entender: “Espera aí. O que isso significou? Quem é quem? Quais eram esses personagens? ” Mesmo assim, tem muito ignorante por aí. E esses ignorantes têm acesso a qualquer coisa pelas redes sociais. E eles proliferam essa estupidez, esse desconhecimento das coisas, e querem falar com autoridade, como se fossem PhD no assunto. Então, vomitam bobagem atrás de bobagem.

Eu tenho evitado esse confronto porque faz mal pra mim, entendeu? E é muito decepcionante, frustrante até. Eu não tenho Facebook, uma das razões é essa. O Facebook para mim é um depósito de bobagens sem fim, porque qualquer um escreve qualquer porcaria. Mas tenho o Twitter. O Twitter me ajuda bastante no meu dia a dia. E de vez em quando eu tuito alguma coisa e tal e percebo a quantidade de imbecis que aparece. Então, debater esse assunto hoje não dá! É quase impossível, a não ser que algumas pessoas sejam mais razoáveis. Eu cheguei a romper contato com gente com quem eu falava pelo Twitter por conta disso. Especialmente com os intolerantes.

Quando você consegue conversar com alguém. Uma conversa civilizada é legal, de repente até você pode rever algum argumento. Talvez ele (o debatedor) tenha os seus motivos, as suas razões; a gente tem que respeitá-los, é claro. E a chance também de você colocar o seu ponto de vista para essa pessoa. Mas, em geral, esse diálogo é impossível. Eu fico muito à vontade para falar isso porque eu votava no PT nos primórdios. Eu parei de votar no PT muito lá atrás. Eu não elegi o Lula nenhuma vez. Então, eu votei no Lula quando ele perdeu para o Collor. Eu fui a comício do PT na Cinelândia, no Rio, em 1982 e daí em diante. Eu estava na faculdade. Eu votei em Lysâneas Maciel, em 1982. Muitos nem se lembram quem é ele. Fui ao comício do Gabeira, quando saiu candidato no Rio, para prefeito. Nem votava na capital, votava em Niterói. Isso foi em outra época. Depois, parei de votar no PT porque eu comecei a perceber semelhanças, não tantas assim, mas muitas semelhanças com quem já estava no poder e, estando no poder em algumas prefeituras e estados, a capacidade de se juntar com aquilo que eu abominava. Então, eu comecei a me afastar daquilo. Aquilo me aborreceu. Então, eu não me considero um petista, ou talvez eu seja petista e o PT tenha deixado de ser petista, partindo do ponto de vista inicial. Mas eu não tenho vínculo partidário, devoção a nenhum político do PT.

Uma dúvida sobre o que você pontuou. Você comentou que no futebol existe um espaço para o debate atualmente, mas no campo político esse espaço está inviabilizado. Você consegue ver semelhanças entre as práticas que permeiam o futebol, muitas vezes vinculadas a essa questão da intolerância ao debate político que a gente está vivendo neste momento de instabilidade política terrível? Em sua opinião, ao que se deve essa impossibilidade de se realizar o debate no campo da política?

Em primeiro lugar, acho que é uma novidade você poder utilizar meios, que são as redes sociais, para se comunicar com pessoas de qualquer parte do mundo, o tempo todo e até coletivamente. As pessoas não sabem ainda trabalhar com isso. O agravante de internet ainda – eu falo “ainda” por que eu acho que um dia isso vai acabar – ser uma espécie de velho oeste, onde você ofende, xinga, acusa, e nada acontece. Um dia isso vai mudar, já existe, inclusive, jurisprudência. O cara vai chegar ali e escrever: “Você é um desonesto, um ladrão, um safado e tal…”. “Prove. ”. Não provando, vai de alguma maneira ter que responder para o juiz. Só que essa operação de levar um cara desse até a justiça ainda é muito complicada. Por que também? Porque o Brasil é um país muito violento em que o sistema ainda está lidando com coisas muito maiores do que uma ofensa na internet. São chacinas, assalto, roubo, crimes dos mais diversos…. Então, dificilmente você vai encontrar espaço para lidar com essas questões menores. Isso possibilita um ambiente virtual propício a esse tipo de comportamento. Esse é um ponto. Quer dizer, os covardes estão à vontade, porque acham que ali a impunidade vai rolar – e geralmente rola mesmo.

Ainda nesse comparativo do futebol com a política, do futebol com a sociedade, é relativamente comum a gente perceber no jornalismo esportivo, mesas de debate, discussões sobre temas que envolvem etc. Em sua opinião, no campo da política, é possível realizar um programa com esse mesmo propósito, de debate, de discussão? Como você enxerga essa questão do debate político via jornalismo?

Eu acho que é possível e até necessário. Vou dar um exemplo: todos nós temos um time. Agora, o meu time de infância fica lá atrás quando eu venho trabalhar. “Ah, isso é conversa fiada sua.”. “Não. ”. Eu nunca ganhei um centavo de time de futebol, nunca fui assessor de imprensa no futebol, nunca trabalhei para time de futebol.

Segundo, você quando trabalha com futebol, vai trabalhando isso ao longo do tempo. Eu fui repórter muito tempo no Rio, cobri todos os times do Rio. Então, você aprende a lidar com isso. E me orgulho muito de todos os times que eu trabalhei, principalmente daquele que eu fui torcedor a minha vida inteira. Inclusive, tinha gente que me detestava. Dirigente de futebol e equívoco são coisas que não desgrudam, são muito difíceis de separar. E eu fazia as matérias que tinha que fazer, pouco me importando com o que pensassem. Eu não comemoro gol do meu time se eu estou na redação da ESPN Brasil trabalhando, vendo um jogo. Isso é uma questão de respeito ao ambiente de trabalho. Se estou na minha casa assistindo partida do meu time, eu posso torcer, vibrar. É até bom fazer isso de vez em quando, como uma terapia, para extravasar um pouco. Senão, fica uma coisa meio reprimida ali, porque você quando gosta de um time e vira jornalista esportivo, você vai carregar aquilo a vida inteira. É uma coisa mais forte do que você.

As pessoas até falam: “Ah por que jornalista não fala o time que torce? ”. Eu frequento estádio de futebol. Sou do Rio e vou falar dos times do Rio. Imagine se eu tivesse um escudo do Vasco na testa e fosse ao jogo do Flamengo no Maracanã, e vice-versa. Como eu seria recebido? Aí às vezes as pessoas falam: “Ah, mas fulano fala o time, beltrano fala o time…”. Sim, geralmente quem fala o time não vai aos jogos. Ou só vai a jogo do time dele, não vai ao jogo do rival. Eu vou para o jogo que eu sou escalado. É uma questão até de segurança. Mais importante do que isso, o que me preocupa, é você ficar rotulado como um jornalista ligado a um time. Eu não sou jornalista ligado a time nenhum, sou ligado ao meu trabalho e naturalmente à empresa que me contrata. Esse é o meu capital. Meu capital é o quê? É a minha credibilidade, o respeito que as pessoas podem ter por mim, meu trabalho. Se eu deixo contaminar isso por paixão clubista, com todo o respeito, eu sou um idiota.

Agora, na política, após essa longa reflexão, se você colocar um intransigente para debater com alguém, é melhor não colocar ninguém. Porque o debate não pode ser por pessoas que defendam lados. O debate político tem que ser com pessoas que consigam ser minimamente neutras.

Então, o debate político pode ser legal se você encontrar personagens que consigam discutir o assunto, mas buscando uma neutralidade. Senão, imagine: vai haver dois caras, um extremamente contra o governo federal, outro totalmente a favor. Eles vão ficar ali brigando e o que se pode tirar daí? Será que a gente vai tirar alguma coisa interessante?  São situações que, em um programa equilibrado, talvez você consiga até fazer com que as pessoas formem opinião, que é o propósito. Agora, se você colocar ali dois caras com a camisa dos respectivos partidos praticamente, aí não vai adiantar nada.

Foto: Max Rocha

Foto: Max Rocha

Você falou do papel secundário do futebol na sociedade, embora não dissesse de modo pejorativo. Na condição de ser um campo “secundário”, o jornalismo esportivo tem algum canal, algum instrumento, algum poder que poderia oferecer caminhos para essa restauração do debate político? Ou você acha que na atualidade isso não é mais viável via jornalismo esportivo? É possível pautar essas discussões políticas via esporte? Fazemos essa pergunta baseados na atuação da revista Placar no início dos anos 1980, quando ela endossou o movimento da Democracia Corintiana e a campanha das Diretas Já. Talvez você poderia discutir, por exemplo, a pequena parcela da imprensa esportiva que deu uma visibilidade necessária para o movimento do Bom Senso.

Eu acho que a maioria dos jornalistas esportivos prefere falar só de futebol. Não por que não tenham opinião, mas por que preferem não falar ou por que não pode falar, não sei. Aí depende de onde trabalha, de uma série de questões. É ótimo que tenha tido uma revista de futebol, dirigida então pelo Juca Kfouri, se posicionando a favor das Diretas e apoiando a Democracia Corintiana, que pelo ambiente político, era uma coisa que extrapolava um pouco as quatro linhas e o futebol em si. Agora, hoje, no atual cenário, não sei se consegue ter tanto impacto. A intolerância está tão grande que, se você tomar qualquer posição, você acaba criando uma rejeição de outro lado. É um negócio muito doentio.

Uma coisa comum, por exemplo: eu vou à rede social e dou uma opinião sobre política. Aí o cara escreve: “Eu acho que é melhor você falar de futebol. ”. Dá vontade de responder: “Eu falo do que eu quero, seu imbecil. Você me segue por que você quer. Você acha que eu sou uma toupeira que só pode falar de futebol? Porra, eu falo do que eu quero. ”. O cara escreve: “Vou te dar unfollow. ”. Não precisa falar, dá unfollow. Vá procurar o que fazer. Se não gostou, não precisa seguir. Eu não estou pedindo para me seguir. Mas o que é isso? Se eu falo sobre política o que ele quer ouvir, ele vai escrever: “Porra, do cacete! Você me representa! ”. Como eu tenho um outro pensamento, ele quer que eu fale sobre futebol. Olhe que abuso! Que direito um camarada tem de te dizer que você não pode falar sobre determinado assunto?

Até é muito comum isto: às vezes eu sou atingido por uma ofensa, vou lá, printo e retuito mostrando: “você me segue”. Outro dia o cara escreveu assim: “Você só fala merda! ”. Escrevi de volta: “Então, você é um consumidor. Cuidado com a indigestão”.

Por exemplo, eu não sigo vários perfis famosos. Não sigo porque não gosto das opiniões deles, da postura. Acho que têm todo o direito de se manifestar lá com as pessoas que acompanham, mas eu não me identifico com as ideias deles, não gosto do tom. Se eu estou lendo o jornal e vejo certos colunistas, passo direto. Nem leio. Não vai me acrescentar. “Então, você é contra ele? ” Não, eu não sou contra a existência de ninguém. Acho que está lá ocupando um espaço e falando para quem quer ouvir. A mesma coisa vale na televisão, na rede social. Não dá para agradar todo mundo. Se for agradar todo mundo, aí a gente volta no início da conversa: que opinião eu tenho? Aí não faz sentido.

Em breve publicaremos a terceira parte da entrevista!